quarta-feira, agosto 31, 2011

J'aime

Maria e Alexandre conheceram-se na Faculdade e pouco tempo depois de terem começado a namorar estavam a morar juntos, contra todo o bom senso que lhes tinham impingido e nadando no sentido da corrente.

Começaram a viver em função um do outro no dia em que perceberam que não paravam de rir quando estavam juntos e juntos, apesar das suas respeitáveis licenciaturas em curso, aprenderam a cuspir fogo e foram inaugurar o Estádio do Braga no Euro 2004, aprenderam a andar de andas e faziam animação de rua. Trabalhavam juntos nos projetos de Maria, em Comunicação Social, trocando ideias para argumentos de curtas metragens e angariando amigos para as concretizar; trabalhavam juntos nos projetos de Alexandre em Psicologia, com críticas e ideias de melhoria.

Moravam na mesma casa e - mais que isso - viviam juntos.

Mudaram a vida toda um em função do outro sempre que a Vida assim o exigiu e aguentaram todos os bons e maus momentos que lhes surgiram. E nunca perderam de vista que - mais que nada - se amavam como amigos, se queriam como companheiros.

Quando casaram, Alexandre fez um discurso e comoveu todos, lembrando que não há "para sempres" mas que é possível ser finito, que ser finito não é saber o que o destino reserva, é navegar sem horizonte, é agarrar o que nos aparece e tentar tirar disso o melhor.

Continuaram a sua vida modesta de dinheiro e rica de tudo o resto, agarrando o que aparecia e tentando tirar disso o melhor. Nos bons e maus momentos, a vida a dois teve altos e baixos, mas nunca foi aborrecida.

E um dia, quando ainda eram ambos crianças no corpo de gente grande, passaram a ser três, com o nascimento de Jaime.




E o memorável discurso de Alexandre está aqui.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Rodolfo

O coração é esse músculo desobediente a quem não importa o que o lhe mandam fazer, é o rebelde a quem não se pode mandar bater baixinho, estar sossegado. Porque tem a mania que é independente e faz o que quer.

E como não é racional, faz muitas asneiras. e às vezes faz as coisas grandiosas que só os audazes almejam.

Rodolfo chegou sem se anunciar porque vivia como quem sabe que a vida é uma queda livre, mas era capaz de apreciar a liberdade que isso lhe proporcionava, de sentir o vento na cara, apreciar a paisagem e perceber o próprio ritmo do seu coração no processo de ver o chão aproximar-se.

E por isso não tinha vergonha de pensar com o coração e sentir com o cérebro.

Conheceu Salomé muito antes de a amar e amou-a quando já não tinha tempo para o fazer, roubando-o a todos os cantinhos de coisas que podia e não devia.

Porque se o tempo corria em linha reta, rumo ao desconhecido inevitável, Rodolfo optava por viver em contra-relógio, numa entrega total a e em cada momento, bebendo a vida como se fosse um peixe e a respirasse, sofregamente, até a esgotar, na esperança de num último momento descobrir um novo tanque de H2O. de no último momento sentir um arnês segurá-lo, evitando a colisão frontal com o solo. Mesmo se à partida parecia que esta seria a sua última reserva. Mesmo se não se lembrava de estar a fazer bungee jumping em vez de queda livre.

Porque Rodolfo sabia que, independentemente das probabilidades, uma história não acaba até ao seu desfecho e que a Vida dá mais voltas que a Terra.

sábado, julho 30, 2011

Joana

Joana foi o primeiro grande amor da família e a notícia do seu nascimento percorreu o clã como a água que rega uma planta seca: abarcou todo o solo antes de se entranhar.


Foi a primeira e muito aguardada criança da sua geração e toda a família tinha uma paixão assolapada pela menina que era a epítome de tudo o que uma menina representa: era delicada, meiga, doce, engraçada e frágil, embora gostasse de se fazer de aventureira e de dizer que não tinha medo.


Irresistível, portanto.


Corria às voltas no jardim, brincando de guerreira e chorava baixinho, como se estivesse contrariada por o fazer, mas sentida, quando se magoava ou quando os meninos não a deixavam brincar com eles.


No corre-corre dos dias, Joana trazia aos pais uma noção diferente do tempo, porque ter 5 minutos para chegar à escola não é nada quando não se encontra o brinquedo ou se tem os sapatos desapertados.


E os dias corriam devagar no quotidiano e depressa quando percebiam o quanto tinha crescido pelas fotografias ou nas reuniões familiares, quando todos o comentavam.


A criança culminava todos os atributos referidos com uma grande facilidade em fazer sentir aos familiares e amigos o quanto gostava deles e quão feliz estava de os ver e estar com eles. Joana era genuinamente meiga e carinhosa e parecia que correria o mundo para estar com cada pessoa, que por seu turno sentia que correria o mundo por ela.


O sentimento coletivo era, portanto, de um amor incomensurável e proteção, como um abraço que escuda. Todos queriam saber as novidades da escola, as actividades extracurriculares, os namoradinhos, ver os desenhos e pendurá-los na parede, adormecê-la e correr com os seus medos infantis e amorosos. Os momentos pequeninos eram disputados entre todos, por verdadeiros privilégios. A suas estórias e pequenas anedotas partilhadas entre todos da forma babada que fazem tios, primos bastante mais velhos e avós.


Por tudo isto, no funeral da mãe, as lágrimas sentidas e coletivas escorriam confusas, e não sabiam de quem era coração pretendiam lavar, se o seu próprio, se o de Joana, se o do seu pai.


Porque se Joana foi a primeira grande paixão da família, a perceção do seu desamparo súbito bateu em todos como uma onda do mar bravo que se apanha quando se virou as costas ao oceano. E todos perceberam que não importava o tamanho e a força do seu amor pela menina, que Joana teria de nadar sozinha nas águas em que apenas uma mãe chega para amparar na corrente.


A todos os outros apenas a oportunidade de observar e esperar na praia para a acolher nos momentos em que o mar a trouxesse à areia. E como o sentimento coletivo era - como sempre fora - de preservação e proteção, compreender que nada podia ser feito por Joana que a compensasse da perda e dos desafios que a morte da mãe representa, as lágrimas corriam sem saber para onde ir.

sexta-feira, julho 22, 2011

Dália

"Não vou deixar o meu amanhã estragar o meu hoje. Vou lutar. Isto não está acabado."

Dália segurou a mão do marido.

Elias estava em estado de choque. A sua mulher, a mãe dos seus filhos. A sua melhor amiga. A sua companheira. A sua vida. Em inexpugnável fase terminal.

Na cabeça de Dália, uma catadupa de pensamentos em turbilhão. As crianças, o sol, o cinema, a casa, o cheiro da roupa lavada, a viagem sempre adiada a Nova Iorque, o concerto de Tom Waits que nunca foi ver. E o cheiro das crianças, a forma do corpo delas abraçado ao seu. O peito de Elias e a curva do seu braço em que se enrosca a dormir. O cheiro do café matinal durante a semana. Acordar nos Domingos de manhã antes de toda a gente e fazer pequenos almoços especiais. Almoços de família. Gelado de melancia da Neveiros. As tardes na piscina. As festas de aniversário da família com toda a gente. Os abraço dos pais. O cheiro da marmelada a ser feita no outono. Fazer amor com o marido. Dar-lhe a mão no cinema. Andar abraçada com ele na rua. Os desenhos dos filhos no frigorífico. E quem vai cuidar agora dos filhos dela? Quem lhes vai dar conselhos e explicar os factos da vida? Quem lhes vai soprar as feridas e dizer que está tudo bem? Será que se vão lembrar dela quando forem grandes? Será que depois de morrer vai poder olhar por eles como dizem as histórias? Quem vai cuidar das plantas? E da casa? O que é que vai acontecer aos bonsais? Será que Elias vai encontrar outra mulher? E será que ela vai ser boa para as crianças? Quem vai incentivar Pedro a expressar o seu lado artístico? Como é que Mariana se vai aguentar numa casa só de homens? Como é que ela vai partilhar as primeira dúvidas femininas? E os pais? Como se vão aguentar sem a sua única filha? Como é que ela vai dizer à mãe as más notícias? E ao pai? E no fim? Será que vai ter muitas dores? E antes? Será que vai sofrer muito?

Queria chorar muito e berrar alto, queria dizer ao mundo, ao universo, a Deus, se ele existisse, que não era justo e que não podia morrer.

Mas Dália sabia que era o rochedo do marido. Segurou-lhe a mão com força e prometeu que ia lutar até ao fim, sem lhe dizer mais nada dos seus pensamentos e sem conseguir segurar as lágrimas silenciosas e rebeldes.

domingo, julho 17, 2011

Salomé

O tempo assumia formas estranhas para Salomé. O tempo é essa película de nada que cobre o mundo de forma completa, que os relógios tentam disciplinar, mas que qualquer criança sabe que não tem regulação possível. Que cinco anos são uma vida e cinco anos não são nada, que as férias passam a voar e as sextas feiras nunca mais acabam.

Havia quem lhe dissesse que tinha de ser mais objetiva, esquecendo-se que a imaginação conjunta o mundo.O equador é a linha imaginária que divide o mundo em duas partes; as fronteiras são linhas imaginárias que dividem os territórios em países; em matemática, a unidade imaginária permite aceder aos números complexos; o Pai Natal é uma criatura imaginária que traz presentes às crianças no Natal; o português médio é uma figura imaginária que representa os valores da População Portuguesa, em média... Etc.

E para ela o tempo era especialmente indisciplinado e rebelde. O tempo que parecia demorar-se nas conversas com Rodolfo que lhe coloriam o dia, fugia pelos cantos da sala onde trabalhava, esquecia-se de responder a mensagens de telemóvel, em cinco minutos adiados sucessivamente. O tempo, essa criatura imaginária que tanto a ajudava como gostava de a judiar, arrastando-se e correndo, mas que de vez em quando lhe dava o prazer de uma dança, em que o tempo era o certo e ela perfeitamente coreografada.

Salomé sentia que o tempo, para ela, não passava, porque "passar" indica que o tempo anda a um ritmo mais ou menos controlado, ele anda em linha reta mais ou menos devagar, mais ou menos depressa. E para si o tempo rodopiava, andando para trás e para a frente, para os lados, quando se lembrava de João, das avós, da porta de casa mal fechada, das tartes de morango que se tinham de reservar de sobremesa no sítio do costume, das férias no Algarve este ano, do prazo do trabalho para entregar amanhã.

Porque a vida de Salomé, tal como o seu tempo, não passava. A vida de Salomé era um conjunto imaginário de todas as suas experiências, vividas uma, duas, mil vezes, na primeira pessoa, na segunda pessoa, na sua memória, nas histórias que contava às outras pessoas, nas coisas que lhe contavam, nos livros, nos filmes, nas músicas, no sentido que tentava fazer de tudo, um pouco diferente a cada vez. E, por isso, a vida não passava em linha reta, a vida dançava rodopiando para trás e para a frente em eterna repetição e em constante inovação, com significados novos e coisas inesperadas em cada momento.

Em Salomé um dia podiam ser anos e uma semana passar sem se dar conta. Em Salomé o tempo agia de forma estranha, independentemente das suas tentativas de o disciplinar com horários. Esticava-se e crescia nuns lados, era fugaz noutros. E a sua vida era a real medida do seu tempo, independentemente dos calendários e relógios.

Porque a vida acontece como a vivemos e a contamos, não como de facto se passou.


Palco do Tempo - Noiserv

segunda-feira, junho 13, 2011

Camila

Lembrava-se de ser uma noiva feliz, cheia de sonhos e esperanças, apaixonadíssima e feliz, não se pode descrever de outra forma, arrebatada de um sentimento absoluto, inteiro, pleno.
Camila  era o centro da animação, sempre. Quem visse a sua energia inefável, o seu bom humor, a sua capacidade organizativa em prol dos outros, sempre em prol dos outros, não imaginaria quão opostas eram as águas profundas que lhe corriam na alma.
Quando Amália conheceu David, Camila foi conspiradora-mor da sua felicidade, arranjando pretextos perfeitos para Amália sair de casa, servindo de alibi para as suas escapadas com o namorado secreto.
Quando decidiram casar, Camila mostrou mais uma vez o seu valor como amiga. Ajudou na organização sem ser intrometida, mobilizou os amigos de ambos em surpresas infidáveis, animou como sempre um pouco mais a vida de todos.
Mesmo tratando-se de um casamento na igreja do Bonfim, como o seu fora. Mesmo segurando e ajeitando o véu da noiva à entrada da igreja num gesto parecido com o que tinham feito por si.
Mesmo perante um amor tão puro e promissor como o seu havia sido.
Marco e Camila namoraram 10 anos e ele estava já diagnosticado com cancro quando casaram. Camila amava-o e nada seria diferente. O amor tudo conquista e haveria de resgatar também a vida de Marco.
Continuaram a construção da sua casa e começaram os tratamentos, escrupulosamente seguindo todos os tortuosos ditames médicos. Camila deixou o seu emprego, a sua vida e a sua existência para o amparar a ele.
E ele lutou o mais que pode, numa luta perdida à partida. E deixou a Camila um legado bem maior do que a casa que o seguro de vida pagou; deixou-lhe a certeza de que ela fez tudo o que podia, que ele a amava mais que tudo o resto e que ela era mais forte do que supunha.
E que a vida é preciosa e se tem de viver momento a momento.
O vestido que levou para o casamento da sua amiga era preto e elegante. “Com o meu vestido preto, eu nunca me comprometo”, dizia num tom jocoso e coquete, mudando logo de assunto.
Porque se de alguma maneira queria estar de luto pelo seu amor, por tudo o que tivera e perdera, pelos momentos que vivera naquela mesma igreja 3 anos antes, os mesmos olhares, as mesmas sensações, o mesmo nervosismo e a mesma alegria profunda de quem se entrega sem reservas a outro ser humano para o melhor e para o pior, na saúde e na doença, não suportava que sentissem pena dela ou que isso fosse motivo de conversa e jamais roubaria o centro de atenções da sua grande amiga, a noiva feliz.

domingo, junho 05, 2011

Judite

Judite tinha um coração de ouro maciço, inteiro e reluzente.

E como qualquer objecto de metal deste tipo, era também impenetrável.

Tomava as maiores precauções para que não ficasse ferido, não se riscasse, não perdesse o brilho. Guardava-o como se tivesse um cofre, dentro de um forte, no meio de uma ilha.

E o seu coração crescia, em tamanho e peso, cada vez mais.

Até se tornar insustentável carregar com o seu coração grande, bonito, perfeito, doirado, pesado e inútil.

Porque os corações não são meras peças decorativas, são peças utilitárias.

E o coração de Judite quanto mais temia o uso mais se tornava pesado.

Até que um dia, farta de o carregar de um lado para o outro, Judite já só o queria entregar a alguém que a ajudasse com esta carga.

Ernesto tinha ar de quem conseguiria segurar o coração Judite porque era ele próprio grande e forte. Faltava-lhe no entanto a coragem e a sabedoria para compreender o valor do objecto que segurava nas mãos e um dia deixou o coração de Judite caído pelo chão, depois de o riscar, rachando-o a meio na queda.

Desgostosa de ver o seu maior tesouro partido e desprezado, Judite consertou-o na medida do possível e pensou que não o voltava a deixar por mãos alheias.

Mas os corações são um pouco como a loiça boa de jantar. Depois de se partir o primeiro prato, há sempre um pouco menos de cerimónia no uso do serviço. 

E Judite continuou a usar o seu coração que continuou a ser partido, rachado e riscado.

No princípio, parecia mais feio, mas, com o tempo, foi evoluindo; tornou-se filigrana, cota de malha cinzelada, fio de ouro... E com cada uso, o objecto parecia ficar mais leve, flexível, rico e permeável.

E a sua composição foi mudando, desrigidificando. O coração adquiriu o hábito de se mexer e começou a não conseguir passar sem isso, já não sabia estar inerte sem se sentir morto.

Porque o coração de Judite deixou de ser um coração de ouro maciço e passou a ser um coração humano, cheio de sangue mas cheio de vida. Capaz de sentir e de se saber vivo.

Então, Judite deixou de ter medo e começou a viver, agora que tinha um músculo que lhe bombeasse o sangue devidamente pelo corpo todo.

quinta-feira, maio 19, 2011

Teresinha (2)

Teresinha Villaverde fazia ballet na adolescência, como qualquer menina de bem. E se Teresinha era a princesa das meninas de bem, era também dedicadíssima ao seu ballet que praticara durante 12 anos.

Aos 18 anos, com a entrada na Faculdade, houve muito na sua vida que mudou e deixou de fazer sentido. E com isso, também o ballet.

Mas um ano depois, Teresinha sentia-lhe a falta. Não porque gostasse especialmente de se ver de cor-de-rosa literal e figurativamente, mas porque se sentia a perder destreza, agilidade e sobretudo flexibilidade.

Decidida a distanciar-se da imagem convencional e perfeitinha que tinha, agora que estudava Comunicação Social e queria ser "alternativa", foi com algum entusiasmo que se inscreveu nas recém inauguradas aulas de Tai-chi que dava um seu conterrâneo, no centro da Santa Casa da Misericórdia.

O professor de Tai-chi era simultaneamente o professor de Chi-kung e de Kung-fu. Era um homem muito alto e muito magro, de nariz adunco e barbicha, como alguns vilões dos filmes de desenhos animados infantis. Casado com uma senhora de Braga, vivia na capital de distrito e fazia a sua vida entre Braga e o Porto, difundido as 3 artes em que se tornara mestre no Japão.

António era um homem um pouco amargo e zangado com a vida que não dispensava conhecimento algum que não fosse a troco de dinheiro, porque, dizia, também lhe tinha custado muito ir para o Japão e tinha de rentabilizar as coisas que aprendera com sacrifício.

Exercia ainda acumpunctura e shiatsu e andava a tentar implementar aulas de meditação na localidade, mas sem grande sucesso até à data.

António encarnava de alguma forma uma sabedoria e um exotismo que apenas os lugares muito distantes têm e encantava as senhoras de Vila Verde com estes mistérios, angariando várias clientes para as suas aulas.

Quando Teresinha manifestou o seu contentamento com as aulas de Tai-chi que lhe devolviam a mobilidade que sempre tivera e estimulavam a sua flexibilidade de que tanto sentira falta, António sentiu um orgulho muito especial. Teresinha era muito popular e admirada na terra e representava uma excelente publicidade a todos os níveis que estivesse satisfeita com as aulas.

Envaidecido, António propôs ajudar Teresinha, compartilhando algumas técnicas orientais diferentes para ajudá-la a recuperar ainda mais depressa a flexibilidade de uma bailarina clássica.

Combinaram nas instalações da Misericórdia uma hora antes da aula de Tai-chi. A aula não surpreendeu Teresinha que era perita em exercícios de flexibilidade e não trouxe grande novidade às técnicas que já conhecia, à parte incorporar formas diferentes de respirar nos exercícios. Mas a António, a aula trouxe novidades. Gostava de um desafio e não sabia perder. Teresinha Villaverde era dona de uma figura admirável, e tinha um controlo incomum sobre cada músculo do seu corpo de bailarina.

Cinco minutos depois de a aula começar, António teve a clara noção de que a sessão seria uma desilusão para Teresinha que aparentemente já fizera cada um dos exercícios que lhe propunha. Mas António não dava ponto sem nó.

No final da aula, e enquanto falavam de como tinha corrido e das diferenças entre estes exercícios e os do ballet clássico, António revela que ainda tem uma última e derradeira carta na manga.

Técnicas orientais que sabe que não pode partilhar com a maioria das pessoas da terra, gente tacanha, sem grandes horizontes e muito presa a conceitos do passado, mas que sente que pode partilhar com Teresinha que é uma rapariga de mente aberta e com grande flexibilidade física e mental.

E então António propõe a Teresinha, sob o abrigo da partilha de conhecimentos orientais exclusivos, e sem qualquer interesse da sua parte, a prática de posições sexuais milagrosas no ganho da flexibilidade.

Ora bem, Maria Teresa Villaverde era cada vez mais uma jovem alternativa e moderna. Mas Maria Teresa Villaverde era bem neta da sua minhota e matriarcal avó Lucinda, de espinha vertebral direita e valores católicos e cristãos mais profundamente enraizados do que supunha.

Na fracção de segundo que se seguiu à proposta de António, Teresa não ouviu nenhum som, até ouvir o estalo que dava de expressão inalterada na cara de António, directamente na sua face esquerda, com a sua mão de bailarina que redescobria inusitadamente agilidade e força.

O segundo que se seguiu ao estalo foi também silencioso. E quando terminou, Teresinha caiu em si, achou pouco inteligente a sua atitude e chegou a temer pela vida, porque António era um homem quase com o dobro do seu tamanho, o dobro da força e conhecimentos marciais letais.

Mas António permaneceu paralizado nesse instante e Teresinha saiu rapidamente pela porta fora.

O que desconheciam ambos até à data é que um estalo bem dado é uma arma indefensável e universal. E que não há defesa possível de um estalo merecido, depois de se fazer algo que se sabia à partida que não se devia ter feito ou devia ter dito.

Porque um estalo bem dado atinge uma pessoa de forma cirurgica nesse ponto vital e secreto que é o ego. um ponto a que nem os maiores mestres orientais conseguem chegar com facilidade, mas a que as donzelas bonitas, indefesas e voluntariosas têm um acesso privilegiado.


(Teresinha já tinha aparecido em Outubro no Personificcionar e decidiu repetir a visita.)

terça-feira, maio 17, 2011

Martina

Martina aprendeu com a vida que não se deixa fugiu amor nenhum. Aprendeu às suas próprias custas que o amor, quando se nega, tarda em voltar. E às vezes tarda mesmo muito.

E por isso quando Martina conheceu Gilberto atirou-se de cabeça, como vinha aprendendo há vários anos.

Martina aprendera à custa dos seus erros e das suas próprias protecções emocionais que nada há que seja pior que o arrependimento e o vazio depois do que poderia ter feito "se" e apenas "se".

E decidira desde há muito que não voltaria a ser assaltada por esses pensamentos.

E Gilberto cozinhou-a como a uma rã. Foi aquecendo a água da panela enquanto ela estava viva lá dentro, para tornar a sua carne mais tenra quando finalmente a consumisse.

Martina foi mudando, cedendo até já não poder mais. Desta vez aprendeu que afinal não se pode dar desmesuradamente, e que a vida é assim, uma madrasta que passa anos a ensinar uma coisa, apenas para depois ensinar o contrário.

E que Gilberto mentia, enganava e manipulava Martina, sob o manto de uma transparência e uma brutalidade infantil e pura.

E que toda a gente tinha pena dela, da forma como se deixava cozinhar, saindo e entrando a panela que não parava de aquecer, cozendo mais um bocadinho de cada vez.

Só que a mulher-rã é uma espécie em vias de extinção. E Martina, ao invés de ficar mais macia, à medida que a panela aquecia, ficava mais dura, mais amarga, mais imprópria para consumo. Até que, envenenada pela própria água em que a escaldavam, saltou para fora.

E no fim saiu da panela.

escaldada.

segunda-feira, maio 16, 2011

Padre Daniel

O temor era algo que o tomava de assalto e que tentatava incutir nas ovelhas do seu rebanho.

O temor a Deus.
O temor aos Santos.
O temor ao Fogo do Inferno.

O Padre Daniel era um homem consciencioso, rigoroso, meticuloso, estóico, disciplinado.

Na sua infância tinha tido um episódio de que mantinha hoje em dia segredo absoluto, fora possuído e exorcizado. Salvo pela luz da salvação eterna e pela água benta da Santa Madre Igreja. E ainda hoje tomava frequentemente banho com água benta para afastar e dissuadir potenciais demónios que de si se quisessem apoderar.

O Padre Daniel era dedicado e respeitado por toda a comunidade, mas todos sabiam que do padre Daniel não se podia esperar misericórdia.

Um dia ouviu Rufino em confissão, um adolescente com um atraso mental, e incutiu-lhe a importância do temor para não mais pecar, como era aliás sua imagem de marca.

Rufino saiu perturbadissimo da Igreja a murmurar coisas que ninguém compreendia.
Dias depois as pessoas que estavam com ele no centro de dia, preocupadas, chamam o padre, pois acham que Rufino deve estar a começar a entrar em transe.

Rufino repete "morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE" sem parar, dia e noite.

Mas o Padre Daniel não percebe o que é que isso tem a ver com ele. Na confissão repreendeu Rufino pelos seus actos, mas não falou da morte.

Conjectura-se que Rufino possa estar a escalar no caminho para a santidade ou demonização e o sacerdote começa a considerar a necessidade de chamar alguém versado na arte do exorcismo, quando Rufino não consegue parar de se balaçar chamando pela terrível ceifeira, ou anunciando a sua chegada.

Chama-se o médico, o psicólogo, a assistente social, que não lhe conseguem arrancar mais nenhuma palavra.

Rufino está por um fio, entre o internamento, a sedação absoluta e o exorcismo. Nenhum dos processos é agradável.

Na aldeia discute-se que o rapaz deve ser morada aberta, que é caso de arrepiar.

Até que surge, escrito a vermelho na parede da igreja uma aviso com letra de primária que dissuade todos da transcendência do caso e obriga o Padre Daniel a repensar a sua política de ensinar a temer:

"Torem das árvores os galhos.Rotem em torno do temor e a morte estará a um metro. Tremo pelo termo deste caso."

Catarina

Quando era uma principiante na arte do jazz recusaram a sua voz cristalina e surpreendente com base na interpretação. Disseram-lhe com sobranceria que "lhe faltava dor de corno para cantar jazz em condições".

Catarina saiu do clube pior que estragada. No auge dos seus 22 anos era dona de uma técnica vocal perfeita, fruto de anos e anos de estudo, de exercícios incontáveis, de aulas de conservatório, cursos livres dentro e fora do país e sessões de terapia da fala regulares.

Dominava a improvisação e tinha um ouvido fantástico que lhe permitia sempre perceber se e quem estava dentro ou fora de tom. Tinha swing, compreendia o ritmo como se fosse o bater do seu coração que se alterava quando ela outra pessoa dava o tempo. Conhecia os standards quase integralmente.

Tocava piano com mestria e percebia muito de todos os outros instrumentos, porque Catarina praticamente respirava o jazz e assistia a todas as jam sessions, aulas e concertos que podia. A sua própria entoação verbal era sincopada.

E fazia teatro, porque lhe tinham dito que a interpretação era fundamental no jazz.

Cantar no Hot Club era um passo natural nesta evolução fulgurante, digna das maiores honras académicas e prémios musicais.

E por isso, foi com indignação, mais do que com desânimo, que Catarina recebeu do grande especialista do clube a notícia de que o que ela era ainda não chegava para os padrões deles, quando gente "pior que ela" já lá tinha estado.

"Se quisesse ser uma desgraçadinha tinha-me dedicado ao fado", pensava com os seus botões tão zangados como ela.

E voltou à sua vida academicamente perfeita tão frustrada e revoltada com aquela injustiça, a primeira que sentia verdadeiramente queimar-lhe na pele, que começou a tornar-se na interprete e compositora que sempre estivera destinada a ser.

segunda-feira, maio 09, 2011

Elisa

Vai ao ginásio todos os serões. Faz solário. Estica o cabelo preto que pinta de 3 em 3 semanas, religiosamente. A sua roupa é sempre bem escolhida e até as peças com que faz spinning são pensadas cuidadosamente: calções um pouco abaixo do joelho, justos, e top que deixa o ombro à mostra, revelando as alças coloridas do bikini por baixo. E sim, Elisa usa maquilhagem também no ginásio, porque uma pessoa nunca sabe quando é que vai conhecer alguém interessante e mais vale prevenir.

Elisa tem todo o ar de quem está a arrumar as suas coisas calmamente no balneário do ginásio, enquanto faz conversa com todas as mulheres que a rodeiam, comentando a festa do Habana Club para os membros do health club no fim de semana passado. Foi boa, mas o Alfaiate é que é, e não se paga só para entrar, apenas aquilo que se consome. E não se tem filas.

Enquanto comenta as suas opiniões com as colegas que vão dispersando, Elisa verifica as borbulhas, as unhas de gel e o peso na balança disponível. Tenta captar as atenções das pessoas que vai encontrando na sua imagem de verniz, polida ao extremo, mas a cada três frases diz um palavrão e comete outro erro gramatical. E só consegue dizer bem de algo quando é uma rampa de lançamento para criticar qualquer coisa.

Elisa é espampanante, divertida e "um ponto". Aparece em todos os eventos do ginásio e já namorou com alguns dos seus elementos, não porque estivesse especialmente enamorada pelas suas personalidades, mas porque dá muito valor a um corpo bem definido e adora a sensação de entrar num sítio e de ser alvo da inveja de outras mulheres.

Elisa tem um sucesso mediano no seu trabalho, tem 36 anos bem conservados, trabalha com uma disciplina estóica na sua aparência impecável. Sacrifica-se diariamente por um objectivo que não sabe bem o que é, mas que pelo menos vai tacteando. E no entanto, as únicas alturas em que se sente realmente viva e relevante são pouco mais do que estes momentos em que se sente a raínha do ginásio e fala com pessoas que na verdade até nem estão assim tão interessadas naquilo que Elisa tem para dizer.

terça-feira, março 29, 2011

Ernesto

(personagem construída para o Projecto Curta Metragem)

Ernesto chegou a casa mas não estava cansado. Sentou-se à mesa cheia de papéis e livros há uma quantidade de tempo indefinida. Notava-se que tinham sido depositados em cima da mesa em tempos distintos, frutos de ideias geniais repentinas a realizar a breve trecho, com potencialidades explosivas, mas que depois ia deixando no seu mar de "projectos até um dia" poeirentos, ultrapassados e claramente fora de tempo.

A pilha incluía recortes de revistas, livros seus, livros emprestados, livros da biblioteca fora de prazo, cartas pessoais, desenhos, decretos-lei, jornais e mesmo os insuspeitos restos mortais de um pacote de batatas fritas esquecidas no meio da bagunça.

O sofá de Ernesto estava também ele cheio de tralhas que foi acrescentando quando lhe faltou o espaço na mesa ou quando quis libertar a mesma para outros projectos ou mesmo para comer. Por cima de toda a tralha no sofá ficava sempre o casaco de onde por vezes fugiam as chaves que teimavam em se esconder nos labirintos insondáveis da sua tralha depositada no maple.

Sentou-se na cadeira encostada à mesa e serviu-se de um copo de whisky sem gelo e amargou.

Amargou os seus malditos 40 anos, velhos demais para ir para outro sítio, novos demais para se reformarem. o seu sucesso mediocre, alvo da inveja de outros escritores que tiveram de mudar de vida e traidor do potencial extraordinário que identificaram professores e pares toda a vida.

Ernesto trabalhava para a ficção nacional num lugar perfeitamente invejável para a maioria dos escritores e argumentistas portugueses.

Ganhava bem e até tinha contrato.

Arrendava uma casa mais por capricho que por falta de opção.

Tinha namoradas e casos a granel, já que possuía um charme e uma dose de intrepidez e inconsequência que o tornavam irresistível às mulheres.

E no entanto, neste momento da sua vida sentia-se um traidor, um vendido e um falhado, que nunca fez realmente jus ao seu potencial, nunca arriscou. Ernesto nunca iria ganhar um Oscar, um Emmy, um Pullizer ou o Nobel da Literatura, como em tempos sonhara. Nunca chegaria ao topo.

Adiou tanto assentar com alguém que sentia que fazê-lo agora seria quase contariar a sua natureza. Mas amargava nunca se ter entregue a ninguém, nem ter constituído família.

Sabia que não havia nada por que fosse lembrado nas gerações vindouras.

E isto, estes desejos frustrados de plenitude e imortalidade faziam-no amargar nos fins de tarde, agarrado ao seu copo whisky.

segunda-feira, março 14, 2011

Gisela

No princípio, a saudade doia-lhe com uma taquicardia aguda. Uma dor localizada no peito quando lhe faltava ela, quando sentia falta dela nos momentos mais inusitados.

No supermercado quando via uma coisa que lhe costumava comprar, quando lhe falavam de uma saída ou concerto e pensava como ela gostaria de ir, à noite, em casa, quando dormia só, quando conduzia no meio do transito, sem lhe telefonar para matar o tempo com as parvoíces cúmplices que tinham possuído em tempos.

Era como se lhe faltasse uma parte do corpo, por não ter o seu abraço. Deitava-se no sofá e aninhava-se nas costas fofas do móvel como se fora ela, nos piores momentos.

Sentia-se incompleta, amputada numa qualquer parte do corpo onde não era possível criar próteses.

E nenhum dia era pior que o Domingo.

Dava por si a fazer expressões de infelicidade, a sentir nada mais do que tristeza e reparava na delicadeza exacerbada das pessoas que lhe eram queridas que intuíam ou sabiam o que se estava a passar.

No princípio, a sua ausência deixava Gisela de rastos. A saudade fracturava-a de ponta a ponta e deixava-a imóvel, paralizada e cega.

Mas o tempo passou e o comportamento errático de Joana,  ora adesiva ora evasiva, prosseguiu.

Gisela teve momentos de raiva absoluta, mais contra si por permitir que a relação continuasse do que contra Joana que a menosprezava. Sentiu-se pequena, insignificante e perdeu um pouco do respeito que tinha por si mesma.

Zangava-se consigo mesma por sentir a falta dela. Por ceder às suas próprias fraquezas. Por gostar tanto dela que fazia de conta que não via os seus imensos defeitos, o pior dos quais claramente não gostar de Gisela o suficiente, embora a quisesse só para si.

À medida que o tempo foi passando, Gisela começou a interiorizar a dura verdade de que Joana não a amava nem nunca a iria amar, não obstante as suas promessas. Lentamente foi-se afundando nela a certeza de que era essa mesma miragem de amor e tranquilidade, de segurança e conforto, que a fazia ultrapassar os hábitos irritantes de Joana, ignorar as suas manias, o seu egoísmo e a sua arrogância absurdas, própria dos ignorantes a quem a vida ainda não marcou nem ensinou grande coisa.

Perguntava-se quanto tempo levaria a deixá-la definitivamente, já que já tinha terminado a sua relação mais vezes do que conseguia contar. De cada vez que reatavam sentia-se mais longe daquilo queria, menos feliz. Mas não resistia. E percebia que quando finalmente o fizesse teria de evitar Joana a todo o custo, que não podia estar mais com ela, porque Joana não era boa para Gisela e, não obstante, Gisela era absolutamente incapaz de lhe resistir.

quarta-feira, março 02, 2011

A casa

A casa gritava por ela, em cada canto, em cada estante, nos bibelots das mesas, nas fotografias por toda a parte, nos livros abundantes e nas plantas que ela escolhera.

A casa estava em silêncio.

A casa gritava por ela e o grito tinha o som branco do ar condicionado. Omnipresente, intolerável, insuportável.

A casa sentia a falta dela como se fosse órfã. Como se lhe tivessem arrancado um membro. Como se tivesse perdido o sentido.

A casa parecia catatónica.

E a casa chorava - ostensivamente, nada menos.

Eles tentaram fazer com que a casa sossegasse; mudaram as divisões dela, transformaram os espaços que eram só dela, eliminaram as coisas que apenas ela usava e que a faziam mover, os projectos dela. O escritório, a cama, o canto das especiarias na cozinha.

Mas a casa não se deixava enganar.

E chamava por ela continuamente, como a cria abandonada de um animal selvagem.

Quase – quase – que era possível sentir o cheiro dela, ouvir o tilintar dos brincos dela, sentir o toque mão dela a ajeitar uma almofada, porque a casa lutava com todas as suas forças para que a presença dela não fosse apagada.

Porque ela estava no DNA da casa, indelével, intrínseca, sanguínea.

As paredes da casa eram dela, os quadros nas paredes transpareciam a essência dela, a disposição dos móveis fora estudada por ela e escolhida até à perfeição, os tapetes comprados por ela e o candeeiro da sala a ela oferecido.

A casa era deles e era dela. Era muito dela.

E eles tinham de viver na casa, os dois, sem que esta lhes desse um momento de sossego na lembrança de que ela existira, de que ela era ela, insubstituível, e que ela já não vivia entre eles, que ela tinha morrido.

E que nunca mais voltaria à casa.

sábado, fevereiro 19, 2011

Susana

(personagem construída para o Projecto Curta Metragem)

Susana limpava o estúdio sem grande brio, mas com um rigor mecânico. Tinha 19 anos e trabalhava nas limpezas havia 5. Nunca fora boa aluna, mas a mãe só a tirou da Escola porque certo dia lhe ligaram para o trabalho por um engano ou uma partida maldosa, dizendo que Susana tinha dado entrada no Hospital.

Alzira deixou tudo e foi a correr ter com a filha, que não estava no Hospital. Ainda muito preocupada decidiu ir à Escola confirmar com os seus próprios olhos que Susana estava bem. Mas Susana, apesar de ter a mochila na estante da escola secundária, não estava na edifício e tinha faltado às aulas toda a manhã.

Alzira tinha problemas de coração. E sentiu a taquicardia doer-lhe no peito quando percebeu que Susana podia de facto estar em apuros.

Na altura não havia telemóveis e Alzira ficou sem saber o que fazer, desesperada. Uma auxiliar deu-lhe um chá e a Presidente do Conselho Diretivo sugeriu que fosse para casa e tentasse ligar às amigas da filha.

No dia seguinte soube-se que Susana e outras duas amigas tinham passado o dia em casa de uma delas, a embebedarem-se, e os colegas nunca mais a veriam.

Susana tinha sido levada para casa pelo pai da amiga em cuja casa estavam, bebeda até à inconsciência. A mãe sovou-a na mesma, até se sentir ressarcida do mal que tinha passado nesse dia. e tirou-a da escola, já que ela de qualquer forma não estava a aproveitar o esforço que a mãe, viúva e sem grandes possibilidades, estava a fazer por ela.

A partir de então começou a trabalhar como ajudante num cabeleireiro e a ajudar a mãe nas limpezas que fazia aos dias.

Rigidamente controlada por Alzira (que decidira que não podia confiar na filha) durante a maior parte da adolescência, Susana ambicionava mais que tudo fazer 18 anos. Aos 16 começou a trabalhar para uma senhora que gostava muito dela e lhe arranjou uma cunha para ir para a empresa onde estava agora, em que, apesar de ganhar menos do que faria independentemente, sempre tinha um contrato e direitos.

O sonho dos 18 anos era a liberdade. Era o ser "maior de idade", poder fazer o que lhe apetecesse. 

E Susana cumpriu o seu preceito.

Quando fez 18 anos e se tornou coincidentemente o principal ganha-pão da casa porque a mãe teve de pedir uma pensão de invalidez dada a sua condição de cardíaca que se agravava, informou que a partir daí era dona do seu próprio nariz e que a mãe não mais a iria controlar. Que pretendia sair e divertir-se muito e que a mãe não tinha nada, mesmo nada a ver com isso.

E Alzira não teve outro remédio senão conformar-se. Valeriam a Susana os anos de inflexível disciplina e intransigência da mãe o resto da vida, onde acima de tudo se obrigava a cumprir as suas tarefas, independentemente do quão bebeda tivesse chegado na noite anterior a casa ou das horas da madrugada a que chegasse. 

Mas a amargura de sentir o futuro roubado e o rancor pela ausência de compaixão perante uma estupidez da adolescência por parte da mãe nunca mais a abandonariam também.

sábado, janeiro 29, 2011

Amélia

No dia em que o avô Jaime morreu, Amélia teve um  sentimento ambíguo, que não era de todo diferente de tudo o que sempre sentira em relação ao velho.

Nunca se haviam entendido plenamente. Jaime nunca percebera nem valorizara os esforços de Amélia por dar aos netos uma educação de valores sólidos e tradicionais e por construir com Vasco uma família exemplar e honesta. Amélia nunca percebera nem valorizara os esforços de Jaime por fazer dos netos seres pensantes e tolerantes e por querer que o filho lutasse pelos seus sonhos e afirmasse as suas opiniões.

Tinham um perante o outro sentimentos ambíguos de carinho pela forma como sentiam que ambos amavam e cuidavam das pessoas que lhes era mais queridas, e de aversão pela completa oposição dos seus valores e prioridades.

Queriam ambos a mesma coisa: ver Vasco e "as crianças" bem e felizes, mas queriam tornar isto possível de formas antagónicas e incompatíveis, o que resultava frequentemente num "choque de titãs", em que Amélia queria afastar os filhos da influência nefasta e ideias retorcidas de Jaime e Jaime queria afastar o netos dos espartilhos mentais a que Amélia chamava "valores tradicionais".

Acrescendo a tudo isto, Amélia achava a relação de Jaime com Margarida uma aberração da natureza. Claramente, a escritora 30 anos mais nova que o seu sogro não andava com ele pelo dinheiro, porque ele não tinha "onde cair morto", o que a fazia pensar que aquilo devia ser falta de atenção paterna ou carências infantis. Sentia um asco quase espasmódico quando pensava naquele casal e nunca fizera questão de o esconder. Nojo.

Mas apesar de tudo, Amélia era uma mulher de princípios e que fazia questão de exemplar e estoicamente exercer os valores que tanto tentava incutir aos filhos. E achou que quem ama se deve poder despedir.

Amélia achava justo e fez tudo para que Margarida fizesse parte desta última fase da existência física de Jaime. Conversou com o marido que havia decidido excluí-la sem mais satisfações e fez todos os possíveis por forçar Vasco.

Mas, ao contrário do que toda a agente pensava, Vasco não era nem nunca fora um pau mandado.

Era um rochedo que se pode até pisar, mas que nunca se derruba.

E assim, Margarida foi deixada de parte das cerimónias fúnebres de Jaime e impedida de se despedir condignamente do namorado.

(Jaime e Margarida são outras duas personagens. Uma das "crianças", Carminho, também)

Elvira

Tinha muito mau feitio, Elvira. Sempre tivera.

Enquanto o marido fora vivo, tentara manter a vontade de mandar e a impaciência contidas, mas depois da sua morte, revelara-se a tirana que sempre fora em todo o seu esplendor.

Na sua casa era dona e senhora, imperatriz. e nada que não fosse na medida, forma e momento que ela determinava podiam acontecer.

Elvira sentia especial prazer no exercício do poder, embora não a procurassem para conselhos tanto quanto ela achava que lhe era devido. Então, tratava de dar a sua opinião acerca de tudo o que via, ouvia e presenciava, fosse ou não chamada para o assunto.

À medida que os filhos cresciam e saiam do seu domínio de força, começavam a decidir por eles, a pensar pela sua cabeça, crescia neles a saudade do pai a quem toda a autoridade e sabedoria eram reconhecidas e a aversão pelas opiniões rápidas e rombas da mãe que não reflectia sobre nenhum assunto muito  demoradamente, mas que era inevariavelmente contundente na forma de emitir juizos de valor.

Frequentemente faltava-lhe uma parte fulcral da história e acabava por ser injusta. Mas não saia jamais do seu pedestal nem da sua opinão pré-formada. Mesmo depois de conhecer a história restante.

Os filhos recordariam com mágoa, tareias imerecidas, castigos injustos, invasões de privacidade e espaço despropositadas. E todas estas situações Elvira consideraria normais.

Quando envelheceu foi ficando cada vez mais sozinha, pois insistia em não abandonar o seu orgulho e a sua teimosia, que foram quem mais companhia lhe fez nos últimos anos da sua vida, enquanto tinha conversas baixinho constantemente com o seu marido falecido, a quem fazia queixas de todas as situações que a incomodavam e sobretudo das pessoas que lhe eram mais próximas e que ainda a visitavam.

Dos outros ia perdendo memória.

Convenceu-se que a queriam roubar, que se queriam aproveitar dela. mesmo se eram os outros que lhe traziam alimentos, roupa e outros bens. E começou a desconfiar de todos. Azedou mais do que a solidão por si só tinha conseguido fazer.

Recusava ir para casa de quem quer que fosse pela desconfiança inusitada. Que a queriam envenenar também.

E os outros não tiveram força ou vontade de a contrariar.

Morreu enquanto dormia e a sua casa e todos os seus bens que guardava religiosamente ardiam, num incêndio provocado por uma vela descuidada.


segunda-feira, janeiro 17, 2011

Margarida

Subiu as escadas até ao primeiro andar da casa de Jaime com o jornal do dia e o pão fresco e tocou levemente à campaínha antes de abrir a porta com as suas próprias chaves. 

Entrou directamente para a cozinha e pôs café a fazer, no mimo habitual que concedia a Jaime.

Chamou por ele e, como de costume, não obteve resposta. Jaime dormia pesadamente apenas de manhã, mas não fora habituado a dormir até ao meio dia e considerava uma falta de amor à vida desperdiçar assim os dias, pelo que fazia questão de contrariar sempre o seu ritmo circadiano com a ajuda da namorada.

Margarida, de 35 anos era uma mulher bonita e interessante, escritora de profissão. Escrevia crónicas para revistas e livros, e, apesar de não ter no horizonte ganhar o prémio Nobel, não se saia nada mal na sua profissão.

Gostava de trabalhar perto de Jaime, o amor inesperado e inexplicável que a assolara repentinamente. Conheceram-se na biblioteca, onde o ancião ia buscar livros e ler jornais e revistas e onde Margarida fazia as pesquisas para mais um livro. Conversa puxa conversa e antes que pudesse dar por isso, Margarida estava a jantar com Jaime na sua casa à beira-mar, fascinada pelas suas histórias e tonta do vinho que bebiam, dos charros que fumavam e da companhia que se tornava cada vez mais importante para si.

Da primeira vez que aconteceu fazerem amor, Margarida achou que era uma vez sem exemplo e ficou confusa durante muito tempo. Combateu o que sentia por não achar natural estar apaixonada por um homem com o dobro da sua idade.

Com o passar do tempo optou por colocar o seu bem-estar acima daquilo que os outros poderiam pensar.

Margarida e Jaime eram criaturas de hábitos e circunstâncias muito compatíveis, mas que prezavam muito o seu próprio espaço, ao mesmo tempo.

Apesar de estarem juntos havia já dois anos e dormirem juntos amiúde, mantinham as suas casas e vidas separadas.

Jaime tinha uma vida familiar complicada e Margarida sentia sempre uma grande necessidade de proteger a sua vida dos media que ela mesma utilizava para obter visibilidade para os seus livros.

Uma das coisas que davam especial gozo a Margarida eram os pequenos-almoços com Jaime, em que este, sem as habituais capacidades para a contrariar e contradizer, porque nunca acordava totalmente até umas duas horas depois de ter abertos os olhos do sono, era mais doce e terno. Era nestas alturas em que ele dizia de forma mais desabrida as coisas que a faziam acreditar na relação deles - efémera certamente, mas intensa à sua maneira. Jaime nunca dizia coisas boas "gratuitamente", mas se estivesse ensonado era frequente sair-lhe um "adoro-te" ou um "gosto muito de ti", tão impensado e espontâneo que só podia ser profundamente verdade.

Margarida aprendera a viver com estas pequenas coisas e a adaptar-se de modo a consegui-las ao máximo.

Hoje esmerara-se especialmente. Trazia pão e croissants frescos. Fazia café e aquecia o leite enquanto punha a mesa e o jornal. Como Jaime demorava em se levantar, Margarida fizera ainda sumo de laranja natural e compusera a mesa primorosamente.

Resignada com a ausência de iniciativa de Jaime em sair da cama, Margarida decidiu ir chamá-lo pelo seu pé. Deu-lhe um beijo na nuca, no sítio que ele gostava mais e enfiou-se na cama abraçando-o por trás, com um sorriso traquina de quem sabe que está a fazer uma maldade disfarçada.

Mas Jaime não reagiu.

O horror que Margarida sentiu no momento em que percebeu que o namorado jazia morto na sua cama só se equiparou em magnitude à incapacidade de agir que se lhe seguiu e ao sentimento de insignificância que lhe foi devotado pela restante família de Jaime, o avô Jaime: o filho, nora e netos que sem qualquer respeito  ou consideração pela sua dor e pela sua existência a despiram daquela relação, mantendo-a à parte e na ignorância de todos os preceitos e cerimónias fúnebres do homem que amara intensamente nos últimos dois anos. 

Telma

Quis ser rápida com a entrega do dinheiro na bomba de gasolina e atirou a moeda e a nota que faziam a conta certa do valor em dívida.

E numa fracção de segundos, reparou como os objectos lhe saiam da mão de forma bruta, e sem consideração pela outra pessoa, quase num sinal de desprezo.

E parou.

Ela não conhecia a outra pessoa. Não tinha nada contra o senhor da caixa registadora.

Sentiu aversão pelo seu próprio gesto, pediu desculpa por ter atirado as coisas e deu o seu melhor sorriso.

Foi para ao carro perturbada. Profundamente inquietada por não reconhecer como seu um gesto impensado, questionou-se se estava a tornar numa dessas pessoas frias e frustradas.

Colocou o cinto de segurança e acendeu as luzes. Seguiu devagar para casa, tendo especial cuidado com os outros condutores e peões.

E pelo caminho perguntou-se o que é que se passava consigo que ultimamente se sentia menos ela mesma.

O semáforo ficou vermelho e ela parou, sem o ignorar como de costume. Tinha a mente vazia de pensamentos, mas sentia-se apreensiva e preocupada.

Verde. Seguiu o caminho.

E no momento em que deu o pisca para a sua rua, fez-se luz em si.

Quando alguém era especialmente mauzinho para ela, dizia para si mesma que a pessoa devia estar infeliz no amor, que a vida íntima não lhe devia andar a correr bem. E fez a relação consigo mesma. No espaço de tempo entre descer a sua rua e estacionar o carro, compreendeu que as atitudes que menos gostava em si ultimamente se deviam à forma como a sua relação com Jorge não estava a correr. E pensou em si como pensava nas tais pessoas "mazinhas" e "infelizes", que não eram más em si mesmas, tinham era falta de coragem de procurar o que queriam, de seguir com as suas vidas sem aquele cobertor de segurança, ainda que se tratasse de um cobertor fino e roto.

Puxou o travão de mão e disse-se que se havia coisa que não era, era cobarde.

Desligou o carro e as luzes.

Pausou brevemente antes de tirar o cinto de segurança e sair do carro.

Saiu, bateu com a porta, trancou o carro e decidiu que tinha de acabar a sua relação com Jorge naquele mesmo dia.

Pegou na chave de casa e ao rodá-la na fechadura, sentiu-se feliz por se ter re-encontrado.