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quinta-feira, agosto 09, 2012

Cala-te, Márcia #2

(guião)

Joana e Márcia estão na cozinha. A casa é claramente rica e bem situada, um apartamento na Foz. Ouve-se o mar ao fundo. E levemente o ruído de um jogo de futebol noutra divisão.

A cozinha é grande e acolhedora.

Joana e Márcia conversam enquanto tomam um chá e comem biscoitos que talvez tenham sido feitos à mão, talvez tenham sido feitos por uma das duas, talvez tenham sido comprados. Têm bom aspeto: se foram elas que fizeram, fazem muito bem; se compraram, foram caros.

A loiça não é particularmente rococó. É Vista Alegre que se usa no dia a dia ou as chávenas boas que a avó deixou a Márcia.

Usam coisas boas e em pouca quantidade, com displicência natural de quem vive muito bem há muito tempo.

Márcia tem uma nódoa negra no braço que está mais ou menos tapada pela blusa.


Joana: Mas isto já aconteceu antes?

Márcia: Não. Achas? Isto foi uma coisa completamente extemporânea. Ele não sabe a força que tem.

J: Espera. Mas... como é que isso aconteceu?

M: Então, foi para eu não cair. Ele agarrou-me o braço e fez força a mais. Sabes que ele fica tolo quando imagina sequer que algo de mal me pode acontecer.

(pausa. Maria está incrédula, mas não quer confrontar nem intimidar a amiga)

M: Vá. Eu sei o que é que estás a pensar. Mas não é nada disso, não é nada disso mesmo. O Rui gosta mesmo muito de mim, fica completamente perdido quando nos zangamos, não tens noção. E tu sabes que ele teve uma vida lixada antes de me conhecer. Pronto. E quando pensa que me pode perder, fica um bocado descontrolado. Mas está tudo bem. (Márcia sorri, apaziguando a amiga)

(Joana continua sem saber o que dizer)

M: Queres mais chá?

J: Sim, se faz favor. O que é que estás a pôr nisso? Não queres ficar com uma marca aí...

M: Umas pomadas que tinha por aqui. Sabes que eu sou uma desastrada e ando sempre a fazer negras.  Daqui a uns dias isto já está bom, nem se nota nada.

J: eu sei que ele é teu marido, mas estas coisas deixam-me preocupada...

Márcia não gosta da afirmação/insinuação e reage de forma muito levemente agressiva, mas sem cruzar o limite da confrontação aberta

M: Estas coisas? Mas que coisas?

J: Pronto, não te zangues.

M: Eu não estou zangada, Joaninha. Não estou é a perceber o que é que queres dizer com "estas coisas deixam-me preocupada". Até parece que há "coisas" para te preocupares. Não gosto desse tipo de comentários. Eu e o Rui somos um casal super feliz e damo-nos super bem. Temos as nossas coisas como todos os casais, mas ele nunca me faltou ao respeito. E tu sabes que ele faz tudo por mim. Está sempre preocupado se me falta alguma coisa, ajudou-me quando eu estava muito deprimida no trabalho e até foi ele que me disse que eu não precisava de trabalhar. O Rui pode ter muitos defeitos mas ninguém pode dizer que ele não me ama. E isso é o mais importante, ou não?

J: sim, claro... Não te queria ofender, Márcia, de todo. Eu só quero é que tu estejas bem, ok?

Márcia tira um biscoito e sentindo que recuperou o controlo da situação, continua

M: És uma querida. Mas eu estou bem, sim. Tu sabes que eu amo o Rui mais que tudo na vida. E ele faz-me feliz. Tem aquele feitiozinho dele, mas ama-me muito e cuida muito de mim.

J: A verdade é que ele não pode ver outro homem a olhar para ti.

Márcia sorri cumplicemente e diz vitoriosa e inchada de orgulho:

M: Fica louco. Tem logo que vir por o braço à minha volta, marcar território. Ele acha que todos os homens querem ficar comigo. E Deus me livre se me vê a conversar com alguém, acha logo que o fulano vai ficar obcecado, que me vai perseguir. Imagina tu que no último jantar do Lions a que fomos eu tive de mudar de vestido mesmo antes de sair. Fez uma cena porque achou que o vestido era muito decotado, que os outros iam ficar todos a olhar para mim, que - imagina tu - "o que é dele" ("o que é dele", vê lá tu que querido!) "o que é dele não é para os outros verem", que eu sou só dele. E fez finca pé, lá tive de ir trocar de vestido. Aquele homem quando mete uma coisa na cabeça é assim, tem que ser e tem que ser mesmo.

J: de que signo é que ele é?

M: Touro. Não se nota? Teimoso, ciumento e possessivo. parece que lhe vão tirar o chão quando acha que pode ficar sem mim.

J: Mas ele acha mesmo que te pode perder assim?

M: tens de compreender: o Rui vem de uma família em que os pais discutiam muito. Levou muita porrada quando era miúdo, sem razão nenhuma. Não contes a ninguém, mas o pai tinha muitas amantes e discutia muito com a mãe, batia-lhe e coisas afins. E a mãe metia-se nos copos. Ele era o filho mais velho e depois a irmã morreu naquele acidente esquisito. Olha, eu nem sei como é que ele saiu tão bem da situação. Ele subiu a pulso, sabes Joana. conseguiu bolsas de estudo e depois de ter sido retirado à família começou a trabalhar porque o sonho dele era ser médico. Ele não teve uma vida boa como nós. E mesmo assim, conseguiu chegar onde está. É um grande homem.

J: está bem, mas ele também devia saber a mulher que tem. Tu não és propriamente uma Lucrécia Bórgia. Eu já nem me lembro de te ver falar com outro homem.

M: Oh, sabes como é que é. Quando cresces num ambiente assim, tens sempre dúvidas sobre o que é que é e o que é que não é. Duvidas muito mais das coisas que tens e das relações que constróis. Nunca tens a certeza do amor da outra pessoa, tens sempre de estar a validar essa ideia.

J: Olha que mesmo não exercendo, as cadeiras de psicologia não te esqueceram.

M: eu tenho lido muito sobre isto, sabes? O Rui precisa muito de ajuda e eu acho que ele está muito melhor agora. Já não faz as cenas de ciumes que fazia. Isto é quase uma vergonha, mas vou-te contar que houve uma altura em que ele me ia ver  telemóvel e o email. e o facebook. enfim. foi por isso que acabei com o facebook: ele ficava tão inseguro e alterado quando eu  tinha amigos homens - Joana eram só conhecidos, só pessoas dos meus voluntariados e projetos de caridade - que eu decidi acabar com o facebook. Também não preciso daquilo para nada. É só para a cuscuvilhice e eu estou muito bem aqui no meu cantinho.

J: está bem. Mas podias aparecer mais, que nós não te temos visto e temos sentido a tua falta. Já nem vais à quintas-feiras aos chás a Seralves...

M: tenho andado na minha vida, sabes? Tenho andado a fazer as minhas coisas, metida nos meus projetos. O Rui também não achava grande piada quando eu ia aos chás, achava que eu vinha diferente e discutiamos mais vezes. Desde que eu deixei de ir as coisas andam mais calmas. Como uma lua mel. E nós os dois quando estamos só os dois entendemo-nos muito bem.

J: Ele passa muito tempo em casa?

M: Oh nem por isso, sabes que com o trabalho no hospital e na clínica e mais as reuniões do partido ele anda sempre de um lado para o outro. O Rui é uma pessoa muito cheia de vida, com muitos amigos e como trabalha para nós os dois também trabalha a dobrar - não quer que me falte nada... Eu já lhe disse um par de vezes que as coisas me fazem menos falta que ele, mas ele é assim, não consegue imaginar que me possa faltar alguma coisa.

J: Então o que é que tens feito?

M: Vou tratando da casa, vou ao ginásio e faço voluntariado. E leio muito. É isso. Quando o Rui tem um tempinho vamos namorar e fazer o que ele quiser.

J: Márcia, já viste que te tornaste uma dondoca e que o Rui conseguiu eliminar quase tudo o resto da tua vida? Que quase nem sequer tens amigos teus e já não te dás com mais ninguém?

(Márcia exalta-se e levanta a voz)

M: Não te admito isso, Joana. Não te admito mesmo.

(ouve-se a televisão na outra sala, onde está a dar futebol subir de volume também)

M: Não tens o direito de vir a minha casa e dizer essas coisas, insultar-me dessa maneira.

(A exaltação aumenta e também o volume da televisão)

M: Como é que tu te atreves a acusar o meu marido de uma coisa dessas?

Rui, da sala, grita um comando autoritário:

"Cala-te!"

Márcia reage como se lhe tivessem levantado a mão, suspendendo a respiração imediatamente, parecendo assustada.



domingo, julho 01, 2012

Márcia, shhhhh

À noite, o som das ondas a bater continua e impiedosamente nas rochas pode ser tão calmante como assustador.

É o som da inevitabilidade da vida, é o som daquilo que não podemos controlar e que é mais poderoso que nós.

A onda bate com força na rocha ou na costa e depois faz "shhhhhhh", como se pedisse desculpa ou silêncio.

Quando o mar não está agitado, quase só se ouve o "shhhhh" ritmado das ondas a recuar, progredindo na praia, se a maré estiver a encher, ou caminhando de volta para o mar alto quando a maré decresce, dançando para cá e para lá no planeta uma salsa devagar.

Pedindo silêncio à costa que erode lentamente em cada pancada de água, com que a seguir a acaricia e lhe pede perdão.

e silêncio.

Shhhhhhh.

A Márcia, de nada adiantava viver no último andar do prédio da linha costeira, com vista para o mar, com mais assoalhadas do que precisava, piano de cauda e empregada interna.

De nada servia ser a esposa modelo, e ir todos os dias ao ginásio. fazer voluntariado e cursos de arranjos florais em Serralves às quintas feiras de tarde. De nada serviam as surpresas que comprava ao marido com o cartão de crédito dele. De nada servia o curso superior em Filosofia e o bom gosto. Participar em chás de caridade no Sheraton da Boavista. Ser bem relacionada.

"O mar enrola na areia / Ninguém sabe o que ele diz / Bate na areia e desmaia / Porque se sente feliz"

E como o mar pode ser temperamental, também o marido de Márcia era imprevisível. A sua vingança contra os atos invisíveis, que ele concebia, imaginava ou inventava que Márcia tinha perpetrado, era cruel, calculada e mesquinha.

Não a marcava nunca.

E pedia-lhe desculpa muitas vezes. Outras vezes, já sabia que ela perdoava mesmo sem ele pedir, porque ela própria inventava justificações para o seu comportamento vil: o trabalho, o stress, o amor demais que sentia por ela e que o cegava e fazia perder a razão e o controlo.

A violência que o Dr. Rui exercia sobre Márcia era tão refinada como a própria Márcia e levara anos a atingir os níveis de perfeição com que a executava. Começara com pequenos reparos às suas ações e aparência, "para bem dela"; passou a críticas e escrutínios rigorosos acerca de todos os seus comportamentos e opções. Em vagas sistemáticas e ritmadas.

E uma vez que a auto-estima dela estava completamente dependente da aprovação do marido, o Dr. Rui assumiu o controlo total.

Como se ela se tivesse tornado no seu projeto privado, o seu bonsai de estimação, que ele modelaria a seu gosto. Cortando fora as partes que não interessavam.

Com o tempo, Márcia foi-se tornando mais e mais maleável, até fazer tudo o que ele queria.

Mas nessa altura já não chegava. Porque Rui tinha-se habituado a mandar e a fazer Márcia sacrificar-se. O seu "melhoramento" já não era o propósito das chantagens, manipulações e humilhações: era o meio com que alimentava o seu ego e a sua relação.

Modelava-a da mesma forma que o mar modela a costa, que conquista e engole se não se colocam paredões nas praias.

Fazendo o mesmo que o mar com as suas ondas. Batendo e pedindo silêncio de seguida. Magoando e pedindo perdão, no ritmo cíclico e intervalado das vagas.

Erodindo-a e invadindo-a progressivamente, de todas as vezes em que ela assumia a inevitabilidade dos factos e aceitava ficar calada.





O Mar Enrola Na Areia


O mar enrola na areia
ninguém sabe o que ele diz
bate na areia e desmaia
porque se sente feliz

até o mar é casado - ai!
até o mar também tem mulher
é casado com areia - ai!
bate nela quando quer

até o mar é casado - ai!
até o mar tem filhinhos
e casado com areia - ai!
e seus filhos são os peixinhos

ó mar tu és um leão - ai!
a todos queres comer
não sei como os homens podem - ai!
as tuas ondas vencer

ó mar que te não derretes - ai!
  navios que te não partes
ó mar que não cumpriste - ai!
  o que comigo trataste

ouvi cantar a sereia - ai!
no meio daquele mar
tantos navios se perdem - ai!
ao som daquele cantar

até o peixe do mar- ai! 
depenica na baleia
nunca vi homem solteiro - ai! 
procurar a mulher feia

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Cala-te

“Cala-te. Fecha-me essa matraca. Está calada. Olha as pessoas, não vês que estás a incomodar as pessoas?”

Rodrigo trespassou todas as tentativas de início de comunicação de Mafalda. A cada inspiração de ar para falar, agarrou-lhe a intenção e amachucou-a com determinação e intransigência.

Mafalda calou-se e baixou os olhos, murmurando um pedido de desculpas.

Desculpou-se e não sabia onde se meter, o que fazer às mãos, às pernas, para onde olhar, o que fazer. Como se fosse toda ela desadequada, como se toda ela estivesse fora de sítio, fora de água.

Decidiu ficar imóvel na esperança que não voltassem a reparar nela, mas acabou por ficar no meio do caminho de Rodrigo outra vez, na sua tentativa de ser invisível.

“Sai da frente, Mafalda, sempre a empeçar, sempre no meio do caminho das outras pessoas, sempre a estorvar, mulher. Sai, sai!”

Quis sair e entornou a jarra que estava no móvel. Não partiu nada mas molhou tudo.

“Sinceramente, Mafalda. Não consegues estar quietinha, não? Francamente, que belo trambolho me saíste. Sai daí, sai. Ó Marta, chega-me aqui um pano que a Mafalda entornou a jarra da entrada.”

Engoliu em seco, já sem saber como estar mais embaraçada, só à procura de algum sítio onde se refugiar. Queria sair dali, mas não tinha como. Não podia esquivar-se para que não achassem que se escusava a limpar o que tinha sujado, não queria mexer em mais nada para não fazer mais asneiras.

Pegou no pano que Marta trouxe, dizendo que não fazia mal nenhum, que não se preocupassem.

Rodrigo tirou-lho da mão, bruscamente, como se ela fosse inepta até para secar a água do móvel, do chão, dos bibelots.

“Está quieta, mas é, não achas que já fizeste o suficiente?”

Mafalda baixou novamente os olhos, sentindo-se como se tivesse pouco mais de 10 anos, repreendida e humilhada pelo namorado.

Acabaram de limpar tudo sem ela, que era única pessoa dos quatro que não segurava em nada, que não fazia coisa nenhuma, tornando-se por isso estranhamente visível, por ser a única que não estava em movimento, a única que estava ao alto.

Sorriu um sorriso muito amarelo e foi à casa de banho para se aliviar mentalmente, estar um pouco sozinha, não ter qualquer possibilidade de incomodar ninguém. Quis chorar, mas achou que ia borratar a maquilhagem e ainda dava mais azo a que o namorado se zangasse com ela.

Quando regressou, Rodrigo estava pronto para ir embora.

Disse por ela que Mafalda não queria café, “pois não, Mafa?”

Ela queria. Queria mesmo muito. Mas ficou calada e anuiu.

Despediram-se das pessoas e ele levou-a pelo braço, como quem leva uma criança
pouco competente ou um cão.

Entraram no elevador, deixaram que a porta se fechasse e ele encostou-a à parede de trás do elevador com força, segurando-lhe nos ombros.

Perguntou-lhe duramente se ia ser sempre assim, se não a podia levar a lado nenhum.
Se ela o ia envergonhar sempre, se não se sabia comportar.

Disse-lhe que ela era uma vergonha e encostou o joelho dele no meio das pernas dela.

O elevador abriu, ele soltou-a e entraram no carro onde ele a tratou com renovado desprezo e renovada punição.

Não falou com ela, não olhou para ela e manteve o carro em silêncio sem música o tempo todo.

O caminho opressivo demorou-se. Mafalda sentia que queria fazer xixi e que mal se aguentava sem molhar as cuecas, do nervoso miudinho que aquela situação lhe impunha. Opressiva. Claustrofóbica. Minimizante. Anóxica.

Chegaram e ela saiu sozinha do carro.

Ele não olhou para Mafalda e ela seguiu-o na garagem acelerando o passo para não ficar para trás.

Pediu-lhe desculpa muitas vezes e quis arranjar justificações.

Ele respondeu algum tempo depois, com novo e muito frio “cala-te”.

Abriu a porta do apartamento à frente dela. Ela entrou a medo. Não sabia se devia ficar ou se ele quereria ficar sozinho.

Despiu o casaco e pendurou-o.

Ele perguntou-lhe o que é que ela estava a fazer. Se ele lhe tinha dito que ela podia ficar ali com ele.

Mafalda corou e pregou o olhar no chão.

“Vem aqui.”

Mafalda foi, na atitude submissa e sem jeito dos cães depois de fazerem algo que sabem que é uma asneira.

Rodrigo sentou-a no sofá, pegou-lhe na mão com gentileza e, com suavidade perguntou, afirmando:

“Esta não foi uma boa noite pois não?”

Mafalda abanou a cabeça, concordando.

Rodrigo bateu-lhe na cara e beijou-a.

“Gostas disto, não gostas?”

Mafalda acenou com a cabeça, corando e ficando ainda mais húmida.

Rodrigo apertou-lhe o pescoço com força, sufocando-a, e levou-a para o quarto onde deu azo a todo o amor e toda a requintada violência que tinha para com ela. Deixando-a marcada nos lugares mais insuspeitos e fazendo-a gritar de dor e prazer toda a noite. Que preparara habilmente num longo serão de humilhações preliminares.