domingo, fevereiro 05, 2012

Balbina

Balbina era uma moça vistosa e faladora. Filha de uma das melhores famílias de Ovar, estudava no Porto, numas freirinhas, que a terra não oferecia o ensino de qualidade que a mãe e o pai aspiravam para os filhos.

Apesar dos inúmeros pretendentes em Ovar e no Porto, Balbina namorava à janela para um moço, Jorge Leitão, de uma família não tão abastada e certamente com menos pedigree.

Mas Balbina era louca por Jorge.

Determinada como só as meninas bonitas e de boas famílias conseguem ser, conseguiu convencer a mãe a mudar a secretária onde estudava e fazia os lavores da escola para perto da janela, de modo a que ficasse com visibilidade para a rua mas da rua não a conseguissem ver.

Entretinha-se esperando à tarde por que Jorge passasse pela sua janela para conversarem horas perdidas, fazendo as suas tarefas escolares apenas como pretexto para que o tempo passasse mais depressa.

Ninguém sabia, mas Balbina tinha tamanha obsessão pelo namorado que até lhe conhecia as rotinas de cor e era capaz de o identificar a grande distância, reconhecendo-o mesmo quando ele ainda travessava a ponte.

Toda a gente sabia, no entanto, o quão assolapada era a paixão da garota pelo jovem - e daí que lhe estivesse vedadíssimo sair de casa para namorar. Namoro à janela e com supervisão era a receita dos pais. e nem pio!

Quando Balbina via Jorge passar a ponte, sabia que tinha 15 minutos para ir ao espelho pentear o cabelo e beliscar as bochechas para ficar mais bonita e assim podia assomar à janela como se nada fora - ainda mais bonita e trigueira - apenas quando ele por lá passasse para a namorar.

E assim era a vida de Balbina: levantar-se de manhã para o colégio e voltar muito depressa para casa, para esperar o seu amado; namorar à janela e esperar por um novo dia.

Até que um dia, ao longe, na ponte, Balbina viu o seu amado de mão dada com uma outra. Outra cachopa. Que ela não reconhecia.

E o mundo caiu-lhe em cima dos pés, juntamente com o seu coração que se desfazia nas suas lágrimas.

Mas Balbina era quem era. Uma menina bonita e mimada.

Quando Jorge lhe chegou à janela nesse dia, desceu as escadas e saiu à rua rompendo as proibições todas, para cara a cara tirar as suas satisfações.

E a uns palmos do seu amado, teve a confirmação que temia. Jorge enganava-a com outra.

Balbina virou costas, entrou em casa e jurou que nunca mais ia ser enganada.

Ganhou um ódio de morte ao antigo namorado e arranjou outro namorado na terra. E mais uns quantos no Porto, com os quais chocava a sua pobre mãe que ia sabendo das companhias da filha pelo apertado círculo de cusquices que sempre circundava as meninas de boas famílias.

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