sábado, outubro 29, 2011

Firmino e Matilde

Os velhotes caminhavam sempre de mãos dadas.

Ela trazia o carrinho das compras, ele trazia a bengala.

Tinham personalidades extremas - de extremo mau-feitio e de extrema ternura - que não se preocupavam já em amenizar.

E partilhavam tudo.

Matilde limpou sempre o rabo de Firmino quando ele partiu a perna. Não sentiu mais nojo do que se limpasse a sua própria merda.

Firmino cuidou a sutura da mama de Matilde que teve de ser retirada, com o amor e o cuidado de quem trata de uma parte ferida do seu próprio corpo e ajudou-a a sentir-se outra vez bonita e mulher, fazendo-a olhar-se pelos seus olhos.

Matilde cuidava as unhas encravadas de Firmino religiosamente, Firmino tirou os pelos do buço de Matilde e maquilhou-a quando ela esteve internada 2 meses e a vieram visitar os parentes de França - ela queria estar bonita para a família que vinha de longe.

Quando eram jovens, faziam amor todos os dias com a ânsia de quem está incompleto e precisa de se encontrar. Entrelaçavam os dedos e as línguas no ato de se penetrarem e se receberem mutuamente.

E a vida dos dois, a duo e a solo, seguiu com os seus altos e baixos.

Eram iguais e diferentes como os dois hemisférios de um mesmo cérebro, cujas funções e vocações são completamente diferentes mas cujo DNA é partilhado, cujo propósito é o mesmo, cujo corpo é uno. Com formas diferentes de resolver os mesmos problemas, com recursos distintos e, ao mesmo tempo, complementares.

Nas coisas em que Matilde era frágil, Firmino era forte, nas coisas em que Firmino era fraco, Matilde era rocha. E equilibravam os momentos de suspensão e segurança mútuos como quem sobe uma escada de bombeiro, um pé no ar quando o outro está no chão, uma mão na escada, quando a outra alcança o próximo degrau.

E ao longo da vida foram entrelaçando as palavras, os gestos e os sentimentos no ato contínuo de se penetrarem e se receberem mutuamente, estivessem onde (e como) estivessem.

No dia em que o autocarro os atropelou na passadeira perto de casa ao chegar das compras, como estava escrito nas estrelas que o faria, apertaram as mãos com força, mais por medo de se perderem um ao outro do que de perderem a própria vida. e morreram completos, sem a deformidade de lhes ter sido amputado o membro mais querido.

3 comentários:

Rui Zink disse...

Gosto do conto. Tem uma direcção e é comovente.

Dri disse...

Uma das tuas melhores personficções : )

Loopy disse...

Sr. Rui Zink! Uma honra tê-lo por este modesto estaminé :) Muito obrigada pelo comentário! Vá aparecendo :))

Dri - a gerência agradece o comentário e acrescenta que imaginava que todos os pequenos detalhes por que estás sempre a clamar te fossem agradar aqui :)))) Ainda bem que gostaste :D **