sábado, fevereiro 19, 2011

Susana

(personagem construída para o Projecto Curta Metragem)

Susana limpava o estúdio sem grande brio, mas com um rigor mecânico. Tinha 19 anos e trabalhava nas limpezas havia 5. Nunca fora boa aluna, mas a mãe só a tirou da Escola porque certo dia lhe ligaram para o trabalho por um engano ou uma partida maldosa, dizendo que Susana tinha dado entrada no Hospital.

Alzira deixou tudo e foi a correr ter com a filha, que não estava no Hospital. Ainda muito preocupada decidiu ir à Escola confirmar com os seus próprios olhos que Susana estava bem. Mas Susana, apesar de ter a mochila na estante da escola secundária, não estava na edifício e tinha faltado às aulas toda a manhã.

Alzira tinha problemas de coração. E sentiu a taquicardia doer-lhe no peito quando percebeu que Susana podia de facto estar em apuros.

Na altura não havia telemóveis e Alzira ficou sem saber o que fazer, desesperada. Uma auxiliar deu-lhe um chá e a Presidente do Conselho Diretivo sugeriu que fosse para casa e tentasse ligar às amigas da filha.

No dia seguinte soube-se que Susana e outras duas amigas tinham passado o dia em casa de uma delas, a embebedarem-se, e os colegas nunca mais a veriam.

Susana tinha sido levada para casa pelo pai da amiga em cuja casa estavam, bebeda até à inconsciência. A mãe sovou-a na mesma, até se sentir ressarcida do mal que tinha passado nesse dia. e tirou-a da escola, já que ela de qualquer forma não estava a aproveitar o esforço que a mãe, viúva e sem grandes possibilidades, estava a fazer por ela.

A partir de então começou a trabalhar como ajudante num cabeleireiro e a ajudar a mãe nas limpezas que fazia aos dias.

Rigidamente controlada por Alzira (que decidira que não podia confiar na filha) durante a maior parte da adolescência, Susana ambicionava mais que tudo fazer 18 anos. Aos 16 começou a trabalhar para uma senhora que gostava muito dela e lhe arranjou uma cunha para ir para a empresa onde estava agora, em que, apesar de ganhar menos do que faria independentemente, sempre tinha um contrato e direitos.

O sonho dos 18 anos era a liberdade. Era o ser "maior de idade", poder fazer o que lhe apetecesse. 

E Susana cumpriu o seu preceito.

Quando fez 18 anos e se tornou coincidentemente o principal ganha-pão da casa porque a mãe teve de pedir uma pensão de invalidez dada a sua condição de cardíaca que se agravava, informou que a partir daí era dona do seu próprio nariz e que a mãe não mais a iria controlar. Que pretendia sair e divertir-se muito e que a mãe não tinha nada, mesmo nada a ver com isso.

E Alzira não teve outro remédio senão conformar-se. Valeriam a Susana os anos de inflexível disciplina e intransigência da mãe o resto da vida, onde acima de tudo se obrigava a cumprir as suas tarefas, independentemente do quão bebeda tivesse chegado na noite anterior a casa ou das horas da madrugada a que chegasse. 

Mas a amargura de sentir o futuro roubado e o rancor pela ausência de compaixão perante uma estupidez da adolescência por parte da mãe nunca mais a abandonariam também.

sábado, janeiro 29, 2011

Amélia

No dia em que o avô Jaime morreu, Amélia teve um  sentimento ambíguo, que não era de todo diferente de tudo o que sempre sentira em relação ao velho.

Nunca se haviam entendido plenamente. Jaime nunca percebera nem valorizara os esforços de Amélia por dar aos netos uma educação de valores sólidos e tradicionais e por construir com Vasco uma família exemplar e honesta. Amélia nunca percebera nem valorizara os esforços de Jaime por fazer dos netos seres pensantes e tolerantes e por querer que o filho lutasse pelos seus sonhos e afirmasse as suas opiniões.

Tinham um perante o outro sentimentos ambíguos de carinho pela forma como sentiam que ambos amavam e cuidavam das pessoas que lhes era mais queridas, e de aversão pela completa oposição dos seus valores e prioridades.

Queriam ambos a mesma coisa: ver Vasco e "as crianças" bem e felizes, mas queriam tornar isto possível de formas antagónicas e incompatíveis, o que resultava frequentemente num "choque de titãs", em que Amélia queria afastar os filhos da influência nefasta e ideias retorcidas de Jaime e Jaime queria afastar o netos dos espartilhos mentais a que Amélia chamava "valores tradicionais".

Acrescendo a tudo isto, Amélia achava a relação de Jaime com Margarida uma aberração da natureza. Claramente, a escritora 30 anos mais nova que o seu sogro não andava com ele pelo dinheiro, porque ele não tinha "onde cair morto", o que a fazia pensar que aquilo devia ser falta de atenção paterna ou carências infantis. Sentia um asco quase espasmódico quando pensava naquele casal e nunca fizera questão de o esconder. Nojo.

Mas apesar de tudo, Amélia era uma mulher de princípios e que fazia questão de exemplar e estoicamente exercer os valores que tanto tentava incutir aos filhos. E achou que quem ama se deve poder despedir.

Amélia achava justo e fez tudo para que Margarida fizesse parte desta última fase da existência física de Jaime. Conversou com o marido que havia decidido excluí-la sem mais satisfações e fez todos os possíveis por forçar Vasco.

Mas, ao contrário do que toda a agente pensava, Vasco não era nem nunca fora um pau mandado.

Era um rochedo que se pode até pisar, mas que nunca se derruba.

E assim, Margarida foi deixada de parte das cerimónias fúnebres de Jaime e impedida de se despedir condignamente do namorado.

(Jaime e Margarida são outras duas personagens. Uma das "crianças", Carminho, também)

Elvira

Tinha muito mau feitio, Elvira. Sempre tivera.

Enquanto o marido fora vivo, tentara manter a vontade de mandar e a impaciência contidas, mas depois da sua morte, revelara-se a tirana que sempre fora em todo o seu esplendor.

Na sua casa era dona e senhora, imperatriz. e nada que não fosse na medida, forma e momento que ela determinava podiam acontecer.

Elvira sentia especial prazer no exercício do poder, embora não a procurassem para conselhos tanto quanto ela achava que lhe era devido. Então, tratava de dar a sua opinião acerca de tudo o que via, ouvia e presenciava, fosse ou não chamada para o assunto.

À medida que os filhos cresciam e saiam do seu domínio de força, começavam a decidir por eles, a pensar pela sua cabeça, crescia neles a saudade do pai a quem toda a autoridade e sabedoria eram reconhecidas e a aversão pelas opiniões rápidas e rombas da mãe que não reflectia sobre nenhum assunto muito  demoradamente, mas que era inevariavelmente contundente na forma de emitir juizos de valor.

Frequentemente faltava-lhe uma parte fulcral da história e acabava por ser injusta. Mas não saia jamais do seu pedestal nem da sua opinão pré-formada. Mesmo depois de conhecer a história restante.

Os filhos recordariam com mágoa, tareias imerecidas, castigos injustos, invasões de privacidade e espaço despropositadas. E todas estas situações Elvira consideraria normais.

Quando envelheceu foi ficando cada vez mais sozinha, pois insistia em não abandonar o seu orgulho e a sua teimosia, que foram quem mais companhia lhe fez nos últimos anos da sua vida, enquanto tinha conversas baixinho constantemente com o seu marido falecido, a quem fazia queixas de todas as situações que a incomodavam e sobretudo das pessoas que lhe eram mais próximas e que ainda a visitavam.

Dos outros ia perdendo memória.

Convenceu-se que a queriam roubar, que se queriam aproveitar dela. mesmo se eram os outros que lhe traziam alimentos, roupa e outros bens. E começou a desconfiar de todos. Azedou mais do que a solidão por si só tinha conseguido fazer.

Recusava ir para casa de quem quer que fosse pela desconfiança inusitada. Que a queriam envenenar também.

E os outros não tiveram força ou vontade de a contrariar.

Morreu enquanto dormia e a sua casa e todos os seus bens que guardava religiosamente ardiam, num incêndio provocado por uma vela descuidada.


segunda-feira, janeiro 17, 2011

Margarida

Subiu as escadas até ao primeiro andar da casa de Jaime com o jornal do dia e o pão fresco e tocou levemente à campaínha antes de abrir a porta com as suas próprias chaves. 

Entrou directamente para a cozinha e pôs café a fazer, no mimo habitual que concedia a Jaime.

Chamou por ele e, como de costume, não obteve resposta. Jaime dormia pesadamente apenas de manhã, mas não fora habituado a dormir até ao meio dia e considerava uma falta de amor à vida desperdiçar assim os dias, pelo que fazia questão de contrariar sempre o seu ritmo circadiano com a ajuda da namorada.

Margarida, de 35 anos era uma mulher bonita e interessante, escritora de profissão. Escrevia crónicas para revistas e livros, e, apesar de não ter no horizonte ganhar o prémio Nobel, não se saia nada mal na sua profissão.

Gostava de trabalhar perto de Jaime, o amor inesperado e inexplicável que a assolara repentinamente. Conheceram-se na biblioteca, onde o ancião ia buscar livros e ler jornais e revistas e onde Margarida fazia as pesquisas para mais um livro. Conversa puxa conversa e antes que pudesse dar por isso, Margarida estava a jantar com Jaime na sua casa à beira-mar, fascinada pelas suas histórias e tonta do vinho que bebiam, dos charros que fumavam e da companhia que se tornava cada vez mais importante para si.

Da primeira vez que aconteceu fazerem amor, Margarida achou que era uma vez sem exemplo e ficou confusa durante muito tempo. Combateu o que sentia por não achar natural estar apaixonada por um homem com o dobro da sua idade.

Com o passar do tempo optou por colocar o seu bem-estar acima daquilo que os outros poderiam pensar.

Margarida e Jaime eram criaturas de hábitos e circunstâncias muito compatíveis, mas que prezavam muito o seu próprio espaço, ao mesmo tempo.

Apesar de estarem juntos havia já dois anos e dormirem juntos amiúde, mantinham as suas casas e vidas separadas.

Jaime tinha uma vida familiar complicada e Margarida sentia sempre uma grande necessidade de proteger a sua vida dos media que ela mesma utilizava para obter visibilidade para os seus livros.

Uma das coisas que davam especial gozo a Margarida eram os pequenos-almoços com Jaime, em que este, sem as habituais capacidades para a contrariar e contradizer, porque nunca acordava totalmente até umas duas horas depois de ter abertos os olhos do sono, era mais doce e terno. Era nestas alturas em que ele dizia de forma mais desabrida as coisas que a faziam acreditar na relação deles - efémera certamente, mas intensa à sua maneira. Jaime nunca dizia coisas boas "gratuitamente", mas se estivesse ensonado era frequente sair-lhe um "adoro-te" ou um "gosto muito de ti", tão impensado e espontâneo que só podia ser profundamente verdade.

Margarida aprendera a viver com estas pequenas coisas e a adaptar-se de modo a consegui-las ao máximo.

Hoje esmerara-se especialmente. Trazia pão e croissants frescos. Fazia café e aquecia o leite enquanto punha a mesa e o jornal. Como Jaime demorava em se levantar, Margarida fizera ainda sumo de laranja natural e compusera a mesa primorosamente.

Resignada com a ausência de iniciativa de Jaime em sair da cama, Margarida decidiu ir chamá-lo pelo seu pé. Deu-lhe um beijo na nuca, no sítio que ele gostava mais e enfiou-se na cama abraçando-o por trás, com um sorriso traquina de quem sabe que está a fazer uma maldade disfarçada.

Mas Jaime não reagiu.

O horror que Margarida sentiu no momento em que percebeu que o namorado jazia morto na sua cama só se equiparou em magnitude à incapacidade de agir que se lhe seguiu e ao sentimento de insignificância que lhe foi devotado pela restante família de Jaime, o avô Jaime: o filho, nora e netos que sem qualquer respeito  ou consideração pela sua dor e pela sua existência a despiram daquela relação, mantendo-a à parte e na ignorância de todos os preceitos e cerimónias fúnebres do homem que amara intensamente nos últimos dois anos. 

Telma

Quis ser rápida com a entrega do dinheiro na bomba de gasolina e atirou a moeda e a nota que faziam a conta certa do valor em dívida.

E numa fracção de segundos, reparou como os objectos lhe saiam da mão de forma bruta, e sem consideração pela outra pessoa, quase num sinal de desprezo.

E parou.

Ela não conhecia a outra pessoa. Não tinha nada contra o senhor da caixa registadora.

Sentiu aversão pelo seu próprio gesto, pediu desculpa por ter atirado as coisas e deu o seu melhor sorriso.

Foi para ao carro perturbada. Profundamente inquietada por não reconhecer como seu um gesto impensado, questionou-se se estava a tornar numa dessas pessoas frias e frustradas.

Colocou o cinto de segurança e acendeu as luzes. Seguiu devagar para casa, tendo especial cuidado com os outros condutores e peões.

E pelo caminho perguntou-se o que é que se passava consigo que ultimamente se sentia menos ela mesma.

O semáforo ficou vermelho e ela parou, sem o ignorar como de costume. Tinha a mente vazia de pensamentos, mas sentia-se apreensiva e preocupada.

Verde. Seguiu o caminho.

E no momento em que deu o pisca para a sua rua, fez-se luz em si.

Quando alguém era especialmente mauzinho para ela, dizia para si mesma que a pessoa devia estar infeliz no amor, que a vida íntima não lhe devia andar a correr bem. E fez a relação consigo mesma. No espaço de tempo entre descer a sua rua e estacionar o carro, compreendeu que as atitudes que menos gostava em si ultimamente se deviam à forma como a sua relação com Jorge não estava a correr. E pensou em si como pensava nas tais pessoas "mazinhas" e "infelizes", que não eram más em si mesmas, tinham era falta de coragem de procurar o que queriam, de seguir com as suas vidas sem aquele cobertor de segurança, ainda que se tratasse de um cobertor fino e roto.

Puxou o travão de mão e disse-se que se havia coisa que não era, era cobarde.

Desligou o carro e as luzes.

Pausou brevemente antes de tirar o cinto de segurança e sair do carro.

Saiu, bateu com a porta, trancou o carro e decidiu que tinha de acabar a sua relação com Jorge naquele mesmo dia.

Pegou na chave de casa e ao rodá-la na fechadura, sentiu-se feliz por se ter re-encontrado.

sábado, janeiro 15, 2011

H ele na

A aparelhagem do bar cantava "Lose your keys under the house" na voz de Madeleine Peyroux. O ambiente do bar era a cara dele. A mesma cara porque se tinha apaixonado à primeira vista semanas antes, antes do que viria a seguir.

O ambiente era apenas medianamente iluminado, a estética boémia, as cadeiras desconfortáveis e não combinavam. Ele tinha uma aura de escritor parisiense do princípio do século XX, acossado pelos seus próprios demónios pessoais, de maus hábitos incorrigíveis, cheio de ilusões e ao mesmo tempo, paradoxalmente, descrente da humanidade e do mundo.

"Lose your rhythm, lose your lines, lose your sense of passing time", continuava Madeleine, enquanto ele ia buscar os cigarros.

Ela não tinha perdido a fé na Humanidade. Ela era o seu oposto. Tinha bons hábitos, projectos por sonhos, planos por desejos secretos. Estável e permanentemente feliz. Mas não nestas semanas em que os demónios dele tinham invadido um pouco a sua vida tornando-a um carrossel de sentimentos de euforia e depressão, quase paralisante.

"But if you lose me in your mind I must be saved", tinha apreciado a volta no carrossel e estava grata, embora ligeiramente enjoada.

Sabia-se e sentia-se, finalmente, viva. E um pouco tonta.

"Then lose yourself instead till you remember to forget."

Tinha feito um esforço consciente por não o analisar demasiado enquanto o encantamento durou, mas agora que fora quebrado, via-o tal como ele era. E não conseguia deixar de sorrir.

"Lose your senses, lose your mind, lose your faith in human kind," reconhecia nele os bocadinhos de si que tanto amava e reconheceu o universo paralelo de si mesma que ele representava.

"Lose the chance to find another who'd behave, " reconhecia as coisas que nunca tinha tido coragem para fazer na sua vida, e percebeu que não "tinha de" tantas coisas como achava. Percebeu que a vida podia ser diferente. Percebeu que ela mesma poderia ser diferente, sem assim se perder de si própria ou dos outros.

"Lose the vows we never spoke, lose the punch-line to the joke, " compreendia-o agora melhor do que ele próprio poderia supor. Melhor do que ela imaginava que fosse possível, porque finalmente percebeu que ele era ela mesma noutro momento, noutro contexto, noutra vida.

E que ambos nunca haviam estado destinados a encontrar-se ou a fundir-se, porque isso de alguma forma ia contra as leis da natureza.

"Lose your innocence as if willingly you gave-" Guardou-o com carinho na sua essência e deu-lhe um abraço com a alma toda.

Ele não compreendia, tinha demasiado medo para abrir os olhos ou sequer tirar as mãos da barra em frente do seu assento no carrossel que não podia abandonar. Ficara tanto por dizer, nos pressupostos que ele supunha. E ela mesma não sabia se devia dizer-lhe tudo o que queria, porque - afinal de contas - não se devem estragar os filmes alheios.


"Lose the kettle on the pot, you can lose the best you've got
But if you lose me in your heart. I must be saved"

Não lamentava nada do que vivera e finalmente confirmara a sua suspeita de que se não se importasse de fazer más figuras e de deixar transparecer o que era e sentia, se se deixasse invadir pelo que sentia, embora sofresse pelo caminho, não restaria nada de que se arrepender.

Sentir-se-ia em paz, não chorando porque acabou, mas sorrindo porque aconteceu.

E sorria.


Elias

Elias tinha um pénis especialmente pequeno.

Era de resto bem constituído e bonito. Dotado de um físico invejável e de uns olhos verdes a que nenhuma fêmea era capaz de resistir, Elias tinha esse pequeno, pequeníssimo senão.

Estava habituado a ser assediado de forma mais ou menos descarada por mulheres de todas as faixas etárias e géneros. Elias culminava a sua boa aparência com uma cortesia irrepreensível e um charme absurdo. E gostava da "caça", embora tivesse uma sensação ambígua perante a mesma.

Dada a sua condição, desenvolvera ao longo dos anos uma série de estratégias para evitar os olhares de desprezo, risinhos, incredulidades e humilhações a que as mulheres, cruéis, o podiam submeter na intimidade.

Era um amante competente e incansável, fazendo jus ao adágio português, que repetia para si mesmo "enquanto houver língua e dedos, não há medos!". Era fogoso e imaginativo e alternava a penetração que raramente era sentida com toques e beijos e voltas de forma que se notasse o menos possível a sua pequenez. E nunca deixava que o vissem completamente nu.

Embora as suas primeiras experiências sexuais tivessem sido um fiasco humilhante, de há uns anos para cá, Elias gozava de uma reputação brilhante no que tocava ao sexo e era claro para todas as mulheres com quem dormia que não havia qualquer possibilidade de uma relação ou de a experiência se repetir muitas vezes, por isso que "aproveitassem o dia".

Para Elias era impensável que alguma mulher alguma vez o quisesse da maneira que ele era e o simples pensamento de se apaixonar e ser deixado pelo tamanho do pénis, como acontecera no passado, era insuportável. Então, preferia manter o coração frio e as mãos quentes.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Natália

Não gostava do Natal. Das luzes de Natal; das músicas incessantes e irritantes e repetidas na rua, no rádio, no supermercado, no trabalho; dos enfeites verdes e vermelhos e dourados; dos intervalos entre os programas de tv prolongados com  anúncios de perfumes e marcas e brinquedos.
Não gostava de bacalhau cozido. Nem de peru. Fazia alergia aos pinheiros e tinha aversão às árvores de plástico. Achava hipócrita dizer-se que Jesus tinha nascido em Dezembro, quando todos os indícios bíblicos indicavam que ele teria nascido em Março/Abril e considerava o Pai Natal o maior golpe publicitário de todos os tempos.
Irritavam-na os mails-tipo que recebia aos magotes e ainda mais - muito mais - a quantidade de sms's enviadas em massa nesta altura do ano e os telefonemas que se "tinham de" fazer.
Não gostava de comprar prendas por obrigação e odiava shoppings cheios de gente.
Nem a doçaria de Natal lhe era apelativa já que era celíaca e quase todos os doces tradicionais incluíam farinha de trigo.


Noutros tempos tempos gostara de sentir a casa a cheirar a canela e açúcar queimado, de poder deixar os cães entrar na cozinha de casa dos pais como única excepção anual à regra rígida de "cães dormem na rua", de comer todo o chocolate que conseguisse antes de dormir em frente à lareira entre conversas intimistas com as irmãs. Mais tarde gostaria do ritual de pensar na prenda perfeita para o namorado e depois marido, de enfeitar a sua casa de formas criativas, evitando a tradicional árvore de natal e os cânticos repetidos, de pensar e criar novas versões de doces tradicionais sem glúten e do pretexto para partilhar a felicidade com conhecidos, desconhecidos e amigos por igual.


Mas hoje tinha um sabor especialmente amargo o jantar de natal em casa da família onde a mesa tinha exactamente o número de lugares menos um do ano passado. Onde todas as festividades de família a lembravam do que já não tinha. De inventar o que fazer por não ter pretexto para passar tanto tempo à procura do presente ideal, embora lhe fosse inevitável reconhecer nas montras as diferentes opções de presente que ele certamente iria gostar ou que eram "a sua cara". De conduzir sozinha para a terra dos pais e dormir sozinha em frente à lareira. De não ter quem abraçar e com quem dançar músicas que não foram feitas para se dançar, no fim da noite, já um pouco bêbeda, depois de toda a gente se ter ido deitar. De enfrentar o ar de pena disfarçado das suas pessoas queridas. De não ter como fugir da sua pele, da sua vida e do seu natal.



domingo, dezembro 12, 2010

Avô Jaime

"-Gabriel, não faças barulho."

Aos 70 anos, o avô Jaime continuava a gostar das suas pequenas transgressões. Nada lhe sabia tão bem como um prazer roubado.

Os netos com quem fumava charros na varanda de casa (erva de cultivo e cuidado próprios e biológicos) conheciam bem demais como lhe apraziam estas pequenas facadas que espetava na educação convencional que Amélia, a nora, tanto se esforçava por dar aos filhos.

Gabriel e Ana Maria andavam ambos num colégio católico, iam à missa todos os Domingos e eram escuteiros.

Ao avô Jaime, um liberal de esquerda aventureiro isto sempre fizera muita confusão, mas não sentia que tinha legitimidade para interferir. mesmo se isso o fazia pensar que não educara o seu filho Vasco, agora um mero pau mandado da mulher, tão bem como havia suposto.

Quando os netos adolescentes o visitavam, a palavra chave era "vamos falar para a varanda" ou "vamos ver as estrelas" ou "vamos ver o mar", e os três percebiam imediatamente que o caminho estava livre para as suas conversas intimistas, explícitas e frequentemente heréticas com o ancião renegado da família.

Mas Jaime não agradava à nora que percebia os filhos diferentes depois das idas ao avô e isso fazia com que estas fossem tanto quanto possível escassas. E como ele ansiava com sofreguidão as visitas da juventude da família.

Preparava-se cedo, contrariando o seu ritmo habitual. Levantava-se da cama e tomava banho. Queria sempre certificar-se que tinha todas as referências musicais que queria partilhar com os netos, todas as fotografias, livros e filmes que lhes queria referenciar. Guardava a erva mais suave, certificando-se que não era especialmente forte para quando estava com eles. 

Se pudesse, se lhe dessem por uma vez carta de alforria e a liberdade de um dia só com eles, prepararia algum prato exótico e serviria do vinho especial que tinha guardado para as melhores ocasiões. Amava aqueles dois adolescentes quase adultos muito mais do que a sua própria vida. e queria beber da sua juventude, assegurando-se que percebiam a liberdade ao seu dispor, as suas possibilidades; que a moral e os limites que lhes eram impostos precisavam de ser questionados. Que tinham de viver. E que o deixassem viver um pouco da sua juventude de forma partilhada.

Jaime era viúvo e tinha uma namorada, Margarida, cerca de 30 anos mais nova que ele, com quem não vivia e que evitava trazer para as reuniões familiares para evitar expô-la ao escrutínio mesquinho e precipitado da nora e para evitar dar a Amélia mais uma desculpa para o privar dos netos.

Levava uma vida calma e sossegada junto ao mar. 

E um dia, simplesmente, não acordou.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Jorge

Os dentes, titânio;
os braços, puro aço;
a vontade, ferro;
o cabelo, prata;
a pele, bronze;
e o coração, ouro.

Jorge Silva vê-se a si mesmo como uma espécie de herói de acção da banda desenhada enquanto toma o duche matinal. Gosta de imaginar que é uma personagem, um herói de banda desenhada e até tem nome para si mesmo: "Metalman", o que lhe permite fazer uma campanha de trocadilhos e respostas mordazes e engraçadas.

Metalman é o seu "guilty pleasure". Quando era mais novo, Jorge desenhava bem e fazia cartoons a pedido dos colegas de turma que lhe veneravam os dotes artísticos e o talento para o teatro.

Mas Jorge era de uma família convencional com larga tradição na área da Gestão e da Economia e foi pressionado pelos pais a fazer um "curso a sério", que teria sempre tempo e oportunidade de explorar os passatempos depois de garantir a sua subsistência com um emprego "a sério".

E portanto, Jorge tornou-se num contabilista medíocre e obeso, de 45 anos, cujo ponto alto do seu dia era sonhar com os heróis de banda desenhada que poderia ter criado e as personagens que encarnaria se não tivesse sido tão ajuizado.

Hugo

"Quero-lhe partir a cara de cada vez que ela me fala, de cada vez que ela comenta uma coisa qualquer minha no facebook, de cada vez que recebo uma mensagem comunitária em que ela fala à bebé.
"Puka munina gota munto de ti, nunhé?"
Quero-lhe ir à cara, pronto, doutor, é isso, quero-lhe partir aquele focinho."

Marina já fazia psicoterapia com Hugo há mais de meio ano.

"Hmmmm"

Hugo vocalizou um incentivo neutro para Marina continuar a falar. Eram típicos estes acessos de raiva sem razão aparente nesta cliente. Tinha sido a forte emocioanlidade e a dificuldade em reagir friamente perante situações de interacção uma das principais razões de Marina o ter procurado. "Sou demasiado impulsiva, tempestuosa" dissera ela na entrevista de avaliação terapêutica.

"Quer dizer, doutor, eu não lhe quero bater, não tenho interesse nenhum em chegar a vias de facto. Mas muitas vezes, quando estou sozinha, imagino que lhe dou um par de estalos e as coisas que gostava de lhe dizer."

A possibilidade de estar perante alguém com uma perturbação de personalidade borderline ocorrera-lhe num primeiro momento. Chegou mesmo a perguntar-lhe se ela estivera envolvida em episódios de violência física, mas a sincera estranheza aversiva com que esta respondeu à questão deixara-o logo na altura com a impressão que mantinha até ao momento, de que Marina simplesmente vivia as coisas com uma intensidade momentânea descabida, mas era fundamentalmente inofensiva.

"Hmmmm"

Hugo procurava manter uma atitude de especial neutralidade com Marina. Sabia que isso a enervava e, embora tivesse fundamentação terapeutica para esta atitude, admitia para si mesmo que o divertia enervá-la com esta atitude. E gostava de esticar a corda.

"Sinto que está tensa, Marina."

Hugo percebeu um esgar de vitória em Marina. E apreciou como ambos jogavam o mesmo jogo de gato e rato por entre os conteúdos das conversas, replicando as dinâmicas de Marina no seu quotidiano.

Marina respondeu com "Hmmmmmm"

E Hugo não conseguiu deixar de sorrir divertido. E de pensar como gostava do seu trabalho, como o considerava desafiante e interessante. Que sorte tinha por poder lidar com pessoas tão diferentes e que lhe davam luta, sem se aperceberem que estavam a desemaranhar os seus próprios novelos.

Mexeu-se na cadeira, ajustando a sua posição, inclinou-se para ela e perguntou, olhando-a directamente nos olhos:

"Fale-me dessa situação."

E pronto,com uma simples questão acabara com a ilusão da cliente que achava que o tinha vergado e feito perder a calma.

Marina, com um ar perfeitamente incrédulo e mesmo ultrajado, desatou de forma emocionada a descrever como o processo terapêutico e a neutralidade do psicólogo a irritavam, como ela nunca sabia o que ele estava a pensar, como não sabia o que ele estava a perguntar e muito menos o que responder a maior parte das vezes. E que ela, por seu turno dizia tudo o que lhe passava pela cabeça, sem restrições; ela não tinha segredos para ele. E que acabava por não perceber muito bem o que é que andava para ali a fazer se ele não lhe dizia nunca merda - desculpe doutor - coisa nenhuma, se não lhe dava qualquer solução.

Hugo ficou feliz por finalmente ver expostas as ideias que sabia que Marina alimentava há algum tempo e decidiu provocá-la ainda mais:

"Então porque é que volta?"

Hugo sentia-se sempre como um jogador de vólei que faz o bolar: ele atirava a bola com perícia, agilidade e convicção, mas depois ficava de olhos fixos nela, torcendo para que não se desviasse da rota pretendida e não fosse bater na rede. Desta pergunta poderia surgiu absolutamente qualquer coisa. Até a agressão que não esperava.

Mas Marina permaneceu em choque e depois de uns momentos sem conseguir articular palavra, respondeu:

"Oh doutor, francamente..."

"Sim?"

Confirmou a pergunta com mais confiança.

Hugo sabia que Marina não tinha uma resposta para aquela pergunta. Não tinha. Pelo menos nada que fosse coerente com a explosão anti-psicologia que acabara de ter.

"Porque isto me ajuda." disse finalmente a cliente e em voz sumida.

"Como assim?" perguntou neutralmente o terapeuta, já sem provocar, apenas querendo que Marina reflectisse sobre o processo terapêutico.

"Porque saio daqui aliviada. Parece que me tiraram um peso de cima. Porque lhe digo a si o que não tenho coragem de dizer a mais ninguém. Mesmo que o doutor não me diga coisa nenhuma relativamente à forma como devo agir. Eu sei que a terapia me faz falta e sei que estou melhor. Sei que penso mais claramente depois de falar consigo."

Hugo sorriu e depois deste desvio relativamente à questão central, achou que devia subrepticiamente voltar ao argumento principal da consulta.

"Hmmmmm. E em relação à sua amiga?"

"Amiga? Mas ela não é minha amiga!" - Marina soltou a frase e parou, reflectindo.

"Ela não é minha amiga. É só uma pessoa que eu conheço" disse novamente como se quisesse cimentar a recém-descoberta verdade.

"Hmmmmm" - vocalizou Hugo, disfarçando o sentimento de vitória e satisfação por a cliente ter chegado à conclusão que ele desejava desde o princípio da consulta.

"Ora nem mais, então ela não me devia conseguir afectar desta maneira, não é?"

(a situação pelos olhos de Marina em http://personifixar.blogspot.com/2010/10/marina.html)

Rita

One day at the briefing
she'd heard a man say,
"Go perfectly limp,
and be carried away."
                                                                         (Go Limp, Nina Simone)

Rita vomitou o almoço e planeou dar mais uma volta à pista no treino da tarde.

Levantou-se da sanita e enquanto lavava as mãos virou-se de lado para examinar a sua barriga "enorme". Achava a sua cara grande demais, bolachuda. Não gostava das pernas. Achava que a celulite do seu rabo se via a léguas. Acreditava que toda a gente reparava como tinha uma pele horrível e um cabelo estragado. E como os seus braços eram desproporcionais ao corpo, sendo grandes demais. Até os seus olhos de um verde intenso e invulgar considerava estranhos e desadequados.

Aos 18 anos, Rita preparava-se para entrar no curso de Medicina na Faculdade da sua primeira escolha. Era uma aluna dotada, brilhante, perfeccionista. Incapaz de entregar um trabalho acabado de fazer na véspera ou que considerasse incompleto. Obcecada com as datas e os horários, não tinha dificuldades em prescindir das suas horas de sono ou tempo pessoal para concluir uma qualquer tarefa. Rita tocava ainda piano a um nível quase profissional, estando a concluir o oitavo grau do conservatório neste instrumento.

O orgulho da família em Rita, a menina bonita, elegante, bem educada, inteligente e dotada era transbordante. A todos Rita era dada como exemplo a seguir, como a virtuosa.

E Rita era boa em tudo aquilo que fazia e em tudo aquilo a que se propunha. Era especialmente exigente consigo mesma e achava que tinha de se esforçar para ser sempre merecedora.

Mas não era feliz e nunca viria a encontrar aquilo que procurava, porque na realidade, Rita não gostava de si mesma.

No amor, Rita viria a provar ser uma mulher insegura e desejosa de aprovação, sujeitando-se aos caprichos mais degradantes dos namorados que quase sempre tinham um perfil dominante e abusivo. A família consideraria sempre que estavam claramente abaixo do seu nível, e não andavam longe da verdade, porque Rita não se permitiria envolver com ninguém de quem realmente gostasse, por não se considerar ao mesmo nível.

Passaria toda a vida à procura daquilo que podia fazer para encontrar o mais desejava.

Se ao menos lhe tivessem explicado um dia que aquilo que ela mais queria, amar e ser amada tinha tão pouco a ver com a sua aparência ou com as suas competências e mais com a sua coragem, a sua tolerância à rejeição e a sua capacidade de estar e permanecer vulnerável.

sábado, novembro 27, 2010

Ofélia

Bateu furiosamente na porta do elevador. Parecia um pesadelo.
Em miúda tinha adquirido um medo irracional de andar de elevador depois de ver uma novela em que a mãe da protagonista morria quando um dos cabos do elevador se soltava e levou uns bons dez anos a voltar a conseguir andar de ascensor.
Não interessava se a casa do padrinho era no 13.º andar, se tinha que subir 3 lanços de escada no hospital quando estava doente, se não compartilhava animações na feira popular com os amigos: nunca em qualquer circunstância a apanhavam num elevador.
Um dia, um amigo percebeu o seu medo e levou-a à casa das máquinas do elevador do prédio onde era responsável pelo condomínio e explicou-lhe todas as medidas de segurança que os aparelhos englobavam.
Teve pesadelos durante uma semana, em que o elevador caía, em que saia do elevador pelo alçapão superior e ficava esmagada quando ele chegava ao último andar ou então que ficava presa no poço do elevador e era assim esmagada quando ele chegava à cave. Acordava sobressaltada e depois repetia-se o sonho sem nunca conseguir controlar nem racionalizar os seus elementos.
Quando acordava racionalizava o mais que podia, que tudo aquilo era impossível, que nada daquilo acontecia a ninguém a não ser nos filmes e nas novelas, que nunca se ouviam notícias de acidentes com elevadores.
Depois de tanto dar sermões a si mesma, decidiu que era altura de deixar de ser mariquinhas e andar de elevador. Escolheu o elevador do hospital, porque era sempre frequentado e vigiado e porque, na pior das hipóteses, tinha médicos por perto, para a salvarem.
Nesse dia andou tantas vezes no elevador que o segurança a interpelou e quase a expulsou, até ela fazer "olhinhos de corça" e explicar a situação – altura em que o segurança lhe indicou um outro elevador que chegava a 3 andares mais acima, com a condição de andar uma vez e se ir embora.
Desde então, foi sempre capaz de andar de elevador ao ponto da preguiça, de usar o aparelho para subir um andar ou de descer para a cave de ascensor.
E agora, o que ela havia relegado para 3.º, 4.º, 5.º plano, estava mesmo a acontecer. O elevador estava parado entre o 3.º e o 4.º andar do prédio do namorado. A porta estava fechada, mas o elevador, a que ela por graça chamava "o elevador da morte" aludindo aos ruídos estranhos que fazia desde sempre e que sempre assustavam as pessoas que andavam nele pela primeira vez, não se mexia.
Começou por calmamente esperar que a luz voltasse. Quando as luzes se acenderam, achou que o elevador voltaria a mover-se. Gritou por ajuda dez minutos depois, debalde. Tocou o botãozinho do alarme, apenas para se lembrar como os condóminos haviam decidido desactivá-lo, uma vez que os miudos tinham o estúpido hábito de o fazer soar a torto e a direito e a qualquer hora do dia ou da noite. Então começou a bater na porta e a berrar. Até a merda do telemóvel estava sem rede. Bateu, bateu, bateu. Berrou. Berrou. Berrou.
Finalmente apareceu alguém para a salvar. Abriram a porta do elevador manualmente e ela teve uma sensação de deja vu: o elevador encontrava-se entre andares, a meio caminho do 4.º andar e teriam de a içar para a retirar. No sonho semelhante que tinha tido recorrentemente, quando era mais nova, o elevador caía, quando ela estava a sair, cortando-a ao meio.
Achou que era mau demais o que lhe estava a acontecer e começou a chorar convulsivamente. Sentia-se paralizada e incapaz de fazer fosse o que fosse, como um carneiro levado ao matadouro.
A muito custo a convenceram a mover-se. Talvez do pânico ou de ter chorado muito, sentia o chão inseguro, como se se movesse ou balouçasse, o que em nada contribuia à situação. Aquela merda daqueles barulhos que a porra do elevador fazia sempre estavam a deixá-la à beira de um novo ataque de nervos.
Onde raio estava o seu namorado que não chegava? Os vizinhos aglomeravam-se à porta do elevador cada um mandando mais bitaites que o outro e foi mais do que podia aguentar. Desmaiou.
Quando acordou estava exactamente no mesmo sítio. Ninguém a tinha tirado dali. Mandaram os vizinhos sair e chamaram o INEM. A visão de gente da saúde, que lhe inspirava tanta confiança deu-lhe a coragem de que precisava, não obstante os ruidos do elevador e a sensação de chão balouçante que tinha.
Percebeu que precisava de mais coragem do que tinha. Ganhou lanço e sem pensar atirou-se contra a parede, rumo à frincha de meio metro que em que a porta se abria.
A última coisa que ouviu foi um "strap" quase surdo e o som quase musical de uma corda de aço a soltar-se e a deslizar entre os cabos.

segunda-feira, novembro 08, 2010

São

"São.
São!
Ó São, anda cá!"

Fernando Gomes permaneceu sentado no sofá enquanto esperava que a mulher corresse para  a sala onde ele permanecia sentado em frente à televisão.

"Anda cá ber isto, carago!"

Conceição largou a loiça que lavava no rescaldo do almoço e dirigiu-se apressadamente para a sala secando as mãos no avental estampado com galos de Barcelos.

"O que é que foi home?"

"Senta-te aí! Olha!" - respondeu Gomes, apontando com incredulidade e veemência para o LCD.

São olhou para as imagens do notíciário e de repente, os olhos ficaram rasos de água.

Casara com Gomes depois de ter engravidado do filho, Tininho, e já tinha uma barriga bastante proeminente quando entrou de branco na Igreja do Senhor de Matosinhos. A sua vida não era fácil. Quando era mais nova trabalhara na lota como peixeira, mas a descoberta de um sopro no coração dera uma empurrão à opção por que Gomes tanto desejava e São deixou o trabalho para se dedicar à casa e à família.

Contando apenas com o salário de Gomes, a vida não era fácil. Gomes era trabalhador por conta própria, realizando trabalhos de pichelaria aqui e ali. O negócio não corria mal, mas era muito variável e implicava uma grande capacidade de gestão financeira e emocional por parte do marido a quem por vezes ficavam a dever muito dinheiro.

Gomes gostava da ideia de ter São sempre disponível em casa, à moda antiga. Tinha sempre a casa limpinha, as camisas passadas e a segurança de ter uma mulher que dependia dele para tudo e cujo dinheiro era ele que controlava.

Embora São fizesse rissóis para fora e tivesse uma ou duas senhoras a quem passava roupa, o dinheiro que ela fazia era muito pouco e entregava-lho a ele, para que gerisse a soma maior, de modo a irem guardando algum "para caso de necessidade" e para um dia pagarem aquilo que fosse necessário para "ver o nosso Tininho doutor".

A vida que levava era dura, numa constante gestão de trocos, na contagem diária das possibilidades de poupança, na ginástica de fazer render um orçamento muito magro, mas que ela queria que desse para tudo.

São sabia todos os ofícios da perfeita dona de casa, mas muitos deles aprendera depois de casada e com o seu esforço, porque queria poder valer à família, dar-lhes mais do que o dinheiro fazia render. Sabia os ofícios da costura e da cozinha, bordava, fazia arraiolos, arranjos florais, cultivava no pequeno terreno atrás dos anexos em que viviam legumes e outras plantas comestíveis e convencera Gomes a criarem galinhas.

Por Gomes e Tininho daria a sua vida sem pestanejar. Apesar das noites mal dormidas, das discussões, dos sapos que engolia quando apanhava mechas de cabelo de cor loiro-prostituta-barata na roupa de Gomes, dos tabefes ocasionais que levava em dias de maior frustração do marido e das dores de barriga com medo de o orçamento não chegar. Amava ambos os homens da sua vida mais do que conseguia expressar e seria capaz de qualquer coisa por ambos e especialmente por Tininho, de quem esperava o mundo.

E foi por tudo isto que a escolha do seu filho de entre todos os meninos presentes pelo entrevistador da televisão para dizer o que é que achava do início das aulas e da mensagem da ministra da educação, lhe soube como um prémio desejado e inesperado. Como se depois de todos estes anos, Deus lhe estivesse finalmente a piscar o olho e a mostrar que tudo via. E os olhos de Conceição encheram-se de lágrimas de incontida felicidade e orgulho perante o súbito estrelato do filho.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Ana Maria

No dia 1 de Novembro, Ana Maria saiu de casa com Rafael, segurando a sua mãozinha pequenina. Tinha um orgulho imenso no seu filho e na forma como, tão pequeno, era já tão atinado e responsável.

Ana Maria foi mãe já tarde na sua vida. Rafael foi um filho muito desejado e muito "batalhado". Ana Maria passou anos na tortura médica das fertilizações, foi a bruxas, perdeu a cabeça com mezinhas e métodos. Mas foi o Bom Jesus de Braga que lhe deu a criança que ela tanto amava e desejava e pela qual tanto sofrera.

Devota fervorosa, todos as noites rezava por um filho. Pedia essa bênção nas missas e rosários. Fez promessas incontáveis e nunca teve uma resposta um sinal de Deus, tendo chegado a considerar-se esquecida pelo Altíssimo.

Um dia, 6 anos depois de ter começado o seu martírio de tratamentos, de contagem de dias, de frustrações de uma ausência total de esperança, Ana Maria foi ao Bom Jesus de Braga sozinha.

Era um dia de semana, de tarde, chovia muito e não estava ninguém na nave central da catedral. Ajoelhou-se em frente ao altar-mor e disse, entregue, humilde e resignada entre as lágrimas inevitáveis e grossas.

"Seja feita a Tua vontade, Senhor".

Nesse momento, abandonou-se e abandonou toda a esperança de ter um filho. Resignou-se à vontade divina, aceitando-se impotente, insignificante e infértil. E decidiu seguir com a sua vida de outra forma, se era essa a vontade de Deus.

Um mês depois estava grávida.

Rafael de Jesus foi recebido por todos com uma alegria incomensurável. A avó Lucinda desdobrou-se em trabalhos manuais e encomendas para fazer um enxoval minhoto digno do seu neto que mais custara chegar. O avô Luís, ficava com os olhos rasos de água sempre que falava no assunto. Os dois irmãos e a irmã de Ana Maria trataram dela como se fosse uma princesa e o advento de Rafael foi visto por todos como um milagre merecido e desejado que chegava a uma pessoa querida que todos tinham visto sofrer e chorar durante seis longos anos. Teresinha, a prima mais velha de Rafael foi escolhida para madrinha, por ser a mais velha e ajuizada, mas também por ter feito tantas vezes de filha para Ana Maria, quando a percebia mais desanimada e triste.

Depois do nascimento de Rafael, o clã subiu a pé o Bom Jesus em sinal de agradecimento. O bebé foi aí baptizado e todos os anos uma vela com o tamanho da criança era depositada no altar das ofertas do templo.

"Seja feita a Tua vontade" passou a ser uma espécie de lema informal de toda a família, mas especialmente de Ana Maria.

Rafael tinha agora sete anos e era a sua razão de viver. Era uma educadora extremosa, mimando mas impondo disciplina. O amor a Rafael era incondicional, mas o seu comportamento era necessariamente exemplar, porque Ana Maria acreditava que ensinar os valores e "dar educação" era a maior prova de amor que podia dar ao filho. Mesmo que às vezes isso lhe custasse horrores.

E Rafael sabia que entre os "obrigado", "se faz favor", "desculpe" e outras regras básicas, uma das mais importantes era nunca largar a mão da mãe quando fosse na rua.

Na fracção de segundo em que Rafael se soltou da mãe para ser brutalmente atropelado por um carro que não o viu chegar, Ana Maria viu o seu mundo seguir em câmara lenta.

Teve tempo para não compreender porque é que Rafael se soltava da sua mão se ele sabia que essa regra era muito importante, teve tempo para querer agarra-lo e ralhar com ele, teve tempo para ver o carro chegar, para ver o filho seguir em frente incauto e para ver a carinha dele uma última vez antes de acontecer o pior. Sem conseguir mexer um músculo.

Perante os seus olhos aconteceu tudo tão devagar como um aviso. E quando estava consumado, Ana Maria apenas conseguiu dizer no mesmo tom que o fizera 7 anos antes, para espanto e choque dos que o testemunharam,

"Seja feita a Tua vontade, Senhor."

segunda-feira, outubro 25, 2010

Sr. Zé

O bêbedo cumprimentou-o e estendeu-lhe a mão. Caninho, o bêbedo local conhecido de todos, tinha um ar sujo, cheirava mal e falava alto.

José recusou o cumprimento, enxotando-o.

"Ai não me conheces?" perguntou o bêbedo fingindo indignação, como se estivesse a representar uma paródia.
"Não.", respondeu o outro secamente.
"Ah, não me conheces... Deixa estar que quando quiseres um copo..." - e pausou propositadamente enquanto o rosto do outro se transfigurava, passando do nojo e da superioridade à súplica - "em vez de 1, trago-te 2!", concluiu de forma marota e sentou-se noutra mesa.
"Deixa-te estar!...", continuou Caninho, troçando e falando alto enquanto se reclinava na cadeira vermelha de plástico na esplanada, provocando o incómodo de um apologético José.

Caninho era uma figura local. Tinha a roupa escura empoeirada, pontuada por nódoas de gordura e vinho tinto; trazia um saco de plástico preto fechado com um nó e um boné beije encardido de suor e pó com a pala para trás.

"Menina!" - chamou José pela empregada de café
"Diga, Sr. Zé" - respondeu a jovem a partir da soleira da porta do café.
"Venha cá."
"Pode falar daí." - disse com inamovível indiferença.
"Queria um copo de vinho branco."
"E depois?"
"Traga-me um copinho de vinho branco...", suplicou com voz sumida.

A jovem abanou a cabeça, recusando, e foi para dentro, sem mais. Como já era hábito, negava-se servir-lhe o pedido sem mais justificações ou palavras.

E José deu por si na situação ingrata do costume.

"Caninho! Eh! Caninho!" - dirigiu-se ele ao bêbedo - "Vai-me lá a dentro buscar um copo..."

Caninho levantou-se e, contrariando a atitude que ostentava até então, dirigiu-se ao Sr. Zé rapidamente com um ar sério, como fazem os cúmplices das ilicitudes enquanto perpetram o acto.

O Sr. Zé entregou-lhe dinheiro para 2 copos (o dele e o do comparsa) e esperou ansiosamente pelo primeiro gole do copo ilícito.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Gilberto

Chegou a casa às 4h05 da manhã e foi cumprimentado pelo cão carente. Pousou o casaco nas costas da cadeira da sala. Pegou no portátil para ver quem estava online e olhou à sua volta. Por todo lado sentia a presença dela, até ser quase palpável. Estava exausto além do aceitável, mas não conseguia ir dormir.

Olhou para o sofá vazio e pensou que daria um braço para poder ir deitar-se na cama e ter lá alguém à sua espera. Não queria necessariamente sexo, não era isso. Aquilo por que ele daria um braço era a intimidade muda de poder entrar numa cama onde outra pessoa estivesse a dormir, sem ser estranhado e se poder aninhar com familiaridade. Alguém com aquele grau de confiança e intimidade em que uma pessoa não precisa de pedir licença para se tocar e beijar; mesmo num estado de semi-conscência ou insconsciência como é o sono.

Gilberto e a agora ex-namorada tinham terminado a sua relação havia dois meses.

Depois da separação, Gilberto estava também mais contacto consigo mesmo. Relembrara coisas que gostava de fazer e de que se abstinha porque sabia que não eram da preferência dela. Conhecera gente mais interessante. Ia a sítios mais in e cool. Ia ao cinema, a concertos, a exposições, viajava e saía à noite.

Mas, desde então, nunca mais tinha conseguido dormir confortavelmente. Saia todas as noites porque não suportava a solidão das noites em casa, porque tudo o fazia pensar nela e na falta que ela lhe fazia. Porque se sentia incompleto, vazio.

Lembrava com saudade as pequenas coisas, que com o passar do tempo se tornavam mais douradas e ofuscavam os motivos da separação. Dos serões no sofá a ver televisão que não interessava a ninguém. De encomendar uma pizza e ver um filme no sofá com o cão a pedinchar  mimos e um pedaço do que quer que fosse que comessem. De telefonar a saber se era preciso alguma coisa de que se tivesse a esquecer do supermercado. De cozinhar para ela e partilhar as descobertas culinárias de que eram ambos fãs. De ter a quem telefonar por qualquer motivo ou a quem contar o dia correu mal ou os seus dilemas pessoais sem o julgar. Da companhia no sono. De fazer parte de algo maior que ele próprio.

Gilberto e Natália tinham temperaturas corporais muito diferentes, ela tinha sempre frio e ele suava sempre de calor. Depois de uns tempos em que Natália se constipou um mês seguido e em que ele não conseguia dormir sem se destapar completamente, optaram por ter dois edredões individuais na cama: um leve para ele e um de penas para ela. Esta diferença fisiológica impedia-os de dormirem toda a noite abraçados, mas não impedia a sua cumplicidade e dormiam de "pés dados". Com o passar do tempo e à medida que se afastavam na sua relação, Natália começou a dormir de costas para ele e abraçada à almofada. Racionalmente insensível a mais este pequeno sinal, Gilberto adquirira o hábito de dormir com as costas da sua mão nas suas costas numa ligação quase umbilical, subconscientemente declarando-se seu, pedindo-lhe que não o deixasse.

Mas ela deixara-o e agora a casa ficara vazia, mas ainda cheia de si, e os vestígios da sua presença passada tornavam a sua ausência quase palpável. Insuportável.

terça-feira, outubro 12, 2010

Cremilde

Apesar da vocação maternal e espírito protector que a tornaram a verdadeira matriarca da família, nunca teve filhos.
Em vez disso, adoptou os irmãos mais novos e os sobrinhos, quase todos afilhados, não por acaso.
Fisicamente, madrinha e afilhada eram e são muito parecidas: maxilar largo, nariz igual e mais alguns traços indubitavelmente familiares. Partilhavam uma relação inequívoca e indisfarçável de cumplicidade e afecto.
Era de tal modo óbvia a sua parecença e carinho que sempre que passeavam juntas por Barcelos, e apesar de Cremilde ser uma pessoa bastante conhecida na cidade, quando encontrava alguma amiga ou conhecida a pergunta era incontornável:
"É sua filha?"
Era um procedimento tão costumeiro que Helena se habituara a brincar com o assunto e divertia-se respondendo
"Sim!"
Ao mesmo tempo que ela respondia
"Não."
Depois, Cremilde virava-se para Helena e dizia "Oh Lena!" e para a outra pessoa "É tão patarata! É minha sobrinha/afilhada".
Se estivessem com tempo e a pessoa sorrisse, Helena insistia dizendo
"Oh mãe, lá estás tu a renegar-me! Não percebo porque é que tens vergonha de mim!" - e depois com um ar muito sério para outra pessoa "Não conta a ninguém que tem uma filha, é impressionante."
Acabavam sempre a rir desta diabrura que ela repreendia com o sorriso feliz e orgulhoso de ter uma sobrinha/afilhada que insistia em se passar por sua filha.

Naquela Quinta-feira, Helena seguiu o pai ao gabinete da médica que "queria falar com alguém da família da paciente". Havia uma estudante de Medicina com ela que observava ambos como aos peixes de um aquário.
A médica deu a notícia da irreversibilidade dos danos devagar e com suavidade, como quem ministra uma injecção de penicilina, já com muita experiência.
Foi suave, mas firme: ia acontecer o pior.
À medida que as frases se sequenciavam da maneira que os "Psis" ensinam que se deve fazer, as lágrimas começaram a rolar pela cara de Helena, sem parar, grossas e indisfarçáveis, apesar das suas tentativas de controlo.
Queria fazer-se forte, mas não conseguiu. Virou-se de costas enquanto a médica acabava de dar as notícias ao pai, estoicamente assimilando tudo.
Quando acabou e Helena se virou, um pouco mais recomposta, a médica perguntou:

"É sua mãe?"
Foi a última vez que alguém perguntou.


Nils Frahm – Unter (Official Music Video) from Erased Tapes on Vimeo.

sábado, outubro 09, 2010

Marina

"Quero-lhe partir a cara de cada vez que ela me fala, de cada vez que ela comenta uma coisa qualquer minha no facebook, de cada vez que recebo uma mensagem comunitária em que ela fala à bebé.
"Puka munina gota munto de ti, nunhé?"
Quero-lhe ir à cara, pronto, doutor, é isso, quero-lhe partir aquele focinho."

"Hmmmm"

Marina enervava-se e constrangia-se sempre com as vocalizações sem palavras do psicólogo. Que raio é hmmm?!!

"Quer dizer, doutor, eu não lhe quero bater, não tenho interesse nenhum em chegar a vias de facto. Mas muitas vezes, quando estou sozinha, imagino que lhe dou um par de estalos e as coisas que gostava de lhe dizer."

"Hmmmm"

Outra vez o hmmm. Marina enervou-se novamente, sem verbalizar o quanto a  incomodava aquela atitude neutra do terapeuta.

"Sinto que está tensa, Marina."

Finalmente! Aleluia! Cinquenta euros de consulta que não eram só para ouvir gemer e grunhir e ver acenar com a cabeça e bufar!

"Hmmmmmm"

Ora prova lá do teu próprio remédio, a ver se gostas ó doutor!, pensou com os seus botões.

O terapeuta sorriu, mexeu-se na cadeira, ajustando a sua posição, inclinou-se para ela e perguntou, olhando-a directamente nos olhos:

"Fale-me dessa situação."

Marina, incrédula no que estava a acontecer e com menos que confiança que nunca nessa treta da psicoterapia desatou de forma emocionada a descrever como o processo terapêutico e a neutralidade do psicólogo a irritavam, como ela nunca sabia o que ele estava a pensar, como não sabia o que ele estava a perguntar e muito menos o que responder a maior parte das vezes. E ela, por seu turno dizia tudo o que lhe passava pela cabeça, sem restrições; ela não tinha segredos para ele. E que acabava por não perceber muito bem o que é que andava para ali a fazer se ele não lhe dizia nunca merda - desculpe doutor - coisa nenhuma, se não lhe dava qualquer solução.

"Então porque é que volta?"

Ora, este espertinho estava-se a habilitar, realmente. Então ela a pagar-lhe 100€ por mês e o gajo pergunta assim sem mais nem menos porque é que ela volta? E se ela percebe que não precisa de voltar? E se ela decide mudar de terapeuta? Ou melhor, passar para um psiquiatra que ao menos sempre lhe dá medicamentos e é um médico a sério? Que filho da puta.

Mas permaneceu em choque; depois de uns momentos sem conseguir articular palavra, Marina responde:

"Oh doutor, francamente..."

"Sim?"

Marina não tinha uma resposta para aquela pergunta. Não tinha. Pelo menos nada que fosse coerente com a explosão anti-psicologia que acabara de ter.

E o gajo em silêncio, imperturbável.

"Porque isto me ajuda." disse finalmente e em voz sumida.

"Como assim?" perguntou neutralmente o terapeuta.

"Porque saio daqui aliviada. Parece que me tiraram um peso de cima. Porque lhe digo a si o que não tenho coragem de dizer a mais ninguém. Mesmo que o doutor não me diga coisa nenhuma relativamente à forma como devo agir. Eu sei que a terapia me faz falta e sei que estou melhor. Sei que penso mais claramente depois de falar consigo."

"Hmmmmm. E em relação à sua amiga?"

"Amiga? Mas ela não é minha amiga!" - parou e reflectiu no que acabara de dizer "ela não é minha amiga"

"Ela não é minha amiga. É só uma pessoa que eu conheço" disse novamente como se quisesse cimentar a recém-descoberta verdade.

"Hmmmmm"

"Ora nem mais, então ela não me devia conseguir afectar desta maneira, não é?"


(a situação pelos olhos de Hugo em http://personifixar.blogspot.com/2010/11/hugo.html)

terça-feira, outubro 05, 2010

Marta

Nunca gostara de beijos de língua até ele aparecer. Nunca tinha deixado ninguém beijá-la daquela forma. Porque um beijo de língua é quase mais que uma penetração. Na verdade, um beijo de língua é uma penetração. Uma penetração para a qual não existe preservativo.

Encostou-se à janela enquanto considerava se sempre se ia masturbar ou não. Tramado ter-se lembrado desta coisa dos beijos de língua. É que se uma pessoa se pode satisfazer a si mesma na genitália, não há nada que chegue a um beijo de língua quando se está só.

Acabou o cigarro e fechou a janela.

Marta tinha uma auto-estima elevada e acima de tudo expectativas extraordinariamente rigorosas relativamente a si mesma. E por arrastamento, relativamente às pessoas com quem se relacionava intimamente.

Perdoava quase tudo aos amigos mas era incrivelmente severa consigo mesma e com os seus namorados. Como se lhes fosse vedado cometerem erros.

Marta não era má pessoa, simplesmente sempre lhe haviam enchido a cabeça de normas rígidas e protocolos. de expectativas. Sem nunca se lembrarem de lhe explicar que a vida também pode ser simples e descomplicada. Que não precisava de atingir níveis de sucesso extraordinário para ser aceite e ser amada e ser feliz.

E começava a duvidar se algum dia realmente poderia ser feliz, já que acreditava que a doçura e a ternura são como a fruta doce do verão: se não se entregam na altura delas e ficam guardadas dentro de um sítio quente como é o coração humano, azedam e apodrecem. ou então o coração arrefece como forma de se adaptar ao facto de não lhe adiantar criar mais amor, para não cheirar a bafio e ganhar bicharada.

Marta tinha horror a tornar-se uma mulher azeda, mesquinha e fria por não dar o seu amor na altura dele, ainda que esse outrem que não estivesse dentro das suas normas criteriosas e opressoras.

Saiu da marquise e dirigiu-se ao quarto. E decidiu que ainda hoje haveria de fazer ambas as coisas: dar-se a si mesma um eficiente orgasmo e beijar alguém, ainda que fosse sem amor. E enquanto procurava o dildo, enviou uma mensagem a Joel, a quem finalmente decidira dar uma oportunidade.

"Que se lixe" - disse para si mesma - "vai dar asneira, mas só se vive uma vez."

E entregou-se ao seu próprio prazer sem culpas e sem barreiras.