quarta-feira, novembro 02, 2011

Sr. Zé (2)

A enfermeira bonita de mãos suaves perguntou-lhe se estava bem assim, referindo-se à almofada.

José respondeu prontamente que estava melhor se ela estivesse em cima dele, referindo-se à enfermeira.

Parece que o termo médico para a sua condição era "frontalizado". Mas para José o sabor da palavra era apenas liberdade e intensidade. Como se tivesse voltado a ter 5 anos e pudesse viver cada momento nele mesmo e como se apenas esse mesmo instante e as suas vontades momentâneas contassem.

Queria todas as coisas com intensidade e não as julgava pela pertinência. Queria comer as enfermeiras, pois queria. Queria duas sobremesas. queria. Queria um copo de vinho agora? sim. Queria fazer as necessidades naquele momento. e fazia.

A família, depois de tantos anos a tomar conta dele e dos seus incorrigíveis hábitos de alcoólico deixou de ter capacidade de gerir esta fase da vida de José em que na segunda feira se encontra o avô nu no jardim a cumprimentar os carros e a perguntar se "nunca viram?", na quarta-feira, o cabelo foi cortado à tesourada por si mesmo e na sexta-feira está a chorar baba e ranho porque se lembrou das saudades que tem da falecida.

Não percebia porque é que as pessoas se afastavam dele, porque é que não o podiam deixar fazer tudo o que queria. Não percebia porque é que as coisas não podiam ser como ele queria, ele era mais velho que elas afinal, olha que porra! Ele é que sabia!

E a enfermeira bonita de mãos suaves dizia "Sr. Zé, mais respeitinho, sim?" e conversava pacientemente com ele, e fazia-lhe perguntas sobre a vida dele. E no momento a seguir a enfermeira bonita de mãos suaves já lhe fazia lembrar mais a neta dele. e que saudades que tinha da neta. Quase tantas como da sua Laurinda, aquilo é que era uma mulher, já não se fazem daquelas.

Enfermeira, dá-me um copinho de vinho?
Não Sr. Zé, sabe que aqui no hospital não temos disso.
Ah está bem. E uma bolacha?
Vou ver Sr. Zé.

E vinha triunfante, a enfermeira, com uma bolacha.

"É o nosso segredo, está bem, sr. Zé? Senão daqui a nada tenho toda a gente a pedir-me bolachas, está bem?"

E aquela bolacha sabia-lhe como a melhor coisa do mundo por momentos. Mesmo se a seguir a decidisse atirar para o chão. O momento - cada momento - era dele, como afinal só o pode ser com as crianças e os velhos frontalizados, para quem nada mais tem verdadeiramente importância, nada mais realmente existe.


Oasis - Whatever

D. Elisa

Moveu-se debilmente para o centro do palco e recebeu o aplauso com graciosidade, mesmo sem perceber exactamente porque é que a aplaudiam.

Cada pessoa que por ela passava fazia a mesma pergunta "lembra-se de mim?" e depois tentavam identificar-se de tal forma que ela os reconhecesse. Não reconhecia. A D. Elisa mal se lembrava dos filhos e dos netos, quanto mais das pessoas que um dia povoaram a sua vida e que ela enriquecera de forma inquantificável?

A D. Elisa foi sempre o pilar da família, o motor das vidas de todos que a rodeavam e até aos oitenta e tal anos era ela que fazia os licores para o natal, os almoços de domingo, as limpezas da casa. Dava aulas de música em casa e era incansável. Recitava as lições de teoria musical de cor

"Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Ioannes

é o poema em latim que está na origem dos nomes que damos às notas musicais..."

Dirigia o coro e era ela que comprava os rebuçados de mentol do Lidl, fazendo a longa caminhada de sua casa à zona industrial a pé para que nada faltasse "aos meninos". Cantava, tocava piano, e dava aulas de tudo isso enquanto fazia um pouco de avó para todos com as suas histórias empolgantes de "quando era nova".

E cuidava do marido doente, fazendo crer a todos e até a ele que nada era muito grave, que tudo se passa nesta vida.

Quando o marido morreu, perdeu o norte. Como se tivesse perdido o propósito. Como se ela, o motor, tivesse ficado de repente sem ter para onde ir, em ponto morto e sem gasolina. E ela que havia sido sempre a pessoa de boa memória, aquela a quem se perguntava "quem é fulana" para se ficar a saber não só uma completa biografia como uma breve árvore genealógica e as peripécias mais relevantes da família em geral, começou a apagar a sua vida aos poucos.

Começou com as pessoas que via pouco, passou aos conhecidos da rua, a seguir para os alunos e ex-alunos que conhecera e com os quais convivera durante décadas, depois para os alunos recentes, depois para as pessoas com quem convivia diariamente e por fim para os netos e para os filhos.

Lembrava-se que tinha de ir ao cemitério.

Nunca se lembrara das letras das músicas e começou também a esquecer a música.

Desvaneceu da sua memória a sua maior riqueza: as coisas que construiu, as suas experiências diversificadas, ricas e enriquecedoras. As vidas que tocou.

O dia da homenagem foi confuso para a D. Elisa, que, no entanto, não tinha esquecido como se está num palco e o que isso significa em geral. Que não esquecera que um artista agradece sempre o aplauso com humildade. Que faz sempre uma vénia.

Mas que não conseguia perceber porque a beijavam e abraçavam tantos estranhos, porque é que tanta gente insistia para que se lembrassem dela. Porque é que a sua importância era tão tamanha.

terça-feira, novembro 01, 2011

Romeu e Julieta

Romeu e Julieta eram uma entidade una e indivisível para todos os que os rodeavam. Trabalhavam na mesma empresa, tinham os mesmos interesses, eram similares em quase tudo e completavam-se no restante.

Se no início era fascinante verificar o sincronismo da relação que era toda ela rosas, com o passar do tempo esta caracterísitica tão especial tornou-se em algo banal e apenas mais um fait divers para todos. um dado adquirido.

Romeu e Julieta passavam juntos muitas horas do dia e muitas horas da noite. E a cumplicidade síncrona começou a tornar-se saturação.

Deitados de costas um para o outro, na cama, Romeu questiona Julieta se ela tem de ser tão dura com os miúdos, se a vida tem de ser assim tão dificil. E Julieta responde recriminando que se não for ela a impor disciplina ninguém o faz.

Nesse dia, Julieta virou-se para o filho de ambos e disse: "e bato-te na cara que é para toda a gente saber que o João é um menino mau e que se porta mal, por isso a minha mãe tem de me bater na cara". João contorceu-se entre o querer continuar a desafiá-la como fazem as crianças de 5 anos e a corda sensível em que ela tocou, a sua vaidade.

Romeu interveio dizendo que Julieta não era clara na disciplina que empregava, que escusava de ameaçar o miudo se a seguir o deixava fazer tudo o que ele quisesse. E Julieta num tom calmo de agressividade absurda contestou com "queres falar de disciplina? quem é que faz downloads para o João? hã? e lhe dá videos e depois temos de o por de castigo porque não se pode jogar à semana? hein?"

Deixou Romeu sem resposta, numa situação em tudo similar à de João: querendo continuar a desafiá-la, mas agredido na sua corda sensível. Tal pai, tal filho.

Julieta tinha tanto de meiga como de cobra e Romeu tinha tanto de manso como de escorpião. Iguais os dois, farinha do mesmo saco.

Nos últimos tempos já nem se importavam muito com disfarçar. Quando alguém elogiava Maria a filha de ambos, dizendo que era "tão bonita" e que "saía mesmo à mãe", Romeu respondia com "é sai a ela. mau feitio e tudo. griiiiiiita que se farta, parece uma desalmada."

Na cama, voltada de costas para Romeu, Julieta recrimina o marido de a deixar a braços com todas as decisões importantes, com todas as dificuldades e se escapar para o seu mundo, com os seus amigos e as suas coisas. Que estava farta de remar ela o barco, que já não podia mais de cansaço e saturação.

E ainda não o dizia, mas esta saturação era tanto da vida como dele, que estava já na fase em que até o ar a passar nas narinas cheias de sinusite e os estalinhos que Romeu dava por causa desta condição a enervavam. Que a forma como ele punha a manteiga no pão e depois a faca cheia de migalhas de volta no pacote da manteiga a irritavam além das suas forças. Que o casaco amarfanhado em cima do sofá todos os dias a deixava fora de si. Que o seu cheiro lhe era insuportável. Que a forma de ele a tocar - nas poucas vezes em que o fazia já - a forma de ele a chamar, a forma de ele existir eram demais para si e para o que podia aguentar.

E o seu amor juvenil que se tornara lendário, vencendo tudo e todos desgastou-se como água mole em pedra dura, com o passar dos dias.

Julieta era uma déspota, Romeu era um morcão.

E o seu casamento tinha os dias contados.


sábado, outubro 29, 2011

Firmino e Matilde

Os velhotes caminhavam sempre de mãos dadas.

Ela trazia o carrinho das compras, ele trazia a bengala.

Tinham personalidades extremas - de extremo mau-feitio e de extrema ternura - que não se preocupavam já em amenizar.

E partilhavam tudo.

Matilde limpou sempre o rabo de Firmino quando ele partiu a perna. Não sentiu mais nojo do que se limpasse a sua própria merda.

Firmino cuidou a sutura da mama de Matilde que teve de ser retirada, com o amor e o cuidado de quem trata de uma parte ferida do seu próprio corpo e ajudou-a a sentir-se outra vez bonita e mulher, fazendo-a olhar-se pelos seus olhos.

Matilde cuidava as unhas encravadas de Firmino religiosamente, Firmino tirou os pelos do buço de Matilde e maquilhou-a quando ela esteve internada 2 meses e a vieram visitar os parentes de França - ela queria estar bonita para a família que vinha de longe.

Quando eram jovens, faziam amor todos os dias com a ânsia de quem está incompleto e precisa de se encontrar. Entrelaçavam os dedos e as línguas no ato de se penetrarem e se receberem mutuamente.

E a vida dos dois, a duo e a solo, seguiu com os seus altos e baixos.

Eram iguais e diferentes como os dois hemisférios de um mesmo cérebro, cujas funções e vocações são completamente diferentes mas cujo DNA é partilhado, cujo propósito é o mesmo, cujo corpo é uno. Com formas diferentes de resolver os mesmos problemas, com recursos distintos e, ao mesmo tempo, complementares.

Nas coisas em que Matilde era frágil, Firmino era forte, nas coisas em que Firmino era fraco, Matilde era rocha. E equilibravam os momentos de suspensão e segurança mútuos como quem sobe uma escada de bombeiro, um pé no ar quando o outro está no chão, uma mão na escada, quando a outra alcança o próximo degrau.

E ao longo da vida foram entrelaçando as palavras, os gestos e os sentimentos no ato contínuo de se penetrarem e se receberem mutuamente, estivessem onde (e como) estivessem.

No dia em que o autocarro os atropelou na passadeira perto de casa ao chegar das compras, como estava escrito nas estrelas que o faria, apertaram as mãos com força, mais por medo de se perderem um ao outro do que de perderem a própria vida. e morreram completos, sem a deformidade de lhes ter sido amputado o membro mais querido.

terça-feira, setembro 13, 2011

Francisca

As tardes de Domingo com a família de Francisca eram sempre uma verdadeira tortura.

Cumprindo um ritual semanal, toda a descendência se encontrava na casa da sua avó, a matriarca, que aos 82 anos continuava a fazer o almoço dominical ela mesma.

Francisca era a mais nova das primas e a única que continuava a não levar namorado para os encontros semanais. Depois, foi a única que não ficou noiva, a única que não casou e a única que não engravidou pouco depois do casamento.

À medida que o tempo passava, as atenções da família, em particular das mulheres da velha guarda da família, viravam-se dolorosamente para ela, com os comentários de pena e recriminação:

"Mas quê, filha, não consegues arranjar um namorado, é?"

As explicações culpabilizantes:

"Também, não te arranjas! Sempre com esse cabelo todo despenteado... Podias por uma corzinha na cara, filha... Que assim eles não olham para ti..."

"Se não fosses tão esquisita..."

No princípio, Francisca respondia, dizendo que não lhe dava jeito fazer as coisas que lhe prescreviam. Mas com respostas do tipo:

"Depois admiras-te de ficares muito tempo encostada"

Em breve desistiu. Aguentava em silêncio os comentários e sermões sobre a importância de arranjar "um homem" e os mais diversos procedimentos e técnicas para o fazer. Fazia de conta que não percebia que as primas eram pressionadas para lhe apresentarem os amigos dos maridos.

Acima de tudo, preferia não se chatear e tolerava os almoços de família como quem tolera os caprichos de, não um, mas vários tios idosos que acham que sabem como é que todos os outros devem viver a sua vida; e que não vale a pena nem contrariar nem dar importância.

Mas se no princípio, os comentários eram piedosos e relativamente tímidos, com o passar do tempo foram-se tornando mais descarados e agressivos.

"Filha, já não estás em idade de ser esquisita... Olha que não estás a ficar mais nova..."
"Olha que quem muito escolhe, pouco acerta..."

Até que um dia, depois de nascerem os filhos das primas e de alguém lhe dizer o já tradicional "ficavas tão bem com uma coisa dessas nos braços", uma tia idosa colmata com:

"Olha que uma mulher sem filhos, é como uma árvore sem frutos: não tem valor. Mais vale deitar abaixo e vender pela madeira."

Perante este impropério, desferido com naturalidade e uma noção deslocada de que era algo que ela precisava de ouvir, Francisca levantou-se à mesa do almoço, séria e visivelmente furiosa.

A família ficou em silêncio, incluido os bebés, que por algum instinto animal devem ter pressentido o perigo.

Francisca pediu a atenção de todos e anunciou alto e bom som, sem se alterar demasiado, que a família nada tinha a ver com a vida amorosa dela, mas que já que insistiam tanto em tocar no assunto, tinha o prazer de anunciar a todos que a razão pela qual não levava namorados para os almoços de família nem aconselhava a que dela esperassem rebentos era porque ela era lésbica.
Havia anos que gostava de mulheres e tinha várias namoradas, mas tinha sempre achado que seria demasiado chocante para uma família tão religiosa e tradicional levar tal companhia para os convénios do clã, porque, além de tudo, Francisca tinha uma libido estremamente fogosa e lhe era dificil controlar os seus impulsos e demonstrações públicas de afeto quando estava junto das suas amadas.

Perguntou se toda a gente tinha compreendido ou se ainda havia dúvidas ou alguma coisa que quisessem perguntar.

Não tinham.

Sentou-se de novo à mesa e continuou a comer.

O ambiente de choque demorou um pouco a passar, mas a família católica, apostólica romana era antes de mais nada um clã que não expulsa membros. Nunca mais ninguém voltou a tocar no assunto.

Nem a importuná-la com requisitos de casamentos ou crianças.

E finalmente Francisca pode reaver o gosto de estar com a família e conversar com todos sobre os mais diversos assuntos, exceto o novo tabu que ela própria criou nesse dia.

Mesmo se o tabu era mentira e Francisca na verdade não sentia - como nunca tinha sentido - qualquer tipo de atração pelo sexo feminino.

quarta-feira, agosto 31, 2011

J'aime

Maria e Alexandre conheceram-se na Faculdade e pouco tempo depois de terem começado a namorar estavam a morar juntos, contra todo o bom senso que lhes tinham impingido e nadando no sentido da corrente.

Começaram a viver em função um do outro no dia em que perceberam que não paravam de rir quando estavam juntos e juntos, apesar das suas respeitáveis licenciaturas em curso, aprenderam a cuspir fogo e foram inaugurar o Estádio do Braga no Euro 2004, aprenderam a andar de andas e faziam animação de rua. Trabalhavam juntos nos projetos de Maria, em Comunicação Social, trocando ideias para argumentos de curtas metragens e angariando amigos para as concretizar; trabalhavam juntos nos projetos de Alexandre em Psicologia, com críticas e ideias de melhoria.

Moravam na mesma casa e - mais que isso - viviam juntos.

Mudaram a vida toda um em função do outro sempre que a Vida assim o exigiu e aguentaram todos os bons e maus momentos que lhes surgiram. E nunca perderam de vista que - mais que nada - se amavam como amigos, se queriam como companheiros.

Quando casaram, Alexandre fez um discurso e comoveu todos, lembrando que não há "para sempres" mas que é possível ser finito, que ser finito não é saber o que o destino reserva, é navegar sem horizonte, é agarrar o que nos aparece e tentar tirar disso o melhor.

Continuaram a sua vida modesta de dinheiro e rica de tudo o resto, agarrando o que aparecia e tentando tirar disso o melhor. Nos bons e maus momentos, a vida a dois teve altos e baixos, mas nunca foi aborrecida.

E um dia, quando ainda eram ambos crianças no corpo de gente grande, passaram a ser três, com o nascimento de Jaime.




E o memorável discurso de Alexandre está aqui.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Rodolfo

O coração é esse músculo desobediente a quem não importa o que o lhe mandam fazer, é o rebelde a quem não se pode mandar bater baixinho, estar sossegado. Porque tem a mania que é independente e faz o que quer.

E como não é racional, faz muitas asneiras. e às vezes faz as coisas grandiosas que só os audazes almejam.

Rodolfo chegou sem se anunciar porque vivia como quem sabe que a vida é uma queda livre, mas era capaz de apreciar a liberdade que isso lhe proporcionava, de sentir o vento na cara, apreciar a paisagem e perceber o próprio ritmo do seu coração no processo de ver o chão aproximar-se.

E por isso não tinha vergonha de pensar com o coração e sentir com o cérebro.

Conheceu Salomé muito antes de a amar e amou-a quando já não tinha tempo para o fazer, roubando-o a todos os cantinhos de coisas que podia e não devia.

Porque se o tempo corria em linha reta, rumo ao desconhecido inevitável, Rodolfo optava por viver em contra-relógio, numa entrega total a e em cada momento, bebendo a vida como se fosse um peixe e a respirasse, sofregamente, até a esgotar, na esperança de num último momento descobrir um novo tanque de H2O. de no último momento sentir um arnês segurá-lo, evitando a colisão frontal com o solo. Mesmo se à partida parecia que esta seria a sua última reserva. Mesmo se não se lembrava de estar a fazer bungee jumping em vez de queda livre.

Porque Rodolfo sabia que, independentemente das probabilidades, uma história não acaba até ao seu desfecho e que a Vida dá mais voltas que a Terra.

sábado, julho 30, 2011

Joana

Joana foi o primeiro grande amor da família e a notícia do seu nascimento percorreu o clã como a água que rega uma planta seca: abarcou todo o solo antes de se entranhar.


Foi a primeira e muito aguardada criança da sua geração e toda a família tinha uma paixão assolapada pela menina que era a epítome de tudo o que uma menina representa: era delicada, meiga, doce, engraçada e frágil, embora gostasse de se fazer de aventureira e de dizer que não tinha medo.


Irresistível, portanto.


Corria às voltas no jardim, brincando de guerreira e chorava baixinho, como se estivesse contrariada por o fazer, mas sentida, quando se magoava ou quando os meninos não a deixavam brincar com eles.


No corre-corre dos dias, Joana trazia aos pais uma noção diferente do tempo, porque ter 5 minutos para chegar à escola não é nada quando não se encontra o brinquedo ou se tem os sapatos desapertados.


E os dias corriam devagar no quotidiano e depressa quando percebiam o quanto tinha crescido pelas fotografias ou nas reuniões familiares, quando todos o comentavam.


A criança culminava todos os atributos referidos com uma grande facilidade em fazer sentir aos familiares e amigos o quanto gostava deles e quão feliz estava de os ver e estar com eles. Joana era genuinamente meiga e carinhosa e parecia que correria o mundo para estar com cada pessoa, que por seu turno sentia que correria o mundo por ela.


O sentimento coletivo era, portanto, de um amor incomensurável e proteção, como um abraço que escuda. Todos queriam saber as novidades da escola, as actividades extracurriculares, os namoradinhos, ver os desenhos e pendurá-los na parede, adormecê-la e correr com os seus medos infantis e amorosos. Os momentos pequeninos eram disputados entre todos, por verdadeiros privilégios. A suas estórias e pequenas anedotas partilhadas entre todos da forma babada que fazem tios, primos bastante mais velhos e avós.


Por tudo isto, no funeral da mãe, as lágrimas sentidas e coletivas escorriam confusas, e não sabiam de quem era coração pretendiam lavar, se o seu próprio, se o de Joana, se o do seu pai.


Porque se Joana foi a primeira grande paixão da família, a perceção do seu desamparo súbito bateu em todos como uma onda do mar bravo que se apanha quando se virou as costas ao oceano. E todos perceberam que não importava o tamanho e a força do seu amor pela menina, que Joana teria de nadar sozinha nas águas em que apenas uma mãe chega para amparar na corrente.


A todos os outros apenas a oportunidade de observar e esperar na praia para a acolher nos momentos em que o mar a trouxesse à areia. E como o sentimento coletivo era - como sempre fora - de preservação e proteção, compreender que nada podia ser feito por Joana que a compensasse da perda e dos desafios que a morte da mãe representa, as lágrimas corriam sem saber para onde ir.

sexta-feira, julho 22, 2011

Dália

"Não vou deixar o meu amanhã estragar o meu hoje. Vou lutar. Isto não está acabado."

Dália segurou a mão do marido.

Elias estava em estado de choque. A sua mulher, a mãe dos seus filhos. A sua melhor amiga. A sua companheira. A sua vida. Em inexpugnável fase terminal.

Na cabeça de Dália, uma catadupa de pensamentos em turbilhão. As crianças, o sol, o cinema, a casa, o cheiro da roupa lavada, a viagem sempre adiada a Nova Iorque, o concerto de Tom Waits que nunca foi ver. E o cheiro das crianças, a forma do corpo delas abraçado ao seu. O peito de Elias e a curva do seu braço em que se enrosca a dormir. O cheiro do café matinal durante a semana. Acordar nos Domingos de manhã antes de toda a gente e fazer pequenos almoços especiais. Almoços de família. Gelado de melancia da Neveiros. As tardes na piscina. As festas de aniversário da família com toda a gente. Os abraço dos pais. O cheiro da marmelada a ser feita no outono. Fazer amor com o marido. Dar-lhe a mão no cinema. Andar abraçada com ele na rua. Os desenhos dos filhos no frigorífico. E quem vai cuidar agora dos filhos dela? Quem lhes vai dar conselhos e explicar os factos da vida? Quem lhes vai soprar as feridas e dizer que está tudo bem? Será que se vão lembrar dela quando forem grandes? Será que depois de morrer vai poder olhar por eles como dizem as histórias? Quem vai cuidar das plantas? E da casa? O que é que vai acontecer aos bonsais? Será que Elias vai encontrar outra mulher? E será que ela vai ser boa para as crianças? Quem vai incentivar Pedro a expressar o seu lado artístico? Como é que Mariana se vai aguentar numa casa só de homens? Como é que ela vai partilhar as primeira dúvidas femininas? E os pais? Como se vão aguentar sem a sua única filha? Como é que ela vai dizer à mãe as más notícias? E ao pai? E no fim? Será que vai ter muitas dores? E antes? Será que vai sofrer muito?

Queria chorar muito e berrar alto, queria dizer ao mundo, ao universo, a Deus, se ele existisse, que não era justo e que não podia morrer.

Mas Dália sabia que era o rochedo do marido. Segurou-lhe a mão com força e prometeu que ia lutar até ao fim, sem lhe dizer mais nada dos seus pensamentos e sem conseguir segurar as lágrimas silenciosas e rebeldes.

domingo, julho 17, 2011

Salomé

O tempo assumia formas estranhas para Salomé. O tempo é essa película de nada que cobre o mundo de forma completa, que os relógios tentam disciplinar, mas que qualquer criança sabe que não tem regulação possível. Que cinco anos são uma vida e cinco anos não são nada, que as férias passam a voar e as sextas feiras nunca mais acabam.

Havia quem lhe dissesse que tinha de ser mais objetiva, esquecendo-se que a imaginação conjunta o mundo.O equador é a linha imaginária que divide o mundo em duas partes; as fronteiras são linhas imaginárias que dividem os territórios em países; em matemática, a unidade imaginária permite aceder aos números complexos; o Pai Natal é uma criatura imaginária que traz presentes às crianças no Natal; o português médio é uma figura imaginária que representa os valores da População Portuguesa, em média... Etc.

E para ela o tempo era especialmente indisciplinado e rebelde. O tempo que parecia demorar-se nas conversas com Rodolfo que lhe coloriam o dia, fugia pelos cantos da sala onde trabalhava, esquecia-se de responder a mensagens de telemóvel, em cinco minutos adiados sucessivamente. O tempo, essa criatura imaginária que tanto a ajudava como gostava de a judiar, arrastando-se e correndo, mas que de vez em quando lhe dava o prazer de uma dança, em que o tempo era o certo e ela perfeitamente coreografada.

Salomé sentia que o tempo, para ela, não passava, porque "passar" indica que o tempo anda a um ritmo mais ou menos controlado, ele anda em linha reta mais ou menos devagar, mais ou menos depressa. E para si o tempo rodopiava, andando para trás e para a frente, para os lados, quando se lembrava de João, das avós, da porta de casa mal fechada, das tartes de morango que se tinham de reservar de sobremesa no sítio do costume, das férias no Algarve este ano, do prazo do trabalho para entregar amanhã.

Porque a vida de Salomé, tal como o seu tempo, não passava. A vida de Salomé era um conjunto imaginário de todas as suas experiências, vividas uma, duas, mil vezes, na primeira pessoa, na segunda pessoa, na sua memória, nas histórias que contava às outras pessoas, nas coisas que lhe contavam, nos livros, nos filmes, nas músicas, no sentido que tentava fazer de tudo, um pouco diferente a cada vez. E, por isso, a vida não passava em linha reta, a vida dançava rodopiando para trás e para a frente em eterna repetição e em constante inovação, com significados novos e coisas inesperadas em cada momento.

Em Salomé um dia podiam ser anos e uma semana passar sem se dar conta. Em Salomé o tempo agia de forma estranha, independentemente das suas tentativas de o disciplinar com horários. Esticava-se e crescia nuns lados, era fugaz noutros. E a sua vida era a real medida do seu tempo, independentemente dos calendários e relógios.

Porque a vida acontece como a vivemos e a contamos, não como de facto se passou.


Palco do Tempo - Noiserv

segunda-feira, junho 13, 2011

Camila

Lembrava-se de ser uma noiva feliz, cheia de sonhos e esperanças, apaixonadíssima e feliz, não se pode descrever de outra forma, arrebatada de um sentimento absoluto, inteiro, pleno.
Camila  era o centro da animação, sempre. Quem visse a sua energia inefável, o seu bom humor, a sua capacidade organizativa em prol dos outros, sempre em prol dos outros, não imaginaria quão opostas eram as águas profundas que lhe corriam na alma.
Quando Amália conheceu David, Camila foi conspiradora-mor da sua felicidade, arranjando pretextos perfeitos para Amália sair de casa, servindo de alibi para as suas escapadas com o namorado secreto.
Quando decidiram casar, Camila mostrou mais uma vez o seu valor como amiga. Ajudou na organização sem ser intrometida, mobilizou os amigos de ambos em surpresas infidáveis, animou como sempre um pouco mais a vida de todos.
Mesmo tratando-se de um casamento na igreja do Bonfim, como o seu fora. Mesmo segurando e ajeitando o véu da noiva à entrada da igreja num gesto parecido com o que tinham feito por si.
Mesmo perante um amor tão puro e promissor como o seu havia sido.
Marco e Camila namoraram 10 anos e ele estava já diagnosticado com cancro quando casaram. Camila amava-o e nada seria diferente. O amor tudo conquista e haveria de resgatar também a vida de Marco.
Continuaram a construção da sua casa e começaram os tratamentos, escrupulosamente seguindo todos os tortuosos ditames médicos. Camila deixou o seu emprego, a sua vida e a sua existência para o amparar a ele.
E ele lutou o mais que pode, numa luta perdida à partida. E deixou a Camila um legado bem maior do que a casa que o seguro de vida pagou; deixou-lhe a certeza de que ela fez tudo o que podia, que ele a amava mais que tudo o resto e que ela era mais forte do que supunha.
E que a vida é preciosa e se tem de viver momento a momento.
O vestido que levou para o casamento da sua amiga era preto e elegante. “Com o meu vestido preto, eu nunca me comprometo”, dizia num tom jocoso e coquete, mudando logo de assunto.
Porque se de alguma maneira queria estar de luto pelo seu amor, por tudo o que tivera e perdera, pelos momentos que vivera naquela mesma igreja 3 anos antes, os mesmos olhares, as mesmas sensações, o mesmo nervosismo e a mesma alegria profunda de quem se entrega sem reservas a outro ser humano para o melhor e para o pior, na saúde e na doença, não suportava que sentissem pena dela ou que isso fosse motivo de conversa e jamais roubaria o centro de atenções da sua grande amiga, a noiva feliz.

domingo, junho 05, 2011

Judite

Judite tinha um coração de ouro maciço, inteiro e reluzente.

E como qualquer objecto de metal deste tipo, era também impenetrável.

Tomava as maiores precauções para que não ficasse ferido, não se riscasse, não perdesse o brilho. Guardava-o como se tivesse um cofre, dentro de um forte, no meio de uma ilha.

E o seu coração crescia, em tamanho e peso, cada vez mais.

Até se tornar insustentável carregar com o seu coração grande, bonito, perfeito, doirado, pesado e inútil.

Porque os corações não são meras peças decorativas, são peças utilitárias.

E o coração de Judite quanto mais temia o uso mais se tornava pesado.

Até que um dia, farta de o carregar de um lado para o outro, Judite já só o queria entregar a alguém que a ajudasse com esta carga.

Ernesto tinha ar de quem conseguiria segurar o coração Judite porque era ele próprio grande e forte. Faltava-lhe no entanto a coragem e a sabedoria para compreender o valor do objecto que segurava nas mãos e um dia deixou o coração de Judite caído pelo chão, depois de o riscar, rachando-o a meio na queda.

Desgostosa de ver o seu maior tesouro partido e desprezado, Judite consertou-o na medida do possível e pensou que não o voltava a deixar por mãos alheias.

Mas os corações são um pouco como a loiça boa de jantar. Depois de se partir o primeiro prato, há sempre um pouco menos de cerimónia no uso do serviço. 

E Judite continuou a usar o seu coração que continuou a ser partido, rachado e riscado.

No princípio, parecia mais feio, mas, com o tempo, foi evoluindo; tornou-se filigrana, cota de malha cinzelada, fio de ouro... E com cada uso, o objecto parecia ficar mais leve, flexível, rico e permeável.

E a sua composição foi mudando, desrigidificando. O coração adquiriu o hábito de se mexer e começou a não conseguir passar sem isso, já não sabia estar inerte sem se sentir morto.

Porque o coração de Judite deixou de ser um coração de ouro maciço e passou a ser um coração humano, cheio de sangue mas cheio de vida. Capaz de sentir e de se saber vivo.

Então, Judite deixou de ter medo e começou a viver, agora que tinha um músculo que lhe bombeasse o sangue devidamente pelo corpo todo.

quinta-feira, maio 19, 2011

Teresinha (2)

Teresinha Villaverde fazia ballet na adolescência, como qualquer menina de bem. E se Teresinha era a princesa das meninas de bem, era também dedicadíssima ao seu ballet que praticara durante 12 anos.

Aos 18 anos, com a entrada na Faculdade, houve muito na sua vida que mudou e deixou de fazer sentido. E com isso, também o ballet.

Mas um ano depois, Teresinha sentia-lhe a falta. Não porque gostasse especialmente de se ver de cor-de-rosa literal e figurativamente, mas porque se sentia a perder destreza, agilidade e sobretudo flexibilidade.

Decidida a distanciar-se da imagem convencional e perfeitinha que tinha, agora que estudava Comunicação Social e queria ser "alternativa", foi com algum entusiasmo que se inscreveu nas recém inauguradas aulas de Tai-chi que dava um seu conterrâneo, no centro da Santa Casa da Misericórdia.

O professor de Tai-chi era simultaneamente o professor de Chi-kung e de Kung-fu. Era um homem muito alto e muito magro, de nariz adunco e barbicha, como alguns vilões dos filmes de desenhos animados infantis. Casado com uma senhora de Braga, vivia na capital de distrito e fazia a sua vida entre Braga e o Porto, difundido as 3 artes em que se tornara mestre no Japão.

António era um homem um pouco amargo e zangado com a vida que não dispensava conhecimento algum que não fosse a troco de dinheiro, porque, dizia, também lhe tinha custado muito ir para o Japão e tinha de rentabilizar as coisas que aprendera com sacrifício.

Exercia ainda acumpunctura e shiatsu e andava a tentar implementar aulas de meditação na localidade, mas sem grande sucesso até à data.

António encarnava de alguma forma uma sabedoria e um exotismo que apenas os lugares muito distantes têm e encantava as senhoras de Vila Verde com estes mistérios, angariando várias clientes para as suas aulas.

Quando Teresinha manifestou o seu contentamento com as aulas de Tai-chi que lhe devolviam a mobilidade que sempre tivera e estimulavam a sua flexibilidade de que tanto sentira falta, António sentiu um orgulho muito especial. Teresinha era muito popular e admirada na terra e representava uma excelente publicidade a todos os níveis que estivesse satisfeita com as aulas.

Envaidecido, António propôs ajudar Teresinha, compartilhando algumas técnicas orientais diferentes para ajudá-la a recuperar ainda mais depressa a flexibilidade de uma bailarina clássica.

Combinaram nas instalações da Misericórdia uma hora antes da aula de Tai-chi. A aula não surpreendeu Teresinha que era perita em exercícios de flexibilidade e não trouxe grande novidade às técnicas que já conhecia, à parte incorporar formas diferentes de respirar nos exercícios. Mas a António, a aula trouxe novidades. Gostava de um desafio e não sabia perder. Teresinha Villaverde era dona de uma figura admirável, e tinha um controlo incomum sobre cada músculo do seu corpo de bailarina.

Cinco minutos depois de a aula começar, António teve a clara noção de que a sessão seria uma desilusão para Teresinha que aparentemente já fizera cada um dos exercícios que lhe propunha. Mas António não dava ponto sem nó.

No final da aula, e enquanto falavam de como tinha corrido e das diferenças entre estes exercícios e os do ballet clássico, António revela que ainda tem uma última e derradeira carta na manga.

Técnicas orientais que sabe que não pode partilhar com a maioria das pessoas da terra, gente tacanha, sem grandes horizontes e muito presa a conceitos do passado, mas que sente que pode partilhar com Teresinha que é uma rapariga de mente aberta e com grande flexibilidade física e mental.

E então António propõe a Teresinha, sob o abrigo da partilha de conhecimentos orientais exclusivos, e sem qualquer interesse da sua parte, a prática de posições sexuais milagrosas no ganho da flexibilidade.

Ora bem, Maria Teresa Villaverde era cada vez mais uma jovem alternativa e moderna. Mas Maria Teresa Villaverde era bem neta da sua minhota e matriarcal avó Lucinda, de espinha vertebral direita e valores católicos e cristãos mais profundamente enraizados do que supunha.

Na fracção de segundo que se seguiu à proposta de António, Teresa não ouviu nenhum som, até ouvir o estalo que dava de expressão inalterada na cara de António, directamente na sua face esquerda, com a sua mão de bailarina que redescobria inusitadamente agilidade e força.

O segundo que se seguiu ao estalo foi também silencioso. E quando terminou, Teresinha caiu em si, achou pouco inteligente a sua atitude e chegou a temer pela vida, porque António era um homem quase com o dobro do seu tamanho, o dobro da força e conhecimentos marciais letais.

Mas António permaneceu paralizado nesse instante e Teresinha saiu rapidamente pela porta fora.

O que desconheciam ambos até à data é que um estalo bem dado é uma arma indefensável e universal. E que não há defesa possível de um estalo merecido, depois de se fazer algo que se sabia à partida que não se devia ter feito ou devia ter dito.

Porque um estalo bem dado atinge uma pessoa de forma cirurgica nesse ponto vital e secreto que é o ego. um ponto a que nem os maiores mestres orientais conseguem chegar com facilidade, mas a que as donzelas bonitas, indefesas e voluntariosas têm um acesso privilegiado.


(Teresinha já tinha aparecido em Outubro no Personificcionar e decidiu repetir a visita.)

terça-feira, maio 17, 2011

Martina

Martina aprendeu com a vida que não se deixa fugiu amor nenhum. Aprendeu às suas próprias custas que o amor, quando se nega, tarda em voltar. E às vezes tarda mesmo muito.

E por isso quando Martina conheceu Gilberto atirou-se de cabeça, como vinha aprendendo há vários anos.

Martina aprendera à custa dos seus erros e das suas próprias protecções emocionais que nada há que seja pior que o arrependimento e o vazio depois do que poderia ter feito "se" e apenas "se".

E decidira desde há muito que não voltaria a ser assaltada por esses pensamentos.

E Gilberto cozinhou-a como a uma rã. Foi aquecendo a água da panela enquanto ela estava viva lá dentro, para tornar a sua carne mais tenra quando finalmente a consumisse.

Martina foi mudando, cedendo até já não poder mais. Desta vez aprendeu que afinal não se pode dar desmesuradamente, e que a vida é assim, uma madrasta que passa anos a ensinar uma coisa, apenas para depois ensinar o contrário.

E que Gilberto mentia, enganava e manipulava Martina, sob o manto de uma transparência e uma brutalidade infantil e pura.

E que toda a gente tinha pena dela, da forma como se deixava cozinhar, saindo e entrando a panela que não parava de aquecer, cozendo mais um bocadinho de cada vez.

Só que a mulher-rã é uma espécie em vias de extinção. E Martina, ao invés de ficar mais macia, à medida que a panela aquecia, ficava mais dura, mais amarga, mais imprópria para consumo. Até que, envenenada pela própria água em que a escaldavam, saltou para fora.

E no fim saiu da panela.

escaldada.

segunda-feira, maio 16, 2011

Padre Daniel

O temor era algo que o tomava de assalto e que tentatava incutir nas ovelhas do seu rebanho.

O temor a Deus.
O temor aos Santos.
O temor ao Fogo do Inferno.

O Padre Daniel era um homem consciencioso, rigoroso, meticuloso, estóico, disciplinado.

Na sua infância tinha tido um episódio de que mantinha hoje em dia segredo absoluto, fora possuído e exorcizado. Salvo pela luz da salvação eterna e pela água benta da Santa Madre Igreja. E ainda hoje tomava frequentemente banho com água benta para afastar e dissuadir potenciais demónios que de si se quisessem apoderar.

O Padre Daniel era dedicado e respeitado por toda a comunidade, mas todos sabiam que do padre Daniel não se podia esperar misericórdia.

Um dia ouviu Rufino em confissão, um adolescente com um atraso mental, e incutiu-lhe a importância do temor para não mais pecar, como era aliás sua imagem de marca.

Rufino saiu perturbadissimo da Igreja a murmurar coisas que ninguém compreendia.
Dias depois as pessoas que estavam com ele no centro de dia, preocupadas, chamam o padre, pois acham que Rufino deve estar a começar a entrar em transe.

Rufino repete "morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE, morTE" sem parar, dia e noite.

Mas o Padre Daniel não percebe o que é que isso tem a ver com ele. Na confissão repreendeu Rufino pelos seus actos, mas não falou da morte.

Conjectura-se que Rufino possa estar a escalar no caminho para a santidade ou demonização e o sacerdote começa a considerar a necessidade de chamar alguém versado na arte do exorcismo, quando Rufino não consegue parar de se balaçar chamando pela terrível ceifeira, ou anunciando a sua chegada.

Chama-se o médico, o psicólogo, a assistente social, que não lhe conseguem arrancar mais nenhuma palavra.

Rufino está por um fio, entre o internamento, a sedação absoluta e o exorcismo. Nenhum dos processos é agradável.

Na aldeia discute-se que o rapaz deve ser morada aberta, que é caso de arrepiar.

Até que surge, escrito a vermelho na parede da igreja uma aviso com letra de primária que dissuade todos da transcendência do caso e obriga o Padre Daniel a repensar a sua política de ensinar a temer:

"Torem das árvores os galhos.Rotem em torno do temor e a morte estará a um metro. Tremo pelo termo deste caso."

Catarina

Quando era uma principiante na arte do jazz recusaram a sua voz cristalina e surpreendente com base na interpretação. Disseram-lhe com sobranceria que "lhe faltava dor de corno para cantar jazz em condições".

Catarina saiu do clube pior que estragada. No auge dos seus 22 anos era dona de uma técnica vocal perfeita, fruto de anos e anos de estudo, de exercícios incontáveis, de aulas de conservatório, cursos livres dentro e fora do país e sessões de terapia da fala regulares.

Dominava a improvisação e tinha um ouvido fantástico que lhe permitia sempre perceber se e quem estava dentro ou fora de tom. Tinha swing, compreendia o ritmo como se fosse o bater do seu coração que se alterava quando ela outra pessoa dava o tempo. Conhecia os standards quase integralmente.

Tocava piano com mestria e percebia muito de todos os outros instrumentos, porque Catarina praticamente respirava o jazz e assistia a todas as jam sessions, aulas e concertos que podia. A sua própria entoação verbal era sincopada.

E fazia teatro, porque lhe tinham dito que a interpretação era fundamental no jazz.

Cantar no Hot Club era um passo natural nesta evolução fulgurante, digna das maiores honras académicas e prémios musicais.

E por isso, foi com indignação, mais do que com desânimo, que Catarina recebeu do grande especialista do clube a notícia de que o que ela era ainda não chegava para os padrões deles, quando gente "pior que ela" já lá tinha estado.

"Se quisesse ser uma desgraçadinha tinha-me dedicado ao fado", pensava com os seus botões tão zangados como ela.

E voltou à sua vida academicamente perfeita tão frustrada e revoltada com aquela injustiça, a primeira que sentia verdadeiramente queimar-lhe na pele, que começou a tornar-se na interprete e compositora que sempre estivera destinada a ser.

segunda-feira, maio 09, 2011

Elisa

Vai ao ginásio todos os serões. Faz solário. Estica o cabelo preto que pinta de 3 em 3 semanas, religiosamente. A sua roupa é sempre bem escolhida e até as peças com que faz spinning são pensadas cuidadosamente: calções um pouco abaixo do joelho, justos, e top que deixa o ombro à mostra, revelando as alças coloridas do bikini por baixo. E sim, Elisa usa maquilhagem também no ginásio, porque uma pessoa nunca sabe quando é que vai conhecer alguém interessante e mais vale prevenir.

Elisa tem todo o ar de quem está a arrumar as suas coisas calmamente no balneário do ginásio, enquanto faz conversa com todas as mulheres que a rodeiam, comentando a festa do Habana Club para os membros do health club no fim de semana passado. Foi boa, mas o Alfaiate é que é, e não se paga só para entrar, apenas aquilo que se consome. E não se tem filas.

Enquanto comenta as suas opiniões com as colegas que vão dispersando, Elisa verifica as borbulhas, as unhas de gel e o peso na balança disponível. Tenta captar as atenções das pessoas que vai encontrando na sua imagem de verniz, polida ao extremo, mas a cada três frases diz um palavrão e comete outro erro gramatical. E só consegue dizer bem de algo quando é uma rampa de lançamento para criticar qualquer coisa.

Elisa é espampanante, divertida e "um ponto". Aparece em todos os eventos do ginásio e já namorou com alguns dos seus elementos, não porque estivesse especialmente enamorada pelas suas personalidades, mas porque dá muito valor a um corpo bem definido e adora a sensação de entrar num sítio e de ser alvo da inveja de outras mulheres.

Elisa tem um sucesso mediano no seu trabalho, tem 36 anos bem conservados, trabalha com uma disciplina estóica na sua aparência impecável. Sacrifica-se diariamente por um objectivo que não sabe bem o que é, mas que pelo menos vai tacteando. E no entanto, as únicas alturas em que se sente realmente viva e relevante são pouco mais do que estes momentos em que se sente a raínha do ginásio e fala com pessoas que na verdade até nem estão assim tão interessadas naquilo que Elisa tem para dizer.

terça-feira, março 29, 2011

Ernesto

(personagem construída para o Projecto Curta Metragem)

Ernesto chegou a casa mas não estava cansado. Sentou-se à mesa cheia de papéis e livros há uma quantidade de tempo indefinida. Notava-se que tinham sido depositados em cima da mesa em tempos distintos, frutos de ideias geniais repentinas a realizar a breve trecho, com potencialidades explosivas, mas que depois ia deixando no seu mar de "projectos até um dia" poeirentos, ultrapassados e claramente fora de tempo.

A pilha incluía recortes de revistas, livros seus, livros emprestados, livros da biblioteca fora de prazo, cartas pessoais, desenhos, decretos-lei, jornais e mesmo os insuspeitos restos mortais de um pacote de batatas fritas esquecidas no meio da bagunça.

O sofá de Ernesto estava também ele cheio de tralhas que foi acrescentando quando lhe faltou o espaço na mesa ou quando quis libertar a mesma para outros projectos ou mesmo para comer. Por cima de toda a tralha no sofá ficava sempre o casaco de onde por vezes fugiam as chaves que teimavam em se esconder nos labirintos insondáveis da sua tralha depositada no maple.

Sentou-se na cadeira encostada à mesa e serviu-se de um copo de whisky sem gelo e amargou.

Amargou os seus malditos 40 anos, velhos demais para ir para outro sítio, novos demais para se reformarem. o seu sucesso mediocre, alvo da inveja de outros escritores que tiveram de mudar de vida e traidor do potencial extraordinário que identificaram professores e pares toda a vida.

Ernesto trabalhava para a ficção nacional num lugar perfeitamente invejável para a maioria dos escritores e argumentistas portugueses.

Ganhava bem e até tinha contrato.

Arrendava uma casa mais por capricho que por falta de opção.

Tinha namoradas e casos a granel, já que possuía um charme e uma dose de intrepidez e inconsequência que o tornavam irresistível às mulheres.

E no entanto, neste momento da sua vida sentia-se um traidor, um vendido e um falhado, que nunca fez realmente jus ao seu potencial, nunca arriscou. Ernesto nunca iria ganhar um Oscar, um Emmy, um Pullizer ou o Nobel da Literatura, como em tempos sonhara. Nunca chegaria ao topo.

Adiou tanto assentar com alguém que sentia que fazê-lo agora seria quase contariar a sua natureza. Mas amargava nunca se ter entregue a ninguém, nem ter constituído família.

Sabia que não havia nada por que fosse lembrado nas gerações vindouras.

E isto, estes desejos frustrados de plenitude e imortalidade faziam-no amargar nos fins de tarde, agarrado ao seu copo whisky.

segunda-feira, março 14, 2011

Gisela

No princípio, a saudade doia-lhe com uma taquicardia aguda. Uma dor localizada no peito quando lhe faltava ela, quando sentia falta dela nos momentos mais inusitados.

No supermercado quando via uma coisa que lhe costumava comprar, quando lhe falavam de uma saída ou concerto e pensava como ela gostaria de ir, à noite, em casa, quando dormia só, quando conduzia no meio do transito, sem lhe telefonar para matar o tempo com as parvoíces cúmplices que tinham possuído em tempos.

Era como se lhe faltasse uma parte do corpo, por não ter o seu abraço. Deitava-se no sofá e aninhava-se nas costas fofas do móvel como se fora ela, nos piores momentos.

Sentia-se incompleta, amputada numa qualquer parte do corpo onde não era possível criar próteses.

E nenhum dia era pior que o Domingo.

Dava por si a fazer expressões de infelicidade, a sentir nada mais do que tristeza e reparava na delicadeza exacerbada das pessoas que lhe eram queridas que intuíam ou sabiam o que se estava a passar.

No princípio, a sua ausência deixava Gisela de rastos. A saudade fracturava-a de ponta a ponta e deixava-a imóvel, paralizada e cega.

Mas o tempo passou e o comportamento errático de Joana,  ora adesiva ora evasiva, prosseguiu.

Gisela teve momentos de raiva absoluta, mais contra si por permitir que a relação continuasse do que contra Joana que a menosprezava. Sentiu-se pequena, insignificante e perdeu um pouco do respeito que tinha por si mesma.

Zangava-se consigo mesma por sentir a falta dela. Por ceder às suas próprias fraquezas. Por gostar tanto dela que fazia de conta que não via os seus imensos defeitos, o pior dos quais claramente não gostar de Gisela o suficiente, embora a quisesse só para si.

À medida que o tempo foi passando, Gisela começou a interiorizar a dura verdade de que Joana não a amava nem nunca a iria amar, não obstante as suas promessas. Lentamente foi-se afundando nela a certeza de que era essa mesma miragem de amor e tranquilidade, de segurança e conforto, que a fazia ultrapassar os hábitos irritantes de Joana, ignorar as suas manias, o seu egoísmo e a sua arrogância absurdas, própria dos ignorantes a quem a vida ainda não marcou nem ensinou grande coisa.

Perguntava-se quanto tempo levaria a deixá-la definitivamente, já que já tinha terminado a sua relação mais vezes do que conseguia contar. De cada vez que reatavam sentia-se mais longe daquilo queria, menos feliz. Mas não resistia. E percebia que quando finalmente o fizesse teria de evitar Joana a todo o custo, que não podia estar mais com ela, porque Joana não era boa para Gisela e, não obstante, Gisela era absolutamente incapaz de lhe resistir.

quarta-feira, março 02, 2011

A casa

A casa gritava por ela, em cada canto, em cada estante, nos bibelots das mesas, nas fotografias por toda a parte, nos livros abundantes e nas plantas que ela escolhera.

A casa estava em silêncio.

A casa gritava por ela e o grito tinha o som branco do ar condicionado. Omnipresente, intolerável, insuportável.

A casa sentia a falta dela como se fosse órfã. Como se lhe tivessem arrancado um membro. Como se tivesse perdido o sentido.

A casa parecia catatónica.

E a casa chorava - ostensivamente, nada menos.

Eles tentaram fazer com que a casa sossegasse; mudaram as divisões dela, transformaram os espaços que eram só dela, eliminaram as coisas que apenas ela usava e que a faziam mover, os projectos dela. O escritório, a cama, o canto das especiarias na cozinha.

Mas a casa não se deixava enganar.

E chamava por ela continuamente, como a cria abandonada de um animal selvagem.

Quase – quase – que era possível sentir o cheiro dela, ouvir o tilintar dos brincos dela, sentir o toque mão dela a ajeitar uma almofada, porque a casa lutava com todas as suas forças para que a presença dela não fosse apagada.

Porque ela estava no DNA da casa, indelével, intrínseca, sanguínea.

As paredes da casa eram dela, os quadros nas paredes transpareciam a essência dela, a disposição dos móveis fora estudada por ela e escolhida até à perfeição, os tapetes comprados por ela e o candeeiro da sala a ela oferecido.

A casa era deles e era dela. Era muito dela.

E eles tinham de viver na casa, os dois, sem que esta lhes desse um momento de sossego na lembrança de que ela existira, de que ela era ela, insubstituível, e que ela já não vivia entre eles, que ela tinha morrido.

E que nunca mais voltaria à casa.