sábado, maio 11, 2013

Estrela (2)

Chamaram-lhe Estrela sem outro motivo que a sua raça ser Serra da Estrela.

Estrela era um cachorrinho bonito e ainda muito pequeno quando foi roubada a uma mãe com a resignação triste de quem já pariu muitas ninhadas para humanos que colecionam "raças puras".

O dono queria-a para cão de guarda da Quinta que tinha na "província". O Dr. Rui, um médico cirurgião ("operador", como lhe chamavam os locais) do Porto era dono da Quinta da Igreja, entre a Quinta dos Sousas e da Quinta do Moínho.

Estrela foi escolhida com gosto pela esposa do Dr. Rui e deixada aos cuidados do caseiro, um homem simples que lhes tratava da casa, da horta e dos pomares e que agora ficava também encarregue de cuidar da Estrela.

Como sucede com frequência às gentes simples de vidas muito ásperas, o sentido de poesia e o lado franciscano do caseiro não era especialmente forte, e a perspetiva de ter na propriedade um animal que não produzia riqueza nem alimento, parecia-lhe uma chinesice, apesar de compreender o conceito de cão de guarda.

Assim, Estrela - que entendia o caseiro tinha de ser um cão feroz para assustar os potenciais intrusos - nunca foi uma cadela acarinhada nem mimada em cachorra. Era mantida numa jaula durante o dia, solta à noite e alimentada com as sobras de todas as sobras (as escolhas dos restos dos humanos, filtradas pelas necessidades de outros animais que dessem leite, ovos, ou carne). E era açorreada com frequência, para lhe manter o rosnar fresco.

Ao fim de um ano, Estrela era o cão mais conhecido da população, chamada o "Cão da Igreja" e conhecida por ser um cão mau, feroz e incerto. Ninguém se atrevia a chegar perto da cadela, mesmo para lhe dar de comer.

A sua fama era tal, que o "Cão da Igreja" era usado para assustar as crianças, induzindo-as a portarem-se bem ou a comerem a sopa.

Aos olhos do caseiro, a cadela cumpria a sua função, e a Quinta da Igreja era a propriedade mais bem guardada de toda a região. Nada mais se podia pedir dela, nem dele.

Mas quase um ano após comprar a cadela, quando o Dr. Rui foi à terra ver a quinta e trazer fruta e carne "caseira", a opinião do patrão foi diferente.

Desolado ao ver a cadela que tinha escolhido com brio, infeliz e escanzelada, transformada num mito urbano e geradora de várias lendas sobre o seu mau feitio e força, o Dr. Rui decidiu que a pobre bicha merecia outros donos.

Pensou arduamente nos seus conhecidos, fazendo contas de cabeça à qualidade humana mas também moleza de coração dos vizinhos. Cogitou durante os dois dias em que esteve na herdade como iria formular o pedido e ganhou coragem antes de ligar para o vizinho da Quinta do Moínho, um homem conhecido pela sua bondade e paciência, casado com a professora primária da terra e pai de uma bebé de um ano.

Joaquim recebeu a chamada do Dr. Rui por quem tinha grande estima com surpresa e reservas. O Dr. Rui teve o cuidado de tratar a cadela pelo seu nome verdadeiro, pedindo-lhe se ele poderia ficar com a sua cadela "Estrela" que estava vacinada e saudável, porém muito carente - mas Joaquim percebeu que o amigo lhe falava mansamente do "Cão da Igreja", a pior e mais ruim fera das redondezas. Lembrou-o que tinha uma filha pequena, que não podia arriscar-se com um cão mau e recusou-se.

Mas Rui tinha tanto de inteligente como de casmurro, e tanto lhe apelou ao sentimento, tanto o convenceu de que a ruindade não era genética e que são os donos que fazem os cães, que ao fim de duas ou três chamadas, Joaquim lá aceitou, para gáudio e gratidão do Dr. Rui.

Estrela foi para a nova casa com o açaime posto, furiosa com uma troca que não compreendia.

E Joaquim, que fazia jus à sua boa fama, recebeu-a com o afeto e autoridade. Arranjou forma de a cadela poder andar à volta da casa, através de um sistema que engendrara em que a cadela ficava presa com uma trela ligada a um arame que dava a volta à cerca, permitindo ao animal ver a rua e andar bastante, sem nunca perigar a vida e o bem estar de habitantes e visitantes da casa.

Invariavelmente, a cadela era reconhecida como o "Cão da Igreja", causando pânico aos transeuntes e visitantes apesar da trela e do tempo decorrido. E apesar destes elementos, e de efetivamente já não ser o "Cão da Igreja" (quando muito, o "Cão do Moínho", porque era o nome da sua nova quinta) o certo é que Estrela continuava a não ser muito de fiar; não fazia mal aos de casa, mas ninguém se arriscava a deixá-la chegar aos restantes.

Um dia, Joaquim que gostava da cadela e a tratava com a esperança de quem cuida de um pássaro com a asa ferida, decidiu levá-la a passear para uma das suas eiras, para a cadela mudar de ares e caminhar um bocadinho. Levava-a pela trela, não fosse o diabo tecê-las - mas o diabo teceu-as e a cadela soltou-se dele com um puxão, desaparecendo da sua vista.

Resignado e convencido que a cadela teria voltado para a Quinta da Igreja, Joaquim procurou a cadela sem sucesso, voltando a casa resignado e com uma enorme sensação de derrota.

Quando chegou, a cadela esperava pelos donos deitada na relva à frente do portão, ofegante e feliz.

Depois desse dia, nunca mais se prendeu a Estrela.

Com o acesso às pessoas facilitado e bem vindo, Estrela pode demonstrar toda a doçura que lhe haviam reprimido nos primeiros tempos de vida. Era um cão manso e dócil de uma dedicação inabalável aos donos - sobretudo ao dono.

Estrela gostava de acompanhar a dona até à escola, indo à sua frente, qual estrela-guia. Para as crianças da escola, Estrela era uma extensão da professora, que sabiam que estava a chegar quando viam a cadela. E Estrela gostava de ficar na sala de aula, ao lado da secretária da professora a ouvir as aulas e a ver as crianças. Os alunos esqueciam-se que ela estava por ali e tropeçavam nela, pisavam-lhe a cauda, iam contra ela. E Estrela, outrora o "Cão da Igreja", limitava-se a levantar a cabeça e a voltar a pousá-la, na atitude pachorrenta dos cães muito habituados a gente boa.

Estrela vivia feliz e mimada pelos donos e os filhos dos donos que a tinham quase como se fosse uma irmã peluda e muito amada. Levavam-na para todo o lado e Estrela seguia-os, como uma alma que viveu um inferno e reconhecia com gratidão quem a tinha salvado.

De uma forma que os seus donos não poderiam perceber, Estrela compreendia que esta era uma segunda oportunidade, reconhecia os seus erros num passado mais profundo, e agradecia com amor incondicional cada bocadinho de carinho e atenção.

E num dia de festa, com direito a foguetes, Estrela já muito velhinha e debilitada morreu como se apagam as estrelas, afogada no tanque que ficava por baixo da mina onde se escondia quando tinha medo de alguma coisa - como trovoadas... ou foguetes.

E nesta repetição de destinos, com sofrimentos sarados, Estrela cumpriu e pagou o seu karma, para poder reencarnar depois, numa vida com um princípio melhor.


quarta-feira, maio 01, 2013

Mateus


( participação de Mateus Carneiro Martins no concurso do mês de março da página de facebook do Personificcionar)

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Eugénio de Andrade in «O sal da língua precedido de trinta poemas»
 
 
"Uma sombra é o resultado de a luz não conseguir chegar onde pretende." - traduziu Mateus da entrada da wikipedia.
"A Wikipedia sabe lá "o que a luz pretende"!" - respondeu ela muito depressa. "Se calhar a luz pretende desenhar no chão o nosso guarda-sol." 

Sorriu.

Sorriram.

De facto. Sabe-se lá o que "a luz quer".

Porque no fundo a sombra não deixa de ser o fruto visível da relação entre a luz  - que não se pode tocar - e um objeto tactil qualquer.

A sombra depende da intensidade da luz. da cor da luz. do ângulo da luz. Mas também depende da forma do objeto. Do material que o compõe (se é translúcido ou não, por exemplo). da posição em que ele se encontra.

Esta relação luz-objeto pode ser desejada e até planeada, como quando escolhemos o sítio onde pomos o guarda-sol - ou pode ser desagradável, como quando se atravessa uma sombra no nosso livro.

As sombras podem ser enganadoras, como quando os galhos de uma árvore parecem garras e podem ser os monstros que assustam as crianças. Podem ser reconfortantes, como a sombra  da aba do chapéu sobre os olhos.
 
A sombra da fotografia de Madrid era intencional, por exemplo, como se estivessem a fazer sombras chinesas, a contar uma história.
 
Um candeeiro de rua, bonito e alto, desenhava-se no chão como se tivesse quatro braços, que se movimentavam de formas diferentes.
 
Como se a mesma fonte de luz tivesse dois pares de braços. Quem sabe para dar abraços melhores, fazer as coisas mais depressa ou dançar mais graciosamente.
 
A figura que a luz desenhava no chão, o contorno de todos os corpos que a luz abraçava, unia-os na mesma massa, juntando os seus dois corpos no mesmo desenho onde podiam identificar pedaços de si, mas que ao mesmo tempo era bem mais alto que ambos os namorados.
 
O resultado da brincadeira que tinham feito era no fundo uma boa metáfora para a relação de ambos: duas metades da mesma alma luminosa, encontradas, dispostas a juntar todas as suas forças no mesmo corpo, na mesma vida.
 
E se uma sombra pode não ser mais que a impressão de um instante, uma coisa que até pode ser enganadora, o facto é que também apenas na presença de muita luz se fazem sombras fortes e bem desenhadas. E se tentamos por muitos meios eliminar muitas das sombras das nossas vidas com claraboias e candeeiros (e que mais é a noite se não o período de sombra que nos impõe o movimento da terra), a verdade é também que na presença de muita luz, a sombra de uma árvore, de uma cortina, de uma aba é fundamental.
 
Na presença de muita luz, uma sombra pode chegar mesmo a ser a diferença entre a vida e a morte, entre ter visão e ficar cegado, mesmo que momentaneamente.
 
E olhando para esta foto em especial, onde uma sombra une duas pessoas que passam a fazer parte de um candeeiro que ilumina a escuridão, Mateus pensava como as "almas gémeas" podem ser a mesma alma que se divide em diferentes corpos. Pensava na entrada da Wikipedia que dizia que a sombra é a ausência de luz. Sorria com o disparate e dizia à sua amada com doçura ao ouvido:
 
"a tua sombra é um lugar luminoso"
 
É, a sombra da fotografia de Madrid era intencional, como se estivessem a fazer sombras chinesas, a contar uma história.

E contavam.


quinta-feira, abril 11, 2013

Alice

( participação de Joana Vilaverde no concurso do mês de março da página de facebook do Personificcionar)

Respondia às mensagens de aniversário como quem come aos bocadinhos um chocolate muito bom e muito caro. Guardava os emails, mensagens de facebook, mensagens e o que mais pudesse, para mais tarde. Que as coisas boas consumidas todas no mesmo dia enjoam e às tantas já nem lhes sentimos o sabor, só as queremos despachar.

E uma boa conversa, uma boa palavra, era algo que Alice se recusava a despachar, por lhe parecer o pior dos desperdícios.

Então, respondia-lhes com calma e doçura, devagar, a conta gotas nos dias maus, em que tinha mais saudades das pessoas que não via com tanta frequência como gostaria. em que precisava de um abraço.

era um ritual lento e prazeiroso, de luas. Podia estar a responder a mensagens o ano inteiro, porque quem dá coisas boas, recebe coisas boas e era fácil obter respostas que começavam conversas, deixando ainda por responder, guardadas como se estivessem fechadas na embalagem, as mensagens restantes.

porque as pessoas esquecer-se-ão de quão depressa se fizeram as coisas, mas lembrar-se-ão de quão bem feitas foram.

Alice acreditava pouco em convenções sociais. A sua mente estava permanentemente "fora da caixa", como se vivesse sempre do lado de lá do espelho, e conseguia transformar qualquer sítio onde estivesse numa festa, num sofá com lareira à frente. num fim de tarde na praia.

E através dos seus olhos os outros viam-se mais bonitos, mais bondosos, melhores na sua condição humana.

Alice era perita neste jogo que podemos chamar de ilusionismo humano, mas que na verdade podia ser simplesmente a descrição de Thoreau daquilo que é a arte: não importa para onde se olha, o que importa é o que se vê.

E na arte da fotografia humana, Alice via o positivo.

e mostrava-o.

Porque a sua maior qualidade não residia na arte definida por Thoreau, mas por Degas: a arte não é o que se vê, a arte é o que se faz os outros verem.

E Alice conseguia quase sempre fazê-los verem-se pelos seus olhos: numa festa, num sofá confortável. num fim de dia na praia. Bonitos, bondosos, inteligentes e justos - como ela os via.

Do outro lado do espelho.

Porque um espelho tem tantos lados quantos os olhos que o vêem.


quarta-feira, abril 03, 2013

Estrela


( participação de Sophie Lucha no concurso do mês de março da página de facebook do Personificcionar)

Estrela era uma mulher bonita e tinha bom gosto. Era alegre e bem disposta. Amada por todos os que a rodeavam, era mãe de duas crianças pequenas e bonitas. Tinha uma casa bonita no meio do campo e um trabalho bom com horários flexíveis. Tinha uma família bonita e carinhosa.

Estrela era conhecida por sorrir sempre, por ter sempre uma boa palavra para quem se cruzava com ela.

E tinha sempre paciência. E parecia ter tudo mais que uma pessoa possa querer na vida.

Um dia encontraram o carro dela com uma carta despedida dentro.

As estrelas - sóis - são corpos celestes, não são da terra. E Estrela, que sentia que tinha de iluminar as vidas dos outros, não permitia que a vissem com menos luz. Escondia o negrume dentro de si. Guardava-o tão bem guardado no centro secreto de si que começou a colapsar de dentro para fora, como se tivesse dentro de si um buraco negro.

Quando percebeu o que lhe acontecera, Estrela achou que se poderia estar a tornar ela mesma num buraco negro e temeu em breve começar  não só a desintegrar-se, mas também a atrair para si toda a matéria circundante que assim se colapsaria também. O seu negrume mentiu-lhe que corria o risco de ser a destruição dos colegas, dos amigos, da família. Dos filhos.

E achou que o negrume que a devorava secretamente poderia em breve começar a devorar os outros, a começar pelos que lhe eram próximos e queridos. e este pensamento era-lhe insuportável.

Não lhe ocorreu que as estrelas não são sem arestas, que brilham apesar do impacto de outros corpos celestes. Esqueceu-se que o seu brilho iluminava e aquecia a vida dos outros, mas que não era o único, que havia outras estrelas na mesma constelação e que o seu negrume era apenas seu, e que os outros à sua volta eram também corpos celestes (cometas, planetas e outros astros). e que também tinham força para a ajudar. que podia ser vulnerável e ter escuridão.

Perante a perspetiva aterradora de poder prejudicar as pessoas que tanto amava com o negrume que não suportava mostrar nem partilhar, e sobre o qual não sentia qualquer controlo, Estrela decidiu apagar o seu fogo nas águas do rio grande que atravessava todos os dias.

Como-se ao se apagar nas águas do rio, pudesse impedir o negrume de se alastrar.

E num dia triste de chuva, despediu-se da vida terrestre atirando-se de uma ponte alta para as águas fundas e conturbadas daquele rio. E o céu ganhou uma estrelinha nova que se vê ao longe, e que ao contrário dos seus receios mais íntimos, inconfessados, nunca estivera destinada a ser um buraco negro mas cujo brilho e calor se sentiriam para sempre.



sexta-feira, março 29, 2013

Julião

Julião era uma pessoa de mal consigo mesma.

Artista plástico, desde cedo demonstrara grande domínio das mais diversas técnicas expressivas e desde sempre ouvira fartos elogios ao seu trabalho, ao seu potencial e como eram esperadas de si coisas grandiosas.

Munido desta confiança que tinha algo de muito excecional para oferecer ao mundo, Julião estudou nas melhores academias de arte dentro e fora do país e investiu todo o tempo e todo o dinheiro ao seu alcance para ser o melhor possível.

E não se saía mal; era um aluno sempre no top três das turmas que frequentava. E assim, o artista confirmava a cada dia que passava que era muito bom e que tinha potencial para fazer coisas muito boas, quiçá para revolucionar o mundo da arte por inteiro.

Mas à medida que aumentava o nível de conhecimentos, aumentava também a expectativa que o jovem tinha sobre si mesmo, o quão exigente era para consigo próprio. E paralelamente, também o quanto se gabava.

Ao mesmo tempo que estes dois fenómenos aumentavam - a expectativa esmagadora de si sobre si mesmo e a forma empolgada e exagerada com que falava do que estava a fazer - crescia também o medo inconfessável de Julião de ser um fracasso, um falhado. De investir a sua vida toda para depois a montanha parir um rato.

Julião sentia que a na sua vida sempre tinha conseguido superar as provas a que se submetia, e estava habituado a ser testado. Mas não sabia o que fazer nem o que esperar do "mundo real" onde as regras nem sempre são explícitas - sobretudo no que toca à arte - e onde nem sempre é a qualidade artística pura e simples a determinar as oportunidades oferecidas.

Num exercício de procrastinação refinada e muito bem camuflada, refugiava-se na necessidade de se refinar para continuar sem apresentar uma exposição só sua. Participava em exposições coletivas ocasionalmente com boas críticas, mas dizia que queria "quando saísse para o mundo", sair logo a deslumbrar, a vencer, a não falhar.

Falhar, para si, não era admissível, simplesmente. Sempre fora o melhor, e a sua carreira profssional não tinha qualquer motivo para ficar atrás disso.

Assim, de cada vez que empolava mais o seu castelo de ar, mais duro se tornava para consigo, mais dificuldade tinha em trazer à luz do dia as muitas ideias que lhe fervilhavam na cabeça. Mais medo tinha de não conseguir, mais intolerante se tornava à crítica, mais impossível era olhar de frente para si mesmo.

E esta dualidade daquilo que não se faz e daquilo que já se devia estar a fazer, dividia-o e punha-o num conflito interno muito grande.

Julião vivia atormentado entre a pequenez que sentia de si nos momentos de introspeção e a megalomania que passava aos outros quando falava do seu percurso, fazendo sempre com que tudo parecesse muito melhor e maior do que era na realidade.

Não vivia em paz consigo mesmo porque tinha medo que as pessoas descobrissem que ele não era tão bom como dizia, que não tinha o sucesso que apregoava, que ele era mais um a lutar por um lugar ao sol, embora se recusasse a aceitar este facto tão vulgar, comum e... normal - todos os adjetivos com que não suportava identificar-se.

No encarnar desta personagem fabulosa e cheia de uma vida que ele não tinha e que se tornava mais e mais evidente à medida que o tempo passava para quem estava atento, Julião ia-se convencendo temporariamente da sua invulnerabilidade e ia sendo progressivamente mais desagradável com as pessoas que conhecia e as que lhe eram apresentadas sempre que estas estivessem frágeis ou demonstrassem insegurança.

Neste contexto, Julião oferecia com prontidão pérolas de sabedoria, receitas escrupulosas do que as pessoas deviam estar a fazer  com as suas vidas e não estavam a cumprir, entre comentários que podiam ser trocistas e que eram sempre de superioridade. Julião acreditava verdadeiramente que sabia muito da vida e que a sua visão do mundo era a mais correta e mais límpida e dizia tudo o que pensava com grande eloquência e convicção. E desta forma, fazia-as sentir-se pequenas e por vezes chegava mesmo a humilhá-las.

Não é que Julião fosse má pessoa, no fundo; simplesmente, as pessoas que têm egos muito grandes e obras muito pequenas precisam de diminuir os outros a fim de conseguirem resolver a sua angústia de poderem ser muito e não serem ninguém.



quarta-feira, março 20, 2013

Felicidade

"Felicidade sou eu." era a piada que Felicidade Graça, professora de Filosofia, gostava de dizer quando debatia o tema nas aulas.

E por egocentrismo ou afinidade de nomes, este era também o seu conceito preferido e a coisa que mais gostava de abordar nas aulas e até nas conversas em geral.

Gostava que a busca da Felicidade fosse o primeiro direito defendido pela Carta Universal dos Direitos do Homem. Gostava que a Felicidade fosse o bem mais precioso que qualquer pessoa pudesse almejar, sem que pudesse jamais ser comprada. E gostava de debater o conceito com as mais variadas pessoas - embora os amigos já a conhecessem de gingeira e por vezes virassem o bico ao prego, dizendo "para mim, a Felicidade és tu!" - e até tinha um amigo que acrescentava a graçola na mesma onda dizendo "e eu nunca hei de ficar sem mãe, porque a minha mãe chama-se Esperança e toda a gente sabe que a esperança é a última a morrer!"

Felicidade levava a felicidade tão a sério que as suas angústias existenciais tinham sempre a ver com se ela estava a dar o seu máximo, se estava a contribuir o suficiente para a felicidade alheia (sim, esquecendo muitas vezes a sua própria) - porque Felicidade acreditava que a felicidade suprema era fazer os outros felizes.

E perguntava-se muitas vezes se estava a dar o melhor de si, o seu máximo. E sabia que não - porque ninguém nunca atinge o máximo das suas potencialidades.

E preocupava-se.

Ao mesmo tempo, sabia-se insignificante, um grão de areia. E pensava: o que acontecerá quando eu morrer? Quem se lembrará de mim? Será que eu contribuí de alguma forma para fazer deste um mundo melhor?

Acalmava a sua angústia existencial dizendo que a vida se vive no presente, no aqui e agora.

No pretérito presente e no gerundio. No momento e no lugar em que se está e que se vai estando.

E que isso representa uma escolha. aliás várias escolhas, porque cada opção representa uma infinidade de outras opções que não se selecionou. É o que se chama em Economia o "custo de oportunidade".

Por exemplo, não adianta esperar que os outros se lembrem de nós quando nós desaparecemos por completo ou até quando simplesmente não aparecemos com regularidade. Não significa que tenham deixado de gostar de nós ou que a sua opinião acerca da nossa pessoa tenha mudado; significa sim, que não estamos à mão de semear e que eventualmente deixaremos de ser lembrados.

E inevitavelmente, com o girar do mundo, vamos deixando de estar e de ter "à mão de semear" pessoas que são importantes para nós, seja porque motivo for. E que à medida que o mundo vai girando, vamos percebendo que a "importância para os outros" é uma coisa apenas circunstancial; acontece em dados momentos da nossa vida que depois passam.

Mas que há pessoas que nos marcam tanto que mesmo tendo deixado de ser importantes para nós no nosso quotidiano presente, mantêm um lugar cativo nos nossos corações, por aquilo que connosco viveram ou viviam. E nós nos dos outros.

Porque o passado pouco importa. É o presente, o presente gerúndio que conta. Não é o que se fez. É o que se faz - e mais importante ainda, o que se vai fazendo.

Porque insignificante não é o mesmo que zero.

E por isso, Felicidade tinha momentos em que se contentava com a sua pequenez e a forma como estava sujeita à completa aleatoriedade da vida.

E então, percebia que felicidade é o cheiro do pão quente, é a sombra da árvore no jardim da biblioteca, é ver a ponte bonita de manhã, é fazer festas aos cães, é ver o sorriso dos sobrinhos e responder às suas perguntas, é dançar. é estar aqui, existir e ser grata.

"Felicidade sou eu."

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Sem Personagens

Chegámos ao número 100.

A centésima personagem, por ser a número 100 e por tudo o que significa (nomeadamente que vou agora tentar editar esta aventura literária em livro) é proposiadamente uma "não personagem".

É um agradecimento.

Ao longo destes três anos as personagens evoluíram mais do que eu imaginava e tornaram-se num hobbie, numa necessidade, num vício.

Venho aqui para escrever, para vos escrever, para imortalizar uma frase bonita ou um dito curioso, para homenagear as pessoas que me tocam, para explicar as situações que eu não percebo, para exorcizar os meus demónios, para dar asas às minhas fantasias, para explicar a mim e ao mundo que a verdade é uma coisa relativa e que a vida é mais que nada uma coisa aleatória em que todos podemos e não podemos fazer o que entendermos.

Repetir o credo que o que importa é viver. sem medo. E tentando não julgar os outros. Flexibilizar as balizas com que imaginamos que a nossa vida existe. E não ver o mundo a preto e branco porque há uma quantidade extravagante de cores que aparecem quando abrimos esta possibilidade.

E as Personagens evoluíram nestes 3 anos e meio. do tímido reconhecer que muitas das minhas personagens têm um pouco das pessoas que eu conheço ou que são o retrato de alguém num dado momento no tempo, à explícita dedicação de personagens que nem se dão ao trabalho de mudar os nomes dos intervenientes.

As personagens são bocadinhos mais ou menos desconexos do meu universo e dos universos que o circundam.

Eao longo destes três anos e tal, foi-se tornando por demais evidente que a minha imaginação deriva imediatamente da vossa magia, da vossa partilha de coração comigo.

Se são meus amigos, se já falaram comigo se leio os vossos blogues, o mais provável é que aqui esteja mais ou menos camuflado um bocadinho de vós. daquilo que de vós me toca.

E se há três anos o dizia com embaraço, porque não queria que se ofendessem comigo nem que achassem que vos roubava a alma com a fotografia que tirava e partilhava com o mundo, percebi mais tarde que esse era um gesto por norma apreciado.

E foi mais ou menos nessa altura que comecei a escrever personagens não apenas "sobre", mas também "para". E se estes "sobre"'s e "para"'s são por vezes partilhados num email em que se diz "para ti", outras vezes as personagens nascem oficialmente para alguém. outras ainda, as personagens esperam pacientemente uma visita da pessoa que as inspirou, num secreto desejo de serem reconhecidas.

O Personificcionar tornou-se assim em mais do que um blog e passou a ser para mim quase um super poder; o Personificcionar permite-me abraçar as almas dos meus amigos e dos meus leitores. permite-me contar as minhas e as suas histórias, lembrar-lhes que são importantes - que é uma coisa que por vezes esquecemos. permite-me dizer as coisas que não posso ou que não me atrevo. permite-me contribuir. e permite-me agradecer.

E por isto e por tudo o que não cabe aqui: obrigada a todos.

e vemo-nos no lançamento do livro, boa?


domingo, fevereiro 10, 2013

João Tiago Medeiros

para o Pedro


Einstein foi um dos primeiros físicos que falou na possibilidade de universos infinitos e paralelos. A possibilidade de uma mesma situação ter todos os outcomes possíveis em universos que existem paralelamente.

Há um universo em que todos e cada um de nós seremos astronautas, paralíticos, muito ricos ou muito pobres, nascidos na China, no Nepal, no Quénia, no Brasil, seremos loiros, seremos azuis, seremos aliens, seremos fantasmas, seremos líderes mundiais, seremos apenas um sonho. e por aí adiante.

O mundo em que vivemos é apenas uma das muitas realidades que existem. E se neste mundo somos o que somos, podemos com certeza acreditar que há apenas um fino tecido tempo-espacial a separar-nos de todas as outras realidades alternativas, onde tudo o resto correu de maneira ligeira ou completamente diferente.

E como são as pequenas coisas que fazem as grandes diferenças é mais fácil imaginarmos o universo que temos exatamente igual, mas onde não nos esquecemos da chave de casa, onde não nos distraímos a procurar um cd no tablier e batemos no carro da frente, em que não apanhamos o avião que teve um acidente, em que não fomos sair quando algo de mau aconteceu, do que um universo em que todos respiramos água, todos temos asas ou todos vivemos em planetas distintos e nunca conhecemos nenhuma das pessoas que constituem os nossos universos relacionais.

E esta ideia não é apenas verdade para os universos teóricos. É também verdade para as nossas vidas, vividas paralelamente, mas com pontos de vista individuais muito diferentes. Porque todos somos os atores principais das nossas vidas por muito que sejamos apenas figurantes nas dos outros e nada mais que cenário irrelevante no computo geral. Pó de estrelas.

Mas conhecermos o universo em que estamos traz-nos conforto, o tipo de conforto que têm as crianças quando perguntam "porquês" e obtêm as respostas. Porque precisamos de saber que o mundo é explicável, é compreensível, é amigável. e é uno.

E para nós, os universos multiplicaram-se naquela noite de quarta para quinta, quando o João desapareceu.

Nesse momento, o João deixou de estar numa discoteca a divertir-se com os amigos para estar em todos os lugares que não conhecemos. E à medida que o tempo continua a passar os universos que imaginamos são cada vez menos bons. Os universos em que era razoável o João estar a ressacar em algum sítio ou ter-se interessado por alguém inconsequentemente foram-se afastando e deram espaço para que emergissem os universos em que alguém lhe fez mal, em que algo de negro lhe aconteceu. Em que caiu ao Tejo, por exemplo.

E é o continuarmos sem saber de nada que nos mantem a nós nas arraias do seu universo, e à sua família e amigos mais próximos do epicentro, com muito mais força, em suspenso e sem sabermos bem em que universo estamos.

E quem não sabe o universo em que está, não pode saber o que fazer e como continuar as suas vidas.

Por isso, e porque os astros brilham com a incandescência do pó de estrelas que se move e colide, dêm uma olhada à foto do João, abaixo. Quem sabe se não vivemos num desses universos que nos parecem improváveis em que alguém que olha para uma foto divulgada, de facto pode ajudar de alguma maneira.

Um obrigada sentido.




Link da Polícia Judiciária - João Tiago Medeiros



Carolina

Carolina senta-se num banco alto no bar do hotel, senhora dos seus saltos muito altos e do seu vestido justo que deixa entrever um bocadinho pequeno daquilo que parece ser um soutein rendado e bonito.

Carolina está nos seus trintas, está em boa forma, e sobretudo tem um charme muito grande, com o seu perfume ligeiramente doce, olhos esfumados e forma de estar provocadora que já lhe é intrinseca e natural.

Cruza as pernas, pede um gin tónico com duas cerejas e começa lenta e determinada a varrer o salão com os olhos em busca de uma aventura, enquanto vai molhando os lábios com a bebida e brinca mais ou menos distraidamente com as cerejas, perfeitamente alinhadas num palito, com a boca.

Carolina sabe que tudo começa com uma troca de olhares, um olhar que se cruza e se fixa. Gosta especialmente deste jogo de sedução e de olhar descaradamente para homens que lhe agradam, esperando que sejam eles a desviar o olhar. Não lhe importa se estão acompanhados ou não: pelo contrário, isso apimenta o jogo e dá-lhe um gozo extra. Frequentemente, são eles que desviam o olhar apenas para logo a seguir retomarem o contacto, como que tomados de uma surpresa boa que querem confirmar se é mesmo verdade.

Carolina é uma provocadora nata. Sabe o que dizer e como, sabe o que fazer e tem gosto pelo risco.

A sedutora sabe provocar e esperar; fazer uma inocente deslocação à casa de banho ou à varanda - ou simplesmente pedir lume - para que o seu alvo a possa mais facilmente abordar; sabe que metade do caminho tem de ser percorrido pelo outro - embora esse caminho possa ser encurtado.

Para Carolina, metade da coisa está em fazer perceber que quer, fazer o outro tomar consciência desse desejo, depois dar-lhe a entender sem o dizer que está ao seu alcance; a outra metade, a de de facto querer, a de tomar a iniciativa de a abordar, a de se arriscar, depende apenas do outro e é a parte que ela não controla.

Depois desta barreira quebrada, o jogo continua: Carolina gosta de esticar a corda até ao limite, de ver até onde os homens são capazes de ir por ela.

Às vezes ganha, às vezes perde. Tudo faz parte deste jogo que Carolina gosta de jogar e que joga com mestria. Mas apenas quando está bem longe de casa.

Porque em Lisboa, onde vive, Carolina é uma respeitável e muito bem sucedida advogada de direito internacional, esposa dedicada e mãe babada de dois filhos pequenos.

Carolina é casada com Jorge, um pacato e confiável contabilista que a adora e lhe dá toda a segurança e afeto que ela pode desejar. É um marido exemplar, um pai extremoso e é o seu melhor amigo. Carolina não quereria estar casada com mais ninguém, nem confiaria em mais ninguém para criar os seus filhos com ela e tomar decisões conjuntas.

O amor que Carolina tem por Jorge é incomensurável e estaria perdida sem ele. Ele é indubitavelmente o seu companheiro de vida, a sua família.

Mas isso não é tudo na vida de Carolina. Porque a Carolina-esposa-e-mãe não matou a Carolina-sedutora-e-aventureira.

E por isso, quando sente a segurança de quem está bem longe de casa (geralmente em viagens de negócios), Carolina liberta a mulher fogosa e aventureira que não pode ser na casa segura, quentinha e de pantufas onde habita. e é lá fora que vive as aventuras mais incríveis que não pode contar a ninguém: a noite em que disse ao barman que para ir para a cama com ela eram mil euros e ele queria na mesma; a noite em que acabou num hotel e quando fez check out não sabia dizer nem o número do quarto, nem o nome da pessoa que o tinha pago; aquela vez em que se veio com os dedos mágicos de um italiano no quarto de banho de uma discoteca em Bordeaux; a aventura em Boston, com um estudante universitário australiano 12 anos mais novo.

As loucuras que comete são aliciantes e trazem-lhe muita satisfação imediata, mas são invariavelmente seguidas de periodos de remorso e culpabilização, o que faz com que ela seja ainda mais dedicada e atenciosa com o marido e a família quando volta. Faz com que redobre as suas atenções e mimos, com que traga sempre prendas e lembranças e tenha sempre mais paciência e tolerância com as coisas que a irritam. E faz com que consiga manter um casamento onde já existe muito pouca cama - que é agora apenas morna - com a mesma convicção há anos, reforçando de forma quase paradoxal a relação feliz que mantém volvida mais de uma década.

"A mãe vem sempre mais bem disposta das viagens", dizem com frequência. E quando passa dias ou fases mais irritadiça e rabugenta, chegam mesmo a dizer-lhe meio a brincar meio a sério que está a precisar de fazer uma viagem de negócios, "que é para sentir a falta deles e voltar com saudades".



quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Maria Albertina

A avó da noiva manteve o semblante pesado e recusou-se a comer uma fatia de bolo.

A filha virou-se para ela e tentou trazê-la daquele sítio cheio de eletricidade estática para onde também vão os miudos birrentos quando não querem comer a sopa.

"Então, mãezinha? Não faça desfeita à miuda que ela fica triste."

"Não gosto desta gente", disse Maria Albertina como se falasse de um pedaço de couve. Disse "não gosto desta gente" como se a gente se pudesse dividir em grandes blocos e formasse em conjunto uma unidade indivisível, como um pedaço de outra matéria qualquer, um queijo. Se Maria Albertina tivesse dito "Não gosto deste queijo" o drama não existia e a filha dedicada dar-lhe-ia uma alternativa de queijo ou mandava-a comer pão com marmelada em vez disso.

No dia do casamento da neta Joana, Maria Albertina demorou-se a sair de casa e tentou por todos os meios não estar presente. Que lhe doía a cabeça, as costas, o peito. Que estava indisposta. Que não queria sair.

A filha, doutorada em todas as birras que a mãe fazia quando a queriam contrariar, estava precavida e tinha solução pronta para cada uma: comprimido para a dor de cabeça, a possibilidade de andar sempre de carro e uma cadeira especial durante a cerimónia, por causa das dores de costas, a presença de um primo do noivo, médico, para qualquer problema de coração que pudesse surgir. Não ia ficar a fazer nada em casa, e era mais seguro estar acompanhada, se ainda por cima não se sentia bem.

E a velha, vencida e contrariada lá foi ao dia mais feliz da vida da neta com a disposição de quem se dirige ao veterinário para mandar abater o cão.

"Não gosto desta gente." - disse novamente Maria Albertina, desta vez um pouco mais alto.

Joaquina, a filha, corou muito e apertou o braço da mãe, encostou a cara na sua, olhou-a nos olhos com ar de leoa e disse-lhe séria e quase ameaçadora para parar com aquilo e que nem pensasse em fazer uma cena e estragar o dia à Joaninha.

Maria Albertina encheu os olhos de lágrimas e deixou-os vazar pela cara abaixo silenciosa e engasgada.

Joaquina estava cada vez mais com um menino nos braços. Entre o embaraço de parecer má filha por ter a mãe quase a fazer beicinho e a chorar aparentemente por algo que ela lhe disse de forma ríspida, a vergonha de ter a mãe a começar aos impropérios a dizer que não gostava "daquela gente" e a deixar ficar mal a família toda, e a preocupação de ter a mãe naquele estado mal disposto e frágil, não sabia bem para que lado se virar.

"Então, mãezinha?" disse depois de uma pausa segurando-lhe o braço com a mesma mão, mas agora sem o apertar, afagando-o como se segurasse nela por inteiro naquele simples gesto e a embalasse.

Maria Albertina tirou um lenço bordado da carteira preta das festas, enxugou as lágrimas e fungou o mais silenciosamente que pode. Lembrou-se que era uma senhora e que ainda não estava senil. Endireitou-se na cadeira. Disse um "deixa estar" reconfortante à filha, como se a Maria Albertina de outrora viesse tomar o seu lugar à mesa em vez da velha mimada e birrenta dos últimos tempos.

Maria Albertina recusou com firmeza o bolo na mesma, mas jurou a si mesma que não ia estragar o dia à neta.

A verdade é que já não era de agora que Maria Albertia sentia a Morte rondar-lhe a porta. Alfredo já tinha falecido havia mais de 10 anos, as meninas estavam quase todas casadas, ela já não vivia na sua casa, já era um parasita noutra casa onde as regras eram as que lhe impunham e onde a sua vontade só se fazia valer como nos garoticos - com pedinchice, ronha, birras ou chantagem.

Sentia a Morte rondar-lhe a porta e queria ter a certeza que partia com a missão cumprida e tudo bem entregue.

Já tinha começado a fazer partilhas em vida, embora soubesse muito bem o que pensavam os filhos desta sua subita vontade de dar coisas: que estava senil, que desistia de viver. E pelas suas costas desfaziam o que ela tinha feito, lamuriavam as coisas que ela dava e agradeciam quando vinha alguém devolver algo de valor que ela lhes havia ofertado. Não interessava. Os seus dias estavam contados e ela não queria partir sem acertar as suas contas.

Maria Albertina sentia saudades do tempo em que tinha uma casa para fazer o que bem lhe apetecesse, dos dias em que não tinha de ter uma ama seca permanentemente atenta aos seus movimentos, não fosse ela fazer algum disparate no meio das tropelias que às vezes magicava no seu novo papel de criança travessa.

Mas o que ela sentia mais falta de tudo era de Alfredo, o marido. o companheiro. o amigo. De beber leite morno com ele à noite antes de irem para a cama. de fazer as palavras cruzadas com ele aos domingos, nas manhãs de preguiça na cama. dos extras que ele trazia de vez em quando com o pão que ia buscar nas caminhadas depois de almoço: flores silvestres, amoras, camarinhas, folhas bonitas de outono. uma vez chegou mesmo a trazer um cachorro pequeno muito esfomeado e assustado que provavelmente se teria perdido da mãe. de lhe abrir a cama e de por lá um saco de água quente para ele não se arrepiar nos dias de inverno. de o chamar para a mesa depois de por o lanche. de fazer cozinhados enquanto ele, sentado na mesa da cozinha folheava os "Doze Meses de Cozinha" e lhe lia as receitas.

No dia em que deu a Joana o seu livro de cozinha predileto, depois de ser anunciada a boda, fê-lo propositadamente em frente ao noivo. Ofereceu a sua preciosidade com uma casualidade ensaiada, como se fosse apenas mais um capricho de velha semi senil e entregou-o, na esperança secreta de vislumbrar uma vez mais a cumplicidade que tinha com o seu Alfredo numa troca de olhares de Joana e Marco, num afagar da mão de um deles, num comentário entusiasmado, numa qualquer expressão daquela marca de afeto específica e indisfarçável que é incondicional, incontestável e cúmplice.

Entregou o livro e os olhos de Joana brilharam emocionados. O livro largo e pesado transportou-a para um tempo que nunca iria voltar e deu-lhe a imagem exata dos dias de festa em que a avó era nova, ela era pequena e, de baixo para cima, via maravilhada bolos a serem feitos num processo mágico qualquer, com um feitiço que o avô lançava e que a avó concretizava entre os balcões da cozinha e o forno. Os balcões acima do seu campo de visão, o bolo que crescia misteriosamente no forno, ao seu nível, mesmo à sua frente:

"- não te encostes ao forno que te queimas, Joaninha, sai daí".

Transportou-a para cima de um banco de cozinha alto e sem ninguém a segurá-la, a decorar bolos com chantilly e bolinhas prateadas  com a ajuda da avó e da sua manga de pasteleiro que fazia rosáceas e flores magníficas com os mais variados sabores, texturas e cores.

Olhou para Marco e ele já estava de saída para ir ter com o sogro e discutir o jogo de futebol. Joana chamou-o para lhe explicar o que é que aquele livro era, mas ele encolheu os ombros e reduziu-lhe a significância no mesmo instante.

E nesse momento, Maria Albertina, desfeiteada pelo desprezo do genro-neto que a tomava por uma velha esquecida e pouco importante, e que nem depois de a neta se sentar ao seu lado e mostrar entusiasmada o tesouro que tinha nas mãos deixou de olhar para a televisão, concluiu que aquele moço não merecia a sua Joaninha. Não era digno daquele pedaço de si e que a sua parte daí, ela não lha cedia. E nunca mais conseguiu encará-lo nem gostar dele. Achou que ele nunca faria companhia à neta nos momentos menos bons, tornando-os especiais, que ele não lhe dava o valor que ela merecia, que ele era um egoísta e um diabo.

E nunca mais gostou dele. E quanto mais não gostava dele, mais implicava com tudo o que ele fazia, tudo o que ele dizia, tudo o que ela percebia da relação deles. Que era podre. que era ele que mandava na relação. que a neta não tinha uma palavra a dizer. que ela ia ser uma pobre infeliz.

E isso era algo que Maria Albertina, agora que sentia a Morte tão perto não conseguia suportar e que na sua veste de criança mimada expelia sem pensar nas consequências como se cuspisse a sopa passada que não quer comer. Sem reparar que a sujeira que fazia eram outros que a tinham de limpar e que ninguém queria estar por perto de uma bomba-relógio daquelas.

Mas no dia do casamento da neta, e depois de se ver refletida nos olhos de leoa da filha e de se ouvir a começar uma birra com "não gosto desta gente", Maria Albertina foi-se buscar ao fundo da gaveta mais funda da sua alma na sua forma mais senhoril e educada.

Mordeu o lábio e engoliu o orgulho e as certezas. O seu lugar era de convidada, apenas e só - e era assim que se ia comportar: como se deve. Cumprimentou os noivos e brindou com a família. Não foi hipócrita e celebrou a felicidade da neta, que estava radiosa e deslumbrante.

E aquele acabou por ser um dia muito bom para todos.

Já mesmo no fim da festa, fosse pelo esforço férreo de controlar a vontade para não dizer à neta que ela merecia melhor e que se podia sempre separar, talvez pela epifania de que a alegria daqueles que amamos é mais importante do que as certezas que achamos que temos sobre a vida ou por se permitir pensar que estava errada e que a neta até podia ser muito feliz e ela ter visto mal a situação - que já sabia como era quando tomava alguém de ponta. se calhar, pela descoberta daquele momento como uma das raras e últimas ocasiões em que tinha a família toda junta; talvez fosse da muita felicidade que sentiu quando abriu o semblante e permitiu que outros a viessem cumprimentar e que pouco a pouco e um de cada vez os diferentes familiares viessem conversar um pouco consigo; pode ter sido pela montanha russa de emoções que viveu, ou ainda - porque não - porque simplesmente chegara a sua hora, Maria Albertina fechou os olhos num súbito e irresistível cansaço. E enquanto esperava que a filha fosse buscar o carro, morreu feliz, cheia do mimo que lhe davam e a pensar no seu Alfredo, algures à sua espera.


sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Verdade ou consequência?

Lá fora o temporal parece o lobo mau da história dos três porquinhos, a soprar e a soprar a ver se deita as casas abaixo.

Verdade.

Já começou a trovejar embora não se vejam relâmpagos. E está a ficar escuro.
Daqui a mais ou menos duas horas tenho de sair daqui e pegar no carro para subir a montanha mal iluminada em direção a casa.

Verdade.

Não gosto de conduzir assim. Quer dizer, eu gosto do mau tempo, e até gosto do mau tempo quando estou a conduzir, como se o deus das tempestades ele mesmo fosse a fazer-me companhia no caminho.
Até gosto de atravessar nevoeiros.
Antigamente não gostava, mas depois li num livro sobre cerâmica chinesa que os dragões são criaturas mágicas cujas manifestações corpóreas são as neblinas. Temos um dragão de montanha quando é uma neblina na montanha, um dragão de rio, quando é uma neblina num rio... e por aí adiante. Os dragões de cidade devem ser os mais tristes, coitados, sem espaço para espraiarem as suas escamas e as suas pernas, sem poderem voar baixinho à vontade e em sossego.
Gosto de atravessar dragões e faço-o sempre com a mesma solenidade respeitosa e uma espécie de carinho que é o mesmo que eu dirijo ao meu amigo, o deus das tempestades.

Verdade.

Mas hoje há um conjunto de circunstânicas de que eu não gosto. Além do mau tempo que eu gosto de ver, mas cujas palavras são sempre demasiado ásperas e desajeitas, sempre um bocado a puxar ao melodramático, está muito escuro. E a estrada por onde eu vou quase não é iluminada em lado nenhum. Não gosto de conduzir assim, na escuridão total; parece que vem o escuro comer-me o carro, parece que a traseira do carro está a ser abocanhada pela noite ou um fantasma negro e eu não gosto.

Verdade.

Mas tenho andado distraída e por isso o trabalho hoje alonga-se até às horas que ele decidir, até ele dizer que está feito e que eu posso ir para casa.

Consequência .

Na verdade, não me importo muito de ficar até mais tarde no trabalho, hoje. Não sei se hoje conseguia encará-lo com as suas mazelas, a sua tentativa bem disposta de disfarçar a indisposição e as naúseas, as aftas que tem na boca, o cansaço e as dores constantes que nega e mente e não engana ninguém.

Verdade.

Não sei se conseguia mais um serão de fazer de conta que estou bem disposta e ótimista. Não sei se conseguia mais uma conversa à lareira com a minha mãe, a descansá-la que vai correr tudo bem.
Não sei se me custa mais o cansaço físico de estar sempre a correr para o Porto para o levar aos tratamentos e exames, se o cansaço existencial de imaginar que existir pode ser sem ele.
O cansaço mental de me preparar para uma perda que pode não acontecer - e que não pode acontecer.
O desgaste psicológico de negar que tudo pode correr mal e o cançaso de estar sempre a torcer muito para que tudo corra bem.

Verdade.

E este cansaço, que me acossa e que me culpa a cada passo, - porque eu não tenho o direito de estar cansada, porque eu não estou doente, porque eu é que sou a rocha e é preciso agora que alguém o seja, porque eles precisam de quem lhes dê força e essa pessoa sou eu, tenho de ser eu - não me deixa dormir. Não me deixa comer. Não me deixa distrair. Esta mistura tóxica de medo, cansaço e uma culpa que eu não sei de onde vem - dos momentos em que não estive? Do que podia ter feito e não fiz? De não poder fazer mais? Do quê? - deixam-me acordada mas não desperta.

Consequência.

E com isso o trabalho vai-se arrastando numa mistura de lentidão de exaustão e procrastinação por ter medo de ficar sem nada que fazer, sem nada mais que ocupar a minha mente do que os fantasmas da doença dele e da possibilidade de ele não existir mais. De ele sofrer e eu não poder fazer nada senão assistir impotente.

Consequência.

Estas são as coisas que eu não posso contar a ninguém, e que conto apenas ao deus das tempestades em dias como hoje, quando choro no seu ombro. E ele - amigo de velha data - chora comigo e urra tudo o que eu não ouso, tudo o que eu não posso. E faz as tempestades que sopram e chovem como se quisessem deitar tudo abaixo.

Simpático, ele. Um bocado extravagante, mas querido.

Não se pode dizer o mesmo do meu outro companheiro de viagem de hoje, o negrume silencioso que me esconde o caminho que eu já fiz e que me impede de olhar para trás, para onde eu já estive. Que me esconde o passado bom e em segurança de que eu tanto preciso. Que me abocanha o carro sem me deixar ver o que o consome e sem que eu possa fazer nada para o impedir.

Verdade ou consequência?


segunda-feira, janeiro 21, 2013

Gladys y Oscar

"Às mulieres não há que dar-lhes confiança. Há que ser simpático. Há que ser educado. Mas não há que dar-lhes confiança, que depois chá querem mandar elas."

Oscar pausou o discurso no centro da sala de dança, rodou o corpo e continuou:

"E no tango quem manda é o homem. Na vida, lá fora chá sabemos que não é assim. No tango ainda é."

Era com estas frases provocadoras que Oscar gostava de começar os cursos de tango. E Oscar dizia sempre estas coisas com um tom meio jocoso, meio sério, até Gladys, a mulher, o interpelar sem falar, mandando que continuasse.

"Dançar o tango é caminar. Não é levantar os pés e fazer eu sei lá o quê, dar coices de um lado para o outro, dobrar os joelhos. O tango é chão. Há ganchos, há patadas, mas isso é diferente. O tango é caminar."

E exemplificou, caminhando com segurança, marcando o passo a pisar possante o chão.

Gladys anuiu com um sorriso e continuou:

"A mulier no tango deve estar segura, caminar, leer o corpo do homem e manter a distância."

Oscar interpelou-a e acrescentou no tom jocoso de sempre:

"Que o homem com a boca engana; com o corpo fala verdade. Mulieres, é ou não é verdade?"

Gladys sorriu e continuou, na aula que parece ela mesma um tango cúmplice, em que há sincronia e desafio ao mesmo tempo:

"Mas o que a mulher lee é o ombro do homem. O homem na verdade pode fazer o que quiser da cintura para baixo que se a mulher não leer o corpo dele não reage. Por isso as indicações normalmente são com o corpo. Não se preocupem com os pés. Sigam o corpo do homem que os pés van atrás."

Argentinos os dois, ela muito loira e esguia, ele moreno de cabelo puxado atrás, com gel. Estão em Portugal há mais de duas décadas, mas o seu português ainda evidencia resquícios do castelhano nativo.

Exemplificam então o passo base do tango antes de irem ensinar os movimentos mais simples separadamente: Oscar aos homens, Gladys às mulheres. Não há misturas, porque cada um sabe as suas coisas e não se querem misturar as instruções específicas. Não querem mulheres a dançar como homens e homens a dançar como mulheres, que no tango os papéis e os movimentos dos diferentes géneros estão bem definidos e bem marcados..

E seguem as aulas que já esquematizaram num sistema deles, complexificando gradualmente o que ensinam nas sessões. Aula um: passo base e talvez os oitos para a frente, aula dois: passo base, oitos para a frente e oitos para trás, e por aí adiante.

E a aula é um intercalar de tango, explicação técnica e prática da técnica - sempre por esta ordem a acabar novamente em tango improvisado.

Gladys e Oscar param no final de cada música e nas práticas para trocar os pares, para não haver vícios de quem está habituado sempre ao mesmo parceiro e já dá ou lê mal as marcações. Que as aulas não são para se dançar bem com o par com que se veio à aula - são para se dançar bem, ponto.

E fazendo um contínuo coerente de quem fez do tango a sua vida, Gladys e Oscar explicam o tango como se explicassem a própria vida.

"Quando se fazem óitos - aquele passo bonito em que a mulier anda de um lado para el outro em frente ao homem - o homem pede óitos, mas não os controla. A velocidade é aquela que a mulher quisser fazer. O homem só tem de dar a indicação e esperar que ela faça o que ele pede. A mulier tem de ser clara na sua mensagem também - e quando faz óitos, quando se passeia frente al homem, a mulher nunca pode estar em desiquilíbrio. A mulier faz o que homem pede, mas zela sempre pela sua segurança, sim mulieres? Ela dança com ele e para ele, mas nunca se descura de si. A mulier anda, pousa a perna e roda sobre o seu eixo; se nada for pedido a seguir, anda de novo e roda completamente sobre o seu eixo antes de andar novamente e repetir, até o homem pedir "pará"."

Gladys exemplifica enquanto fala e acrescenta:

"E quando a mulier anda para trás, mulieres, deve ir suavemente sem bater com o pé, acariciando o chão, apalpando o terreno como se fora sozinha, sem com isso deixar de seguir o homem: mas a mulier deve estar sempre segura dos seus movimentos. Está bem, mulieres?" 

O par exemplifica toda a filosofia do tango como se ele fizesse parte não só da sua profissão, mas da sua relação, da sua vida, do seu corpo. Oscar a dar as marcações, Gladys a marcar a velocidade. Cada um com o seu espaço, como seu lugar, com o seu poder - num equilíbrio simbiótico, inseparáveis.

Que no tango só admiram os pés dos bailarinos quem vê de fora - porque quem dança, põe os pés sem pensar muito: o que lê é o corpo, o que sente.

E o tango é uma linguagem. Há que saber falá-la.

"O homem, no tango fala quatro palavras chave: "andá", quando caminha em frente e pede à mulher que siga à sua frente; "veni", quando camina para trás e pede à mulher que o siga, caminhando ela em frente; "passá", quando o homem dá passagem à mulher e faz um camino para ela e "pará", quando o homem estanca o corpo impedindo a mulher de passar."

Oscar exemplifica com Gladys à medida que explica e depois diz, subitamente sério:

"Se a mulher não sabe o que fazer, a culpa é sempre do homem que não está a dar boas indicações."

E a seguir alivia o aviso, explicando que:

"O mais difícil no tango para o homem é dançar sem desiquilibrar la mulier. E todos sabemos que uma mulier desiquilibrada é muito perigosa." - sorri malicioso e olha para a mulher, como que a desafiá-la. Ela sorri e diz que é verdade, que uma mulher desiquilibrada é perigosa, mas que é claro que quem deixa as mulheres desiquilibradas são os homens, que é claro que a culpa é deles, ora então. Não fossem tão chatos.

"Mas homens, apesar de às vezes ser difícil, dancem com as mulheres. Aqueles homens que agarram as mulieres e andam com elas como se fossem bandeiras, não sabem dançar. No tango o homem pede, e espera que a mulier faça. Se não faz, não tem problema, o homem segue e pede outras coisas. Mas não agarra a mulier para a por a fazer as coisas ele. Isso não é dançar bem."

"Porque o tango não é uma dança matchista como dicen. A mulier também manda. Que no tango o homem diz "o quê", a mulier dice "quando" e "onde"."



segunda-feira, janeiro 14, 2013

Filipa



(personagem escrita para um pedido de casamento a 11/1/2013. O texto tem o input da própria Filipa)

Todos nós somos as personagens principais das nossas vidas. E o mundo é uma série de novelas em que as personagens principais de uma história são personagens secundárias e figurantes nas dos outros.
Passo a passo vamos construindo as histórias das nossas vidas ora com opções que tomamos ora com opções que a vida toma por nós.

As escolhas que nós fazemos, grandes ou pequenas, são os passos que damos (ou achamos que damos) em direcção àquilo que queremos para nós. Por norma são negociáveis. As escolhas que a vida toma são as barreiras ou as pontes que encontramos nesse mesmo caminho. E são geralmente incontornáveis.

Filipa soube da morte do Nelson no início de Dezembro pelo Facebook. Esse foi o dia em que o Facebook lhe mostrou que a vida, para além de nos poder destruir alguns pequenos sonhos, se pode também desmoronar por completo aos nossos pés.

E esse foi o dia em que a Filipa pensou pela primeira vez nas riquezas que possuía.

Um Colega havia morrido. Vou dizer de novo: um colega, jovem, com toda vida planeada mas não construída havia morrido. A ligação não era particularmente forte, mas a ideia incontornável de que poderia ter sido o seu namorado, fê-la tremer.

Nesse momento fechou os olhos e pensou nas suas riquezas: os seus amigos, a sua família, a profissão que adora e ele, o inquestionável homem que por algum motivo ainda inexplicável a completava. E se fosse ele? E se de repente todos os planos, sonhos, viagens e horas de amor lhe fossem tiradas num segundo por um carro, por uma queda, um acidente?

E de repente já não estar. De repente, aquele pedaço da sua vida, tão certo, tão seguro, já não existir. O Nelson já não existia e, mesmo não sendo um dos personagens principais da sua vida, a sua morte tocou-a como se fosse. Porque o Nelson não era só ele. Ele era a própria Filipa. Era a Fabi, a Aida, a Cat, a Mafalda, a Sílvia, a Cátia e as outras amigas próximas. Ele era o namorado, Nelo. Ele era o pai e a mãe. Ele era a avó. Ele era todas as pessoas de quem gostava muito e que a qualquer momento poderiam deixar de existir. E não havia nada que pudesse fazer para mudar isso.
Filipa não tinha medo da morte, aliás, por ser enfermeira encarava-a com a naturalidade de quem encara algo que faz parte da sua vida. Mas nesse momento sentiu um pânico enorme e uma urgência de viver crescer-lhe no peito. Teve muito medo.
Abriu os olhos e decidiu que não mais adiaria as coisas que pudesse fazer. Não queria deixar nada por dizer, nada por fazer.

Toda a vida, Filipa se protegera de viver. Toda a vida foi cuidadosa na escolha de quem abria o seu coração, e não apenas em termos amorosos. Por vezes o coração não se abria de todo, e só as pessoas que a aceitavam tal como era acabavam mais cedo ou mais tarde por entrar. Quando lá chegavam podiam perceber que não mais de lá sairiam.

Com esta consciência, sentia que agora procuraria abraçar tudo o que tinha de mais precioso: a sua família, os seus amigos, o seu namorado. Tentaria aproveitar todos os abraços, todas as saídas, todos os beijos, todas as conversas.

Respirou fundo e acalmou-se um pouco. Disse mais uma vez a si mesma que a vida são os passos que damos, que são as nossas opções. E as opções que a vida toma são o que não controlamos.

E de repente apercebeu-se: a vida tem coisas que não controlamos e coisas que escolhemos a cada segundo.

E as opções que tomamos em cada momento são nossas. A opção de estar com os amigos e aproveitar a sua presença, a opção de usufruir da casa, de sentir gratidão pelo emprego, por não faltar nada na mesa, por amar e ser amada, por existir.

Era o sentir-se grata por cada momento de alegria e abundância. Fechar os olhos e sentir alegria e gratidão, pelo calor da casa, pelo cheiro a comida e a lenha a queimar. O pelo dos gatos a passar-lhe nas mãos um a um quando se senta no sofá. De olhos fechados grata pelos amigos presentes nas ocasiões banais e especiais. De olhos fechados porque a vida ia levá-la às cegas pelos caminhos que bem entendesse, de qualquer das formas. Fechava os olhos porque deixava de resistir, e deixava-se levar, decidida apenas a aproveitar cada momento do caminho o mais que pudesse e a tomar todas as opções que achasse que a iriam conduzir à felicidade, mesmo sem ter a certeza que isso iria acontecer.

Nessa noite, já tarde mas de olhos ainda abertos na cama, abraçou o namorado com força e sem falar. Ele tinha-a conquistado havia anos e tinha-se tornado uma parte da sua vida. Sentia-o como uma criatura sem igual, que sem razão aparente a tinha conquistado. Pensou em quem eram ambos e lembrou-se que muitas vezes a vida dos outros também tem que ser preenchida por alegria, e que muitas vezes somos nós que a temos trazer alegria às vidas dos outros. Pensou nas tantas concessões que fazia para agradar a colegas, a amigos - mas será que se mostrava um bloquinho de gelo perante aquele homem? A pessoa com quem provavelmente iria passar mais tempo na sua vida? Ela assim o desejava, mas e se assim não fosse esse, o destino? Como se sentiria se o perdesse? Mas mais ainda, se o perdesse sem ter mostrado o quanto o amava? Sentir-se-ia culpada - perdida e culpada.

Sentindo a sua agitação muda, ele abraçou-a um pouco mais.

Não, não poderia deixar nada por dizer, nada por fazer.

Fechou os olhos. À memória veio-lhe aquela música. E como uma música pode dizer tanto sobre ela e ele. A Filipa tinha medo dos passos a dar, de amar alguém quando já tinha sido abandonada. Mas ao ver aquele rapaz, tímido e doce, quando a esperava, quando a olhava, as suas dúvidas de alguma forma se dissipavam.

A melodia começou a tocar na sua cabeça, a letra a passar no seu coração. Abriu os olhos. A decisão estava tomada, e naquele dia de Dezembro, este dia já existia.


sábado, dezembro 15, 2012

João Paulo

Lembrava-se de uma terra na Polónia que não tinha placas nem sinalizações quase nenhumas, de tão perdido que se sentia.

Os habitantes daquela zona tinham eliminado todas as sinalizações para que os estrangeiros nazis não encontrassem as coisas com facilidade e assim vissem um pouco mais dificultada a sua missão de invadir.

Os estrangeiros ainda hoje, mesmo com GPS, chegavam àquela zona do interior do país e sentiam-se desorientados sem uma confirmação in loco de que aquela era mesmo a rua que procuravam, a casa que queriam encontrar.

Naquela altura uniram-se para eliminar tudo: nomes de povoações, setas indicativas, números de portas, nomes de estabelecimentos, etc. Quem era dali sabia onde ficava tudo ou podia perguntar; quem não era, também não interessava que soubesse.

Depois da invasão - que aconteceu na mesma - e da evasão de tanta gente, os que permaneceram ficaram com tantas outras coisas a braços que apenas pontualmente se lembaravam de repor as sinalizações.

E aquela zona da Polónia parecia uma espécie de nenhures, um local suspenso no tempo e sem localização certa onde as pessoas de fora se sentiam permanentemente perdidas.

E João Paulo sentia-se assim.

Toda a vida se identificara como "o irmão da Teresinha". Teresinha, a irmã mais velha, era a menina bonita e inteligente que toda a gente conhecia e admirava.

João Paulo não tinha outra hipótese senão ser "o irmão da Teresinha". Às vezes nem tinha nome, as pessoas referiam-se a ele direta e indiretamente como "o irmão da Teresinha". E ele passou toda a vida a afirmar a sua identidade, a pedir à irmã para parar de o apresentar como "o meu irmão", para o apresentar pelo seu nome, que era um individuo com valor próprio e identidade, não era um apêndice da Teresinha.

A sombra da excecionalidade de Teresinha era tão grande que João Paulo acabou por pedir para ir para outra escola, noutra terra e fez questão de não ir sequer para a mesma Universidade, num acesso adolescente de ciúme incontido.

Com o passar do tempo, deixou de se zangar e começou a achar uma certa graça, como tantos anos depois de nem ele nem Teresinha viverem em Vila Verde, as pessoas continuavam a referir-se a ele - que na cidade em que vivia era uma personalidade importante, sempre tratado com tanta reverência - como "o irmão da Teresinha".

E sorria quando ouvia na mercearia perto de casa dos pais a D. Alda dizer para a filha para trazer a encomenda de pão, que estava lá "o irmão da Teresinha". Mas fazia questão de corrigir a senhora, reprimindo levemente: "sou o João Paulo, D. Alda".

Quando tinha pouco mais de 40 anos, Teresinha morreu.

A dor absurda agarrava o peito de João Paulo como se fosse uma hera galopante, dilacerando-o e dificultando a sua respiração, atraindo insetos, morcegos e fantasmas que queriam assombrar-lhe a alma. João Paulo passeava por Vila Verde à espera da hora do funeral e de repente a sua cidade natal parecia-lhe a cidade polaca onde havia estado havia quase vinte anos.

Sentia-se perdido, como se estivesse suspenso no tempo e no espaço. Fizesse o que fizesse, João Paulo continuava a ser "o irmão da Teresinha" e esta marca que o irritara tão profundamente, passou com os anos a fazer parte da sua identidade de forma tão implicita como o faria anos mais tarde ser referido como o "pai da Beatriz".

E agora, se Teresinha deixara de existir, ele era quem?

Durante o penoso velório, João Paulo, sentado no banco da frente da igreja com a restante família como manda a tradição, não conseguia abandonar este pensamento. Ouvia murmúrios das muitas pessoas que os vinham cumprimentar e aguardar pelo momento do cortejo fúnebre "Carolina, como é que se chama o irmão da Teresinha?" "Acho que é João. Ou Jorge? Olha, sei que começa com J. Ou seria José? Ó Firmino, como é que se chama o irmão da Teresinha?"

E nesse momento, percebeu o que toda a vida lhe tinha escapado.

Ele não era uma pessoa qualquer. Ele não era um habitante da sombra, uma personagem secundária. A sombra de Teresinha nunca havia sido o lugar escuro que ele projetava que fosse, era um lugar quente e cheio de luz, porque as pessoas gostavam imediatamente dele quando sabiam que ele era "o irmão da Teresinha" e invariavelmente esta associação favorecia-o. Mesmo se não o conhecessem, e mesmo se primeiro não tivessem ido com a cara dele, ser "o irmão da Teresinha" toda a vida tinha sido um passaporte maravilhoso que lhe dava acesso à boa vontade e até ao empenho de todos os que tinham essa referência.

Ele era um privilegiado, porque ele não era um qualquer; e todas as outras pessoas poderiam ser muito amigas da irmã e gostar muito dela, ter passado muito tempo com ela.

Mas ele é que era "o irmão da Teresinha".

E nunca mais fez questão que o tratassem pelo nome na terra, incitando as pessoas que se acanhavam de mencionar a falecida, que o chamassem como sempre haviam feito: "o irmão da Teresinha".