sexta-feira, setembro 28, 2012

Larissa

Tinha apenas 5 anos quando aprendi uma verdade incontornável.

Nós éramos pobres e eu gostava muito de brinquedos. A minha mãe saía do trabalho e vinha-me buscar ao infantário. Levava-me depois pela mão pelas ruas do Porto, onde ia fazer alguns recados antes de ir para casa: pagar contas, ir ao correio, compras de última hora para o jantar...

Naquela altura, o Porto tinha muitas lojas de rua e muitas lojas tinham brinquedos nas montras. Eu obrigava a minha mãe a parar em cada montra ficando a observar os brinquedos coloridos de olhos grandes. Inevitavelmente, acabava sempre por pedinchar todos os brinquedos, um a um.

"Mãe, dás-me aquele brinquedo?"
"Não, filha" - respondia com alguma consternação
"Porquê?"
"É muito caro, a mãe não tem dinheiro"
"Porquê?"
"Porque o brinquedo é caro."
"Há algum brinquedo barato?"
"Não."

E eu seguia-a triste, de olhos rasos de água porque eu queria tanto um brinquedo. Na montra seguinte, alguns metros à frente, eu repetia o ritual: estancava, obrigando-a a parar, para contemplar em adoração todos os brinquedos. e pedia "Mãe, dás-me aquele brinquedo?"...

A minha mãe tinha muita pena de não me poder dar nenhum brinquedo, mas não me queria fazer chorar, por isso todos os dias suportava o ritual em que eu adorava as vitrines fazendo-a demorar-se. E deixava-me contemplar as coisas que eu não podia ter porque, já que não me podia dar o objeto, não queria privar-me de sonhar um pouco com ele - mesmo que depois eu tivesse de encarar a realidade de que não ia poder obter o que desejava.

Mas de cada vez que me dizia "não", ela sentia o coração apertar.

Um dia de outono, a minha mãe foi-me buscar ao infantário. Era daqueles dias em que o tempo estava esquisito e ela não trouxe guarda-chuva. Começou a chover muito.

E nós tivemos de entrar numa loja para nos abrigarmos.

Era uma loja de brinquedos.

A minha mãe ensinou-me que não se mexe em nada nas lojas. E ensinou-me que não se interrompem os adultos. por isso eu estive um bom bocado até ao aguaceiro passar a ver os brinquedos todos e a morder a língua para não pedinchar todos como de costume.

Ela percebeu. Quando se baixou para me vestir o casaco novamente e sairmos para a rua eu disse-lhe ao ouvido, baixinho: "Mãe, dás-me um brinquedo pequenino?"

Era um pedido doce, sussurrado e muito razoável para uma menina de 5 anos. Se ela pudesse, dar-me-ia o mundo, mesmo sem eu pedir. Mas não podia.

Abotoando o meu casaco, ela estava ao meu nível. Olhou-me diretamente nos olhos e disse com a seriedade de quem faz uma promessa solene:

"Não te posso dar nada agora, filha; mas se me sair a lotaria, dou-te todos os brinquedos que tu quiseres."

Os meus olhos brilharam incrédulos.

"Todos, mãe?" - perguntei testando a realidade.
 "Todos." - respondeu com honesta seriedade - "Mas temos de passar no quiosque antes que ele feche para comprarmos um bilhete."

Segurei-lhe a mão e arrastei-a eu para fora da loja, deixando-a seguir com os seus recados porque eu não sabia o que era um quiosque ou um bilhete.

A partir daí, as saídas do infantário que eram uma série de desilusões seguidas, passaram a ser os sonhos todos que eu quisesse.

"Mãe, se te sair a lotaria, dás-me aquele brinquedo?"
"Sim, filha" - e eu ficava feliz.
"E aquele?"
"Sim." - dizia sorrindo

E de cada vez que me dizia "sim", ficávamos as duas muito felizes. E eu deixei de perguntar a medo, porque já sabia a resposta, e comecei a perguntar feliz, porque já sabia a resposta.

E quando já estávamos a ficar com pouco tempo, ela dizia: "anda, que temos de chegar antes de fechar o quiosque."

Tinha apenas 5 anos quando aprendi uma verdade incontornável; bom, na realidade, duas verdades incontornáveis:
(1) a felicidade é muito mais uma questão de perspetiva do que de facto (porque imaginar, sonhar, projetar é muitas vezes melhor que possuir de imediato) e (2) a minha mãe será sempre mais esperta que eu.

4 comentários:

[garfanho] disse...

:-)

Anónimo disse...

Ternurento : )
Dri

carla martins disse...

:))

Anónimo disse...

És um doce. Gostei muito da Larrisa.